Geografia Simbólica Dos Cemitérios Em Perspectivas

London Journal of Research in Humanities and Social Sciences
Volume | Issue | Compilation
Authored by Christian Dennys Monteiro de Oliveira , NA
Classification: NA
Keywords: NA
Language: English

Dormitório, lugar do repouso eterno, espaço-reduto da atividade fim, necrópole, necrótopo ou campo-santo, pretendemos discutir o espaço físico destinado ao enterro, sepultamento ou inumação. Para tanto, tomamos o cemitério enquanto objeto e caminho de investigação geográfica, propondo um conjunto de perspectivas que qualificam tais equipamentos como representação simbólica da paisagem, provendo sentido à espacialidade da morte, e demonstrando seus  gnificados. Considerando a paisagem enquanto texto interpretativo (COSGROVE; JACKSON; 1987), o valor intangível da ritualização do luto, o papel difusor de referência e recordação acionado pela memória, a turistificação do cemitério e sua categorização enquanto mercadoria, a patrimonialização que transcende sua função utilitária e a utilização das necrópoles enquanto recurso educacional didático-pedagógico. O intuito deste ensaio, portanto, consiste em evidenciar as múltiplas possibilidades e perspectivas de análise do cemitério, a partir das contribuições da Geografia para além de um elemento das restrições funcionais que reduzem sua potencialidade interpretativa na contemporaneidade. Os resultados desse estudo apontam para a ampliação da capacidade de revitalização das necrópoles diante das demandas culturais e patrimoniais de formação educativa. 

               

Geografia Simbólica Dos Cemitérios Em Perspectivas

Alcimara Aparecida Föetschα & Christian Dennys Monteiro de Oliveiraσ

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RESUMO

Dormitório, lugar do repouso eterno, espaço-reduto da atividade fim, necrópole, necrótopo ou campo-santo, pretendemos discutir o espaço físico destinado ao enterro, sepultamento ou inumação. Para tanto, tomamos o cemitério enquanto objeto e caminho de investigação geográfica, propondo um conjunto de perspectivas que qualificam tais equipamentos como representação simbólica da paisagem, provendo sentido à espacialidade da morte, e demonstrando seus significados. Considerando a paisagem enquanto texto interpretativo (COSGROVE; JACKSON; 1987), o valor intangível da ritualização do luto, o papel difusor de referência e recordação acionado pela memória, a turistificação do cemitério e sua categorização enquanto mercadoria, a patrimonialização que transcende sua função utilitária e a utilização das necrópoles enquanto recurso educacional didático-pedagógico. O intuito deste ensaio, portanto, consiste em evidenciar as múltiplas possibilidades e perspectivas de análise do cemitério, a partir das contribuições da Geografia para além de um elemento das restrições funcionais que reduzem sua potencialidade interpretativa na contemporaneidade. Os resultados desse estudo apontam para a ampliação da capacidade de revitalização das necrópoles diante das demandas culturais e patrimoniais de formação educativa.

Palavras-chave:cemitério; geografia; perspectivas de análise.

ABSTRACT

Dormitory, place of eternal rest, space- environment of the end activity, necropolis, “necrotope” or campo-santo, we intend to discuss the physical space intended for different forms of burial. For that, we take the cemetery as an object and path of geographic research, proposing a set of perspectives that qualify such equipment as a symbolic representation of landscape, making sense of the spatiality of death, and demonstrating its meanings. Considering the landscape as text interpretative (COSGROVE; JACKSON; 1987), the intangible value of the mourning periodic, the role reference and recall diffuser powered by memory, the tourist transformation of the cemetery and its categorization as a commodity, the expansion of heritage that transcends its function utilitarian and the use of necropolises while didactic-pedagogical educational resource. O purpose of this essay, therefore, consists of highlight the multiple possibilities and perspectives of analysis of the cemetery, from the Geography contributions beyond a element of the functional restrictions that reduce its interpretive potential in the contemporaneity. The results of this study point to the expansion of the revitalization of necropolises in the face of cultural and heritage demands for training educational.

Keywords: cemetery; geography; analysis perspectives

  1. INTRODUÇÃO

“[...] aeternam dona eis [...].

Liturgia católica do Ofício dos Mortos: “Dai-lhes o repouso eterno”.

(MIRANDA, 1999, p. 81).

Uma visita ao centro da cidade de Fortaleza – estado do Ceará, no nordeste do Brasil – especialmente no dia 02 de novembro (feriado do dia de Finados, em todo o país), permite ao visitante o encontro de reuniões familiares, feira popular, e dinâmicas sociais de vizinhança incomuns em outros dias do ano. A imagem que utilizamos para abrir esse estudo registra a mobilização nas missas especiais do cemitério central da cidade, o São João Batista e a forma dos visitantes ocuparem a paisagem de túmulos, observada a partir de uma perspectiva horizontal do cemitério. Nesta imagem (Figura 01) o ato de ver os túmulos se articula ao exercício cotidiano de rever a cidade que os mortos continuam representando. Que expressão simbólica tal perspectiva pode incluir, em novas perspectivas (paisagística, ética, educativa e turística), no que concerne às representações de um cemitério no espço geográfico?

O enfrentamento dessa questão, fazendo dialogar autores dedicados ao tema e situações que temos reunido em pesquisas sobre a geografia cultural, é o que trazemos para esse trabalho.

Figura 1: Cemitério São João Batista, em Fortaleza-CE

Fonte: Acervo dos Autores (2019)

O desaparecimento do ser vivo associado à fertilidade do pensamento humano promove desassossegos, aflições e fantasias, cujas repercussões se sobrepõem e ficam impressas na paisagem geográfica. Espaço privilegiado, pleno de significados e sociabilidades, os “lugares da morte” ou necrópoles/necrótopos, em suas múltiplas perspectivas, evidenciam um espaço simbólico em que estas impressões podem ser percebidas, propondo o que Pegaia (1967) chamaria de estudo geográfico do cemitério. Estes representam um “item de um conjunto bem maior, que se poderia chamar de ‘Geografia da Morte’” (p. 103) e “o geógrafo que se dispuser a abordá-lo, encontrará nos cemitérios um interessante ‘laboratório’ para suas pesquisas” (PEGAIA, 1967, p.119).

Grisales (2017), ao enfocar o discreto encanto dos cemitérios, afirma que os enfoques que integram discursos sobre a morte são construídos “sin haber estado (el antropólogo) muerto, sin haber realizado trabajo de campo en el estado de la muerte, sin penetrar ni cohabitar con los difuntos en su sociedad silenciosa, conociendo poco de ella y sin poder acompañar al objeto de estudio” (GRISALES, 2017, p. 79-80). Trata-se de um discurso elaborado por razões e emoções do outro, daqueles que nunca morreram, tornando os cemitérios espaços de lembranças vivas, locais onde se projetam valores, estruturas ideológicas e socioeconômicas (BELLOMO, 2008), pois “são lugares para os vivos e [...] os monumentos funerários e esculturas ali instaladas dizem mais respeito de seus autores e de seus clientes, do que as pessoas que ali estão enterradas” (BORGES, 2004, p. 08).

Um apanhado histórico nos mostra que a sociedade brasileira, até o sec. XIX sepultava seus mortos em espaços eclesiais, independente de classes social. Tratava-se do enterramento ad sanctos, prática que foi proibida a partir da Primeira República (1989-1930), deslocando os campos santos rumo aos arredores dos povoados e cidades, incitando uma “verdadeira busca pela demonstração de nobreza e opulência: suntuosos túmulos de arquitetura especializada passam a ser construídos e adornados por esculturas de figuras e signos próprios” (SANTOS, 2011, p. 190-191). Também no final do século XVIII, o discurso médico-higienista e um novo pensamento ocidental diante da morte deram início a uma nova espacialização[1], originando justamente espaços próprios, os cemitérios, tidos como morada dos mortos, expressivo em representação e simbolismo (COSTA, 2003).

Local onde se dorme, lugar das inumações, carneiros, ossuários ou recinto das sepulturas, vários são os batismos e alcunhas. No Brasil, quando da morte de alguém, “sempre prevaleceu a técnica da inumação, totalmente consolidada pela tradição” (PEGAIA, 1967, p. 103) e considerando as dimensões territoriais associadas a diversidade cultural do país é possível presumir a pluralidade e a riqueza que estes espaços podem revelar. Aproveitamo-nos, destarte, da possibilidade de tomar o cemitério enquanto objeto de investigação geográfica.

Neste horizonte, nos propusemos e refletir sobre a necrópole considerando perspectivas distintas com o intuito de qualificar o cemitério enquanto espaço simbólico. Partimos do enfoque geográfico-cultural da paisagem, buscando compreender o texto que revela o processo formativo de seus cenários; assim como suas várias camadas de representação, percebendo, inclusive, as experiências vivenciadas com relação à vida e a espacialidade da morte. Em seguida, objetivando valorizar o intangível, discutimos a ritualização do luto, a mitificação da vida para além da morte e a teatralidade de ambos os processos, evidenciando linguagens, celebrações e práticas performativas que vão de encontro à espiritualidade e o desconhecido (imaginado), e se processam auxiliando na lida com a ausência, a perda, a culpa, a saudade e o remorso. A paisagem e o ritual nos guiaram à perspectiva da memória, a perceber os cemitérios e seu papel difusor de referência e recordação, são lugares que oportunizam o direito às lembranças e a imortalização do sepultado na terra. São repositórios do “fazer recordar”, de fabricação do imortal, de enraizamento territorial. Isso ao mesmo tempo, em que calam almas solitárias, encobertam mortos anônimos, retratam o abandono e perpetuam o esquecimento.

Impossível pensar o cemitério sem considerá-lo enquanto potencialidade socioambiental, para uso turístico e de lazeres contemporâneos. Edificado, construído e vivenciado por distintas coletividades, atrai verdadeiras peregrinações para visita a suas marcas elementares: personalidades, heróis, celebridades, arte, genealogia, estilo construtivo, paisagismo, adornos e artesanato. Essa turistificação do cemitério associa dimensões mercadológica e simbólica simultaneamente. E tal enquadramento nos aproxima da reflexão sobre sua patrimonialização, na qual a necrópole pode ser tida como um museu a céu aberto e alimentada por uma rede de significados, repositório de identidades e espaço privilegiado para fomentar educação patrimonial. Tal encadeamento orienta a última perspectiva observada: a didático-pedagógica. Por meio desta, reconhecemos que os cemitérios podem promover, para além do assombro e do temor, profícuos diálogos interdisciplinares, figurando como espaço educacional, aberto a incentivar a formação de agentes multiplicadores de suas representações.

Dessa maneira, o cemitério enquanto campo de representação simbólica estabelece um equilíbrio vital que permite ao ser humano dar sentido à morte, significando-a. Arena teatral, a necrópole, faz transparecer os sentimentos religiosos através dos signos e símbolos que os identificam e que podem ser notados, evidenciados e discutidos pelo viés geográfico.

No Brasil, o dia 02 de novembro, seguindo o calendário de festas católicas, sincretizadas ou não com outras cresças populares, temos um feriado oficial e um ato regular de visitação aos Cemitérios; seja em áreas densamente urbanizadas ou em povoado rurais e distantes. Assim como em outros países latinos, afro descendentes e ameríndios, o ritual de visitação aos túmulos dos antepassados mobiliza a busca pela reconexão existencial na realidade terrena, muitas vezes vivida de maneira apartada dos valores existenciais mais significativos. Por isso, para completar nossa metodologia de análise dessas perspectivas (paisagística, ritual, memorialista, turística e educativa) indicamos a observação, ainda que panorâmica, de 2 casos que intercalam diferente motivações para construção multifacetada das representações culturais da necrópole.

O primeiro exemplo, com predomínio das marcas de ruralidade e memória devocional, representado pela sutil conjugação entre a busca de significados para os falecimentos infantis e a herança da santidade popular de São João Maria, cuja tradição de líder e curandeiro marca a região da Guerra do Contestado no Sul do Brasil. E o segundo, expresso pela sobreposição de políticas eclesiais, de lazer e educação artística, envolvendo as comunidades urbanas de Ocara-CE, cuja iniciativa de valorização da localidade no Dia dos Mortos, capitaneou espaço de disputas culturais inesperadas para um contexto de religiosidade católica, tão avessa à ocasião.

  1. A PERSPECTIVA DA PAISAGEM – CENÁRIOS DA MORTE: A SOBREPOSIÇÃO DE TEXTOS

“[...] o geógrafo que se dispuser a abordá-lo, encontrará nos cemitérios um interessante ‘laboratório’ para suas pesquisas”.

(PEGAIA, 1967, p. 119).

Ao propor um enfoque sobre o cemitério na perspectiva geográfica da paisagem, valemo-nos inicialmente das considerações de Sopher (1967) quando este destaca que “uma das preocupações da geografia da religião é entender como a paisagem se associa a um conjunto de sistemas religiosos e modelos de religiosidade que estão condicionados a comportamentos” (p. 24). Cymbalista (2002) nos desafia nesta perspectiva, ao chamar a atenção para o fato de que a paisagem contemporânea dos cemitérios é fruto da sobreposição de várias camadas de representações construídas, sendo que muitas vezes a “camada” que percebemos é apenas a mais recente (p. 21). Assim sendo, decodificar os históricos sistemas religiosos e religiosidades diversas que, ao longo do tempo e no espaço, construíram e reconstruíram a territorialidade da morte é tarefa provocadora.

Inegavelmente, a paisagem é terreno fértil para os geógrafos culturais (COSGROVE; JACKSON, 1987) sendo que a tarefa de todo geógrafo cultural é, portanto, dupla: explorar o universo das representações mentais e estender sua tradução para a paisagem (CLAVAL, 1992). Neste sentido, esta pode ser analisada considerando duas perspectivas no campo religioso: como marca da experiência religiosa no lugar e como matriz identitária dessa experiência (BERQUE, 1998). Também é interpretada como texto que permite múltiplas leituras (DUNCAN, 2004, p. 106). Transportando estes apontamentos teóricos para o espaço cemiterial, pode-se dizer que compreender a paisagem significa ser requisitado a decifrar o universo mental religioso, perceber as experiências vivenciadas com relação à vida/morte e o processo formativo da paisagem social influenciada pela religião.

Bellomo afirma que os “cemitérios reproduzem a geografia social das comunidades e definem as classes sociais” (2008, p. 15) funcionando como um espelho da sociedade que o cria. É um espaço onde se projetam valores, crenças, estruturas socioeconômicas e ideologias, indo da área dos ricos (suntuosos mausoléus), passando pela área da classe média (túmulos familiares) até a parte dos pobres e indigentes (covas rasas). Reis (1999, p. 127) chamaria de “hierarquização” das sepulturas. Isso porque a condição igualitária do espaço de morte existe apenas no discurso. De fato, diferenças sociais até se acentuam, pois nos cemitérios as estruturas socioeconômicas e ideológicas são reproduzidas na paisagem, visíveis aos olhos de todos.

Rezende (2007) ao escrever especificamente sobre os cemitérios destaca que elementos e materiais nos remetem a quem está sepultado, conferindo certa imortalidade ao espaço, visto que as “construções tumulares, a decoração das covas, os epitáfios e as fotografias, além dos elementos religiosos, mostram como a morte e o morto são tratados pela comunidade” (SANTOS, 2011, p. 192). Orser (1992) comenta que todas as sociedades construíram objetos físicos para ajudá-las a sobreviver, a compreender o mundo em que vivem, a comunicar-se. Assim, a sociedade, ao dar sentido aos objetos e lugares, assegura que “todos os artefatos têm ‘vidas sociais’, já que são possuidores de importantes sentidos sociais e são usados de modos variados, para significarem coisas diversas, no decorrer de sua existência” (p. 98). O cemitério, nestas considerações, emerge como espaço de vivência e comunicação, possuidor dos mais variados sentidos sociais e simbólicos.

Nesta proposição, a paisagem do cemitério, ao carregar a “memória social de determinada época” (RICHTER, 2005, p. 47) pode sugerir diversas interpretações. Entre as possíveis, destacamos:

  1. As edificações e seu estilo construtivo: mini-igrejas, mausoléus, jazigos, capelas, e covas rasas que permitem estabelecer uma reflexão sobre os aspectos socioeconômicos do lugar e da sociedade que o constrói, onde são possíveis análises sobre a hierarquia social;
  • Aspectos históricos e sociais: as origens históricas dos lugares, as ideologias políticas, sociais e culturais, elementos étnicos, genealogias, representações de poder, o sincretismo e a democratização dos espaços, personagens icônicos e demais associações com a história e a sociedade podem ser muito bem exploradas por meio da paisagem cemiterial;
  • As manifestações artísticas da morte: que pode ser percebida na estética da paisagem cuja linguagem material revela recordatórios, relicários, uma arte tumularia artesanal, homenagens pictóricas, epitáfios primorosos, túmulos oratórios transformados em altares, adornos tão bem planejados e construídos;
  • As oferendas e ex-votos: visíveis em sua materialidade são os artefatos de memória, revelados nos túmulos e lápides: nomes e informações pessoais, elementos que revelam o ofício/trabalho tido em vida, homenagens, fotografias que eternizam momentos felizes, santos de devoção, cruzes, signos religiosos, coroas, flores, objetos pessoais, pertences, epitáfios, dizeres, mensagens bíblicas, saudações e até cenários que recriam os espaços em vida;
  • O espelho da sociedade dos vivos: com o passar do tempo passou-se a valorizar um ordenamento estrutural e paisagístico dos cemitérios: arruamentos, numeração de registro e identificação, placas informativas, arruamentos, quadras, corredores, praças, capelas e demais construções e elementos que objetivam dar suporte ao uso destes espaços.

Dessa forma, concebendo a paisagem como produto da “ação humana ao longo do tempo” (CORRÊA; ROSENDAHL, 1998, p. 08) percebemos sua dimensão histórica e social ao ser portadora de significado e simbolismo que carrega o espaço de afetividade e identificação, notadamente nos cemitérios, tendo em vista que as materialidades das edificações e do estilo construtivo revelam muito sobre a história e a sociedade que as produziu. Isso somado às manifestações artísticas, às oferendas e ex-votos permite afirmar que o cemitério pode ser entendido como espelho da sociedade dos vivos, inclusive em seus rituais.

  1. A PERSPECTIVA DO RITUAL DE LUTO E SUA TEATRALIDADE

“Morre-se em qualquer parte do Mundo, sob a condição preliminar de estar-se vivo. – Tanto se morre em Pequim, Como em Quixeramobim! [...] Mas os defuntos não são iguais aos olhos dos conterrâneos. Os cerimoniais mudam”.

(CAMARA CASCUDO, 1971, p. 93).

Perpassando a linguagem material da paisagem, celebrações, missas, rezas e demais práticas verbais e performativas dão vida ao cemitério enquanto local de tristeza, despedida, introspecção, ausência, caridade, acolhimento e esquecimento, encontro com a espiritualidade e o desconhecido (imaginado). Observar as diferentes formas de se relacionar com esses campos-santos significa ser desafiado a compreender o sincretismo que funde as diversas concepções sobre a morte e o morrer, inclusive, as reflexões e recomposições do sentido da vida. São os túmulos agindo como elementos de mediação entre quem vivo constrói a identidade do que se foi, pois para Damatta (1997, p. 146) vivemos em uma sociedade na qual “os vivos têm relações permanentes com os mortos”.

Bellomo (2008) escreve que devido ao sentimento desconforme e renitente perante a morte, surgem ritos, referências e magias, atos de várias espécies, mas que no fundo apresentam tão somente o inconformismo com essa condição e uma incansável busca por sobreviver em outra dimensão. Morre-se, de fato, tanto em Pequim como em Quixeramobim, contudo, certamente, os rituais e experiências se diversificam. Neste sentido, Vovelle (2004) enfatiza que “a história da morte é de fato a história de toda uma série de artimanhas, de mascaramentos, de evitações, mas também de criações de imaginário coletivo em relação a uma passagem obrigatória em toda existência humana” (p. 59).

Trata-se, entre outras perspectivas, da ritualização do luto, que implica em teatralizar culturalmente esta passagem. Nos cemitérios, a própria paisagem - cenário cultural de continuidade e depuração da morte na geografia dos vivos - demanda aspectos rituais que indicam e revelam formas de conviver com a ausência: a perda, a culpa, a saudade e o remorso. As oferendas e ex-votos, visíveis aos olhos, ornamentam e diferenciam os túmulos. As velas que iluminam o caminho de quem se foi, as coroas de flores, os pertences que retratam a personalidade do morto (instrumentos de sua representação), as imagens e ícones dos santos de devoção, a localização da tumba na ala nobre ou marginal do cemitério e o estilo construtivo e adornos das sepulturas muito revelam sobre os rituais ali representados e vividos. Bastam alguns momentos no cemitério para que possamos ler a paisagem edificada e experienciada para além da sobreposição histórica de seus elementos visíveis. É possível, para além de ver, imaginar os rituais professados.

Importante registrar as práticas rituais que se associam, nos cemitérios, às figuras santificadas (sobretudo, popularmente), cuja mitificação heroica da vida do morto é marcada por vivências sublinhadas em oferendas, pedidos, orações e agradecimentos, o túmulo se transforma em altar. Quase sempre a trajetória em vida se associa a um martírio, sacrifício, tragédia, sofrimento ou tortura, tornando o(a) falecido(a) digno de glorificação e reverência, estando apto, inclusive, a operar milagres e conceder graças. Ouvem-se e espalham-se as narrativas das dádivas, as visitações se multiplicam, o túmulo torna-se local de encontro, sociabilidade, peregrinação e fé, sendo que os rituais revelam a diversidade das crenças e o perfil dos romeiros. Questionamos, dessa forma, por que e quem realmente se apropria do cemitério e o que ele representa enquanto espaço ritual?

Impossível refletir sobre a ritualização do luto nos cemitérios sem assinalar as práticas culturais associadas ao sepultamento infantil. Aos heróis adultos, que foram canonizados ou santificados, as oferendas são condizentes com sua trajetória em vida, por outro lado, às crianças que precocemente faleceram os ex-votos objetivam acarinhar e afagar os pequenos anos cuja passagem foi encurtada pelos mais variados motivos. São balas, doces, chocolates, brinquedos, roupas e até pertences de outras crianças carinhosamente depositados sobre os túmulos evidenciando a dolorosa despedida de quem partiu cedo demais ou nasceu para não viver. Em alguns lugares, até os sete anos, são chamados de anjos cuja brevidade da vida não permitiu pecar. Registram-se também os cemitérios exclusivamente infantis, por vezes, associados a um protetor religioso ou a um santo. Os rituais percebidos nesses campos santos indicam “confidências”, como a não aceitação do luto infantil.

É possível também perceber o cemitério enquanto espaço ritualístico, cuja associação permite desfrutar de sentimentos de paz, harmonia, tranquilidade; sendo que em algumas necrópoles o paisagismo dá origem a um cenário bucólico e idílico, permitindo um encontro direto com cada espiritualidade, dores, angústias e sofrimentos oriundos da separação material dos entes amados. Isso se torna perceptível nos cemitérios parque jardim e memoriais quando os elementos visíveis do entorno dos túmulos arquitetam uma brisa aprazível ao lugar, atraindo, assim, novas práticas e experiências rituais muito ligadas à natureza e a manifestações artísticas.

Dessa maneira, concordamos com Guerrero (2011, p. 193) quando este afirma que os cemitérios são vistos “como lugares de significado y aprendizaje para rastrear las huellas y memorias de todos aquellos procesos históricos y culturales que definen a una región, pero vista a través de sus muertos y prácticas rituales”. A universalidade da morte lega ao imaginário coletivo práticas culturais (ritos) que se revelam na paisagem enquanto cenários da morte. Assim como práticas verbais e performativas, que envolvem a teatralidade da despedida, na mitificação heroica e santificação de personagens (virtuosos e/ou martirizados), de todas as idades, “acolhidos” nesse espaço, aprazível e aberto ao desconhecido. Acrescentamos que se tratam, portanto, de lugares de memória, sendo que “só é lugar de memória se a imaginação o investe de uma aura simbólica [...] só entra na categoria se for objeto de um ritual” (NORA, 1996, p. 21), mesclam-se na projeção de ritos e recordações.

  1. A PERSPECTIVA DA MEMÓRIA E DAS RECORDAÇÕES

Los ‘difusores’ de la memoria por excelencia son los monumentos a los muertos, las necrópolis, los osarios, etc. y, de manera más general, todos los monumentos funerarios que son el suporte de uma fuerte memoria afectiva”.

(CANDAU, 2006, p. 93).

Richter (2005), ao analisar documentos epigráficos, destaca que o “cemitério carrega a memória social de determinada época” (p. 47) e quando combinamos sua reflexão com a de Candau (2006) reportada acima, temos que a memória ao se enraizar no concreto e no visível permite fazer das necrópoles um ingrediente difusor na busca por referências passadas e recordações. É o que, nesta perspectiva, chamamos de “lugares de memória”, ou seja, que “nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea” (NORA, 1996, p. 13), sendo necessário cria-la, organizá-la, pois estas operações não são naturais. Dessa forma, os cemitérios acionam, por meio de elementos visíveis e intangíveis, diferentes tipos de recordações e lembranças. Bastianello apresenta como “o túmulo ou monumento tumular que se torna lugar de memória, sua edificação oportuniza o direito à memória, à imortalização do sepultado na terra” (2010, p.98), ou seja, os artefatos e elementos cemiteriais proporcionam referências acerca tanto do falecido quanto da própria história social.

Santos (2011), ao discutir o processo de dessacralização da morte, contribui no sentido de afirmar que os campos santos são considerados “hoje como lugares de memória, como um cenário composto por jazigos-capelas, túmulos monumentais, esculturas e símbolos que ultrapassam sua função” (p. 187), se convertendo, desta forma, em locais de preservação da história social e se tornando patrimônios culturais dos lugares. Neste sentido da criação e apropriação da memória, Le Goff (1994, p. 535), ao discutir a questão das memórias coletivas, coloca que esta pode ser analisada a partir de dois materiais: monumentos e documentos. Os primeiros se relacionam ao desejo de perpetuar testemunhos e legados de um povo, ao passo que os documentos se constituem de provas históricas.

Assim sendo, o cemitério pode ser entendido como um cenário que faz parte do cotidiano e age como repositório de memórias que podem ser históricas, sociais, emocionais, devocionais, estéticas, políticas e ambientais cujos elementos objetivam acionar lembranças e indicar referências, acionando Ricoeur (2008) podemos dizer que a memória consiste em uma modalidade temporizadora que se refere ao passado por meio do ato de recordar.

De uma forma mais objetiva, Santos (2011) coloca que os jazigos “suntuosos ou modestos são espaços onde se encontram traços pulsantes da memória daquelas pessoas, verdadeiras obras arquitetônicas que mostram o prestígio dos que lá residem, em especial dos ilustres da história local” (p. 230), recordatórios e relicários também são elementos e/ou adornos que se destacam por mobilizarem memórias diretas dos falecidos, nas palavras de Guerrero (2011), portanto, o cemitério “no es simplemente un depósito de restos humanos” (p. 204).

Abreu afirma que no campo da memória, os contornos do sujeito são “delimitados fundamentalmente a partir das construções póstumas. Máscaras mortuárias, discursos por ocasião do enterro e biografias são algumas das formas de manter viva a memória do indivíduo. Memória que, diga-se de passagem, é construída item por item” (1996, p. 67), desta forma, é através dos indicativos póstumos que se inicia a construção da memória do herói, da sua imortalidade.

O contraponto, no discurso da mitificação dos mortos, dá-se por anonimato. O cemitério também abriga, especialmente em suas galerias periféricas, os chamados por Losonczy (2015) de mortos não reivindicados, cujo conjunto “é representado na efígie da ‘anima sola’ (‘alma solitária’, conglomerado de mortos anônimos [...]” (p. 464) e constituem “a figura mesma da dissolução da identidade: sem sepultura individual, sem nome, sem narrativa sobre sua vida que os situe em uma individualidade” (idem). Figura o abandono e o esquecimento post mortem. É bastante comum encontrar nos cemitérios espaços dedicados aos indigentes ou mesmo túmulos abandonados cujas memórias já se dissolveram no tempo.

Entremeio aos extremos dos mortos emblemáticos e dos mortos não reivindicados, figura uma série de perspectivas, visto que os cemitérios permitem “dar cuenta de la complejidad y reapropiación social a través de un mapa de representación de memorias como herramienta para la construcción de un conocimiento.” (GUERRERO, 2011, p. 206), sendo que o exercício de seu entendimento permite “construir y organizar memoria, conmemorar el pasado, resignificar el presente, activar el olvido y luchar contra el silencio.” (idem).

V.   A PERSPECTIVA DE NOVOS USOS: LAZERES E TURISMO

Ao enfocar a arte, a história, o turismo e o lazer em cemitérios de São Paulo, Osman e Ribeiro (2007) destacam que estes são espaços carregados de história e memória e que o lazer e o turismo nesses locais podem significar uma forma de contribuição para a sua preservação, introduzindo a próxima perspectiva a ser considerada.

O cemitério é, de fato, um atrativo turístico consolidado nos diferentes lugares do mundo (OSMAN e RIBEIRO, 2007), roteirizado e procurado por estudiosos dispostos ler suas paisagens-códigos, rituais e memórias como “atrativos”. Desde sua origem, após a proibição dos enterros ad sanctos pós Brasil colonial, ou seja, no início da Primeira República (SANTOS, 2011) e, sobretudo, com as políticas higienistas do século XIX (BASTIANELLO, 2010), vem se apresentando enquanto espaço simbólico construído e edificado por distintas coletividades e, como tal, dotado de características peculiares capazes de promover verdadeiras peregrinações. Boa parte destes é marcada pela mistura de identidades, religiosidades e diferentes formas de encarar e compreender a morte como representação dos lugares de vida.

Além das jornadas aos túmulos dos mortos santificados, temos a visitação turística aos túmulos de personalidades, heróis e celebridades. São visitações, por vezes, guiadas e pertencentes a roteiros religiosos, acadêmicos, que podem ser realizadas individualmente ou em grupo. Durante o percurso, obras de arte, estilos construtivos, paisagismo, adornos e até o artesanato local podem ser vistos e apreciados. Pegaia (1967) coloca ainda que o fator nacionalidade manifesta-se também de maneira peculiar em certos cemitérios. Entre eles, podemos destacar os de origem étnica e sua incessante caça por genealogistas e interessados em busca de informações sobre antepassados.

As demandas de curiosos e especialistas só se multiplicam nessa perspectiva de interação turismo, lazer e conhecimento. Dessa maneira, enquanto atrativo multifacetado, o cemitério demanda uma organização estrutural de forma a atender e facilitar o acesso aos seus chamarizes, Bittar (2018) informa que:

Hodiernamente ocorre uma intensa visitação aos túmulos, com diferentes comportamentos, conforme as tradições locais. Há aqueles que se juntam sobre os túmulos dos seus amados, e ali passam o dia, fazendo-lhes companhia, como se, em verdade, eles ali estivessem encerrados; os que levam comidas e bebidas, para alimentar o espírito do morto; os que levam velas e flores para iluminar e alegrar a última morada. (p. 184).

Para tanto, planejar a disposição de seus elementos como setores, arruamentos, praças, placas informativas, numeração e identificação tumular, espaços administrativos, condições sanitárias e áreas de convivência torna-se um padrão de sustentabilidade urbana. A turistificação dos cemitérios é em um só tempo mercadoria com finalidades comerciais e modelo de racionalidade ambiental. Trata-se do discurso político e econômico que circunda a necrópole, na “venda” da paz espiritual, em harmonia com o ambiente pelo desenho paisagístico e, dessa forma, publicidade e marketing trabalham com a metáfora do paraíso ecossistêmico.

Neste sentido, Losonczy (2015) exemplifica com a confiscação do cemitério central de San Pedro, na Colômbia, pela lógica patrimonial nacional que, classificado como bem de interesse cultural, passou a receber saraus, animações poéticas, musicais e teatrais de artistas locais. É o que a autora chama de “reciclagem simbólica do cemitério” (p. 468).

De fato, as necrópoles convivem com o comércio de artigos comuns em seu entorno e movimentam o comércio de produtos especializados, com características definidas. Os primeiros beneficiam-se do movimento de pessoas para o cemitério e são legalmente estabelecidos como bares, lojas, lanchonetes; já os segundos, são tipificados como os “comércios de ocasião” (PEGAIA, 1967, p. 117), surgem de maneira esporádica e adensam  feriados religiosos como o Finados, que utilizamos para abrir esse artigo.

Soma-se a isso, a proposição de Grassi (2018) acerca da associação entre turismo cultural e educação patrimonial, quando a autora coloca que a “implementação de ações a médio e longo prazo, como visitas guiadas com periodicidade fixa trazem a oportunidade de estruturação de ações mais efetivas” (p. 110), tornando a necrópoles espaços de formação.

  1. UM PATRIMÔNIO EDUCATIVO NA ATUALIZAÇÃO DE PERSPECTIVAS

Os conjuntos de monumentos funerários formam um verdadeiro museu a céu aberto, onde arte, cultura e história se encontram”. 

(BASTIANELLO, 2010, p. 16).

Os cemitérios condensam tempos, tensões e cenas de povoados, vilas e cidades como se recontassem suas histórias em uma só geografia. Por essa razão se torna possível rever seu lastro patrimonial percorrendo os túmulos (conhecidos/ desconhecidos) com intencionalidade educativa. Isto é, existe em seu desenho cumulativo a condição enciclopédica de favorecer, aos mediadores do saber local regional, um processo curricular de sistêmico, no qual patrimônio edificado e representações dos falecidos atuem como uma narrativa consistente, incluindo tendências futuras.

Dominique Poulot (2008), ao contribuir com as discussões acerca da preservação do patrimônio cultural material discutindo um “ecossistema do patrimônio”, coloca que este tem a ver com interpretação e só pode ser bem entendido a partir da elaboração de significados. Isso implica considerar que o reconhecimento do patrimônio cultural não se define como dado, mas é construção histórica e social. Reflexão que, quando combinada a de Bastianello (2010) acima destacada, permite conjecturar que a necrópole se constitui em sua materialidade enquanto patrimônio cultural, museu a ser explorado, cuja rede de significados de um ensino/aprendizagem social.

Dessa maneira, considerando que o cemitério carrega a memória social de determinada época, defendemos a ideia de que muitos merecem “ser elevados à condição de patrimônio histórico e artístico, pois apresentam um artefato de época – o túmulo; uma técnica – as construções; uma arte – as esculturas; documentos iconográficos” (RICHTER, 2005, p. 47). Os cemitérios e seus elementos tornam-se lugares de memória “transcendendo a função utilitária para se transformar em monumentos artísticos, personificação de uma organização inconsciente da memória coletiva diante da vida e da morte, peculiares ao patrimônio cultural de cada lugar” (MENDES, 2007, p. 66). É possível, portanto, que a necrópole se apresente como bem cultural e espaço privilegiado de educação patrimonial.

A própria legislação brasileira, por meio da Lei nº3. 924, de 26 de julho de 1961, que dispõe sobre os monumentos arqueológicos e pré-históricos, assim atesta no Artigo 2º, alínea “c”: “os sítios identificados como cemitérios, sepulturas ou locais de pouso prolongado ou de aldeamento, ‘estações’ e ‘cerâmios’, nos quais se encontram vestígios humanos de interesse arqueológico ou paleoetnográfico” (BRASIL, 1961), estão sob a guarda e proteção do poder público. Motta (2010, p. 66-67) ao tratar das representações literárias e artísticas que já favoreciam as tratativas patrimoniais dos cemitérios de grandes centros urbanos nos dá uma pista para essa monumentalidade da necrópole como sítio/ espaço privilegiado, no exemplo da ex-capital:

O quadro de urbanidade que se delineava nos cemitérios, seguindo à risca o calendário dos vivos, evidenciava-se com maior intensidade durante as datas de aniversários, de falecimento e dia consagrado aos mortos, espelhando os novos valores e modus vivendi da sociedade fluminense da época. Provavelmente, por ser o Rio de Janeiro à época a capital do país e, portanto, o centro de articulação do poder e das decisões políticas, teve o privilégio de abrigar o maior número de cemitérios, quando comparado a outros centros urbanos.

Essa possibilidade, de condensar, mesmo em localidades remotas, uma ancestralidade que reúne artes, epidemias, poderes familiares, crimes, costumes de época e memoriais de valores personalizados, vai impondo um direcionamento territorial ao exercício da política como cultura educativa. Algo que no Brasil – e nos exemplos estaduais de cidades interioranas do Paraná e Ceará – ainda se apresenta muito insipiente, em razão da menor associação das necrópoles com os poderes públicos do que com as ingerências eclesiais. O que pode ser revertido, mediante a confluência de alguns fatores diretamente relacionados à “ética da ancestralidade”: o acesso tecnológico/digital ao subsolo e aos materiais dos cemitérios; a busca pelo reconhecimento dos antepassados, afrodescendentes e indígenas, silenciados da historiografia oficial e a emergência de socioambientais que fizeram das necrópoles áreas privilegiadas nos indicadores de fixação populacional. Por todos esses elementos, a Educação Patrimonial tende a delimitar os cemitérios como espaço referencial para aulas de campo.

  1. O TRATAMENTO DIDÁTICO-PEDAGÓGICA DOS CEMITÉRIOS

“[...] un cementerio es un complejo de obras de arte, significaciones, simbolismos, coreografías, estrategias, misterios, prácticas y seres humanos que de consuno y sin saberlo actúan creando un mundo espectacular más digno de admiración y de asombro que de temor”.

(GRISALES, 2017, p. 83).

Brandão (2016) coloca que os cemitérios além de referências históricas também são fontes de pesquisa geográfica, sociológica, literária, arqueológica e demográfica e Catroga (2001) cita que as necrópoles, como museus a céu aberto, não revelam somente as recordações identificadas na simbologia, mas também se apresentam como organizações bibliotecárias que podem ser utilizadas com intenções cívico-educativas. Ainda neste sentido, Bastianello (2010) destaca que os cemitérios podem promover profícuos diálogos interdisciplinares nas Ciências Humanas a partir da História, da Geografia, da Arqueologia, da Arte, da Antropologia e da Economia, sobretudo, porque suas ferramentas analíticas estão sujeita a tensões constantes; ou seja, permitem ocupar-se e problematizar os modos de sentir, pensar e viver das sociedades.

Assim sendo, promover visitações guiadas aos cemitérios com fins pedagógicos pode muito contribuir no (re)conhecimento do patrimônio cultural e se apresentar como interessante ferramenta didático-pedagógica, em especial, quando considerada a possibilidade de pesquisar em campo. A citação de Grisales (2017), em destaque acima, evidencia justamente o caráter espetacular da necrópole para além do assombro e do temor que sua perspectiva pode incialmente conjurar. O envolvimento pedagógico possibilita ainda a formação de agentes multiplicadores que, ao explorar a realidade, partem para propagar perspectivas e conhecimentos.

O cemitério pode, portanto, se configurar como espaço educacional, permitindo a definição de temas geradores e norteadores com vistas a problematizar questões interdisciplinares. Neste sentido, Bellomo (2000), ao analisar a arte, a sociedade e a ideologia em cemitérios do Rio Grande do Sul, sugere seis promissoras possibilidades: fonte histórica para preservação da memória familiar e coletiva; fonte de estudo das simbologias das crenças religiosas; forma de expressão do gosto artístico; forma de expressão da ideologia política; forma de preservação do patrimônio histórico; e, fonte de preservação das identidades étnicas.

Rigo (2010) ao discutir o cemitério enquanto fonte de inspiração cênica propõe uma metodologia intitulada “Pedagogia Cemiterial” que apresenta um roteiro a ser considerado quando da utilização do cemitério como recurso pedagógico. Se o tema já merece destaque em trabalhos relacionados às políticas culturais e de turismo em cidades capitais – Paris, Buenos Aires, Montevidéu, México, Lisboa, entre outras agregam seus roteiros de visita a certa “obrigatoriedade” de acesso a suas necrópoles – também já é possível reconhecer tal preocupação no âmbito do órgão brasileiro responsável pelas políticas de patrimonialização Reportagem de 2013 do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) indica sua parceria com a Central de Postais (Correios do Brasil) para emissão de selos que ajudam na divulgação desses bens nacionais tombados. Notadamente: o Cemitério de Santa Isabel de Mucugê (BA), o Portão do Cemitério de Arez (RN), o Cemitério do Batalhão (PI) e o Cemitério da Soledade (PA)[2]. Em que medida tais espaço aproveitaram essa visibilidade para difundir seu papel histórico-geográfico, cabe ser considerado em futuras investigações.  

  1. OS CASOS SIMBÓLICOS EM EMERGÊNCIA (NO PARANÁ E NO CEARÁ)

Ruiz (2004) coloca que perante a realidade da morte e a incompreensão existencial e angustiante da vida, “o símbolo estabelece um equilíbrio vital que possibilita ao ser humano dar um sentido à sua morte e transcender sua realidade empírica, significando-a positivamente, de modo sentimental e esperançoso” (p. 144-145). Neste sentido, Urbain (1978) destaca que o cemitério, por sua vez, é concebido como um local, por excelência, de reprodução simbólica do universo social e das expectativas metafísicas dos membros de uma dada coletividade, destacando que este simbolismo é resultante de um forte vínculo entre o culto dos mortos e a memória, tanto individual quanto coletiva. Bakhtin (1986) falaria em signos, os quais são uma construção social que só existe em um determinado contexto que lhe dá significado e sentido.

Considerando o cemitério enquanto resultante de uma construção social e, portanto, de reprodução simbólica, trazemos à discussão dois casos em emergência: os cemitérios de anjinhos de São João Maria, no Paraná e o cemitério de Ocara, no Ceará, ambos, porém cada um a seu modo possuem um sistema de significados, signos e sentidos resultantes de um contexto e que, atualmente, constituem-se em desafios patrimoniais.

8.1  Cemitério de Anjinhos de São João Maria em São Mateus do Sul/Paraná

No Paraná, particularmente em São Mateus do Sul, polvilham-se lugares sagrados atribuídos à figura mítica, lendária e simbólica de São João Maria. Profeta, político ou guerreiro que se mesclou no imaginário popular é ícone construído e desenhado por várias mãos e congrega diferentes expressões de resistência (WELTER, 2012). Para além da sacralização de elementos da natureza alguns destes lugares foram sendo ressignificados pela incorporação de um forte elemento identitário: o cemitério de anjinhos.

Essa prática fúnebre iniciou-se nas últimas duas décadas século XX quando o Santo popular ainda perambulava pela região e “havia dado ordem” para enterrar crianças falecidas em seus lugares de pouso na floresta, tidos como “valiosos”. A partir daí, muitos lugares associados a São João Maria passou a receber e abrigar os anjinhos nascidos para não viver: recém-nascidos natimortos, fetos que nasciam antes do tempo e, em casos menores, crianças que morriam antes dos sete anos de idade, sendo que muitos eram seus afilhados espirituais[3]. No mosaico de imagem a seguir (Figura 02), alguns dos cemitérios de anjinhos:

Figura 02:  Cemitérios de Anjinhos em São Mateus do Sul-PR

Fonte: Acervo dos Autores (2019)

São lugares sagrados, cenários da morte, simbólicos, onde a paisagem lida na sobreposição de textos se associa à religiosidade e revela comportamentos. Percebem-se os elementos mais recentes que, entretanto, convidam e provocam a decodificar sistemas históricos, universos mentais e experiências vivenciadas. Se são os cemitérios espelhos da sociedade, testemunhos históricos, que valores, crenças e ideologias são revelados por estes anjinhos? São lugares de lembrança, de comunicação, de vivência e significado. Não há suntuosidade nem estilo construtivo, são pequenas cruzes na terra, delimitadas por cercadinhos adornados de coroas e flores, oferendas e ex-votos. Consiste em uma paisagem religiosa intimamente ligada à natureza, nas Matas Mistas do sul do Brasil, que abrigaram João Maria, próximo às fontes de água por ele santificadas (FÖETSCH, 2019).

Na perspectiva do ritual, a teatralidade da morte e a vivência do luto evidenciam o inconformismo com a partida dos que precocemente faleceram. Passagem obrigatória e incontestável para todos, o sentimento diante da morte de crianças suscita diferentes reações, práticas verbais e performativas que tornam estes cemitérios em especial, locais de acolhimento revelado nas oferendas e, sobretudo, na localização escolhida para as pequenas sepulturas: em locais sagrados, sob a proteção espiritual de São João Maria, destacando que os rituais também confidenciam a não aceitação do luto infantil.

Os cemitérios de anjinhos são difusores do fazer recordar, são lugares de memória, memória afetiva que necessita se enraizar no concreto e no visível. São cenários cuja existência material oportuniza o direito à lembrança, fazem parte do cotidiano, são acessíveis e acionam lembranças, não são simples depósitos. Entretanto, há que se registrar que nos cemitérios de anjinhos existem também os mortos anônimos, sem nomes, sem narrativas, figurando o abandono e o esquecimento.

Em uma primeira leitura, não são locais de visitação turística, porém, a associação a São João Maria os torna, de fato, distintos e atrativos a um público interessado na trajetória do Santo popular. É possível pensar, nesta proposição, na reciclagem simbólica dos cemitérios que saltam de locais de tristeza para lugares de visitação. Esta discussão encaminha para a questão da patrimonialização dos cemitérios de anjinhos, nos provocando a pensar sobre a função religiosa destes lugares sagrados, seu significado e o fato de transcenderem sua função utilitária podendo ser vistos como bens culturais e defendidos à luz da educação patrimonial.

Um sentido interessante, para tanto, pode partir de uma perspectiva didático-pedagógica entendendo o cemitério enquanto ferramenta, recurso e campo de estudo em uma gama considerável de áreas temáticas, num diálogo profícuo que paute pela transversalidade e pelo reconhecimento das práticas culturais locais. Além disso, o envolvimento do pedagógico origina uma gama significativa de agentes multiplicadores que muito podem contribuir na valorização destes espaços.         

8.2 A Festa das Almas no Cemitério de Ocara – Ceará

Cemitério de Ocara, “um cemitério que nunca morre” (KUNZ, 2006, p. 59) escolhido como segundo caso simbólico, em emergência a ser exemplificado nesta discussão é motivo de embates religiosos, sexuais, políticos e econômicos no Ceará. Isso porque a vivência da Festa das Almas, ou de Finados, foi também sendo ressignificada para além dos muros do cemitério por meio do que hoje se chama de “Mostra da Cultura Popular de Ocara”. Buscando compreender essa dinâmica, foi realizada uma incursão de campo[4] de forma a permitir um diálogo com moradores e visitantes e uma vivência experienciada no auge das festividades. As informações somadas às observações in loco, leituras prévias e trocas de experiência permitiram refletir sobre quem faz, quem vivência e para quem é o cemitério e a Festa.

Segundo Alves (2015) até a década de 1920 quando ocorria algum falecimento, era necessário percorrer 18 quilômetros até o cemitério da comunidade vizinha de Vazantes. A comunidade de Jurema, hoje Ocara, resolve então construir um cemitério local por volta de 1918-1919. Porém, os animais começaram a invadir a cidade dos mortos e profanar os corpos. É aí que Pai Dodó[5] “recorreu aos leilões para obter recursos para a compra de cal – insumo necessário para fazer a argamassa, que uma vez colocada entre as pedras retiradas do sopé do serrote transformavam-se numa sólida estrutura” (p. 31). Os leilões ocorreram entre 1920 a 1936 com participação intensa tanto nas doações de prendas como nos arremates. Alves (2015) descreve que o “rito noturno de Finados tinha como foco o cemitério, o culto aos mortos” (p. 32), tratava-se de um evento social religioso de cunho comunitário e coletivo. Possuía caráter endogâmico, ou seja, não recebia gente de fora, os estrangeiros, forasteiros.

Entretanto, entre meados da década de 1970 aos anos 1980, as festas dançantes e a prostituição vinculada, sobretudo à pessoa de Bento Evangelista Lima (que de forma perspicaz percebe o potencial da festa) expande o espaço-geográfico, “o corredor igreja-cemitério vai se expandido para outras direções” (ALVES, 2015, p. 60) visando atender a nova clientela. Surgem os discursos de censura e borbulham os conflitos entre moradores e “os de fora”.

A partir de 2005 juntamente com a Festa das Almas é instituído o Dia da Cultura no município com o objetivo de atrair turistas e amenizar tensões religiosas. A programação assume caráter folclórico com grupos de capoeira, teatro, bumba meu boi, música, mamulengos esculpidos em umburana, gastronomia típica, artesanato, cordéis, jogos, brinquedos, praça de eventos, barracas de comércio e serviços, inclusive prostituição. Dessa maneira, é possível perceber que o foco e a dinâmica inicial do encontro social religioso com fins coletivos modificaram-se assumindo um caráter mercadológico, turístico, capitalista, feito para o “alheio”. Ressignifica-se a sociabilidade: antes em torno do cemitério no dia das Almas e de Finados e, então, em torno dos festejos, do turismo, do lucro. Neste sentido, Alves (2015) coloca que a “festa se amplia e ganha vigor à proporção que aumenta o número de mortos enterrados no cemitério e de vivos a habitar os mais longínquos recantos da região” (p. 48).

Os moradores, trabalhadores principalmente vinculados ao poder público, aposentados, agricultores, comerciantes e do lar afirmam, sem sua maioria, participar da festa, entretanto, sem frequentar as “atividades noturnas”, uma entrevistada conta que vinham “dois caminhões de primasde Quixadá para os solteiros”.

Figura 03:  Cemitério de Ocara - Ceará

        

Fonte: Acervo dos autores (2018).

A principal reclamação gira em torno da falta de religiosidade alegando que a principal relevância das festividades está nos valores comerciais e na arrecadação municipal. Queixam-se de desrespeito aos mortos e de perda da essência original, participam dos momentos religiosos e deixam os atrativos para os visitantes. Ao serem questionados sobre o símbolo da cidade, a maioria destaca que antes era o cemitério, porém, hoje é a festa. Relembram de histórias vividas ou ouvidas acerca da relação histórica com os mortos, contam sobre o Terço das Almas detalhando as oferendas: missas, novenas, flores, velas, orações. As imagens (Figura 03) que ilustram o Cemitério de Ocara – feitas no dia de encerramento das celebrações de 2018:

É certamente uma combinação polêmica de data e local cuja alternância varia entre aprovações e reprovações, aceitação e repúdio. Algo que se expressa particularmente nas dificuldades da Prefeitura local em difundir as atividades comemorativas durante a semana que antecede o feriado de Finados. Primeiro porque compreende a presença de visitantes na cidade, durante a programação da Mostra Cultural e Festa das Almas algo “explosivo’, ou seja, muito além da capacidade de recepção do município, que só possui duas pousadas e não tem recursos para organizar acampamentos com infraestrutura planejada. Depois – e essa dimensão é mais representativa dos limites culturais – as transformações confessionais que incidem sobre as disputas de católicos e evangélicas – evidenciam uma tentativa a festa se restrinja a um campo religioso tradicionalista, sem “espaços para imoralidades”. O que termina por enfraquecer a potencialidade de desenvolvimento do local a partir de sua necrópole.    

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Espaço-reduto da atividade fim da morte, o cemitério, como descreve Bittar (2018), atrai e rejeita, está “repleto de significados que atestam fenômenos sociais como a estratificação social, símbolos, além de relações de poderes temporais e místicos” (p. 178). Componente inexorável da paisagem cultural brasileira: dormitório, lugar do repouso eterno, são eufemismos adotados para suavizar a incompreensível e inaceitável situação de desaparecimento do mundo natural.

O cemitério é, portanto, campo de representações simbólicas. Os múltiplos signos presentes nesse espaço vivido, o projeto vital da sociedade, associada à noção de subsistência e sobrevivência, além de suas crenças e aspirações revelam o mais íntimo de suas práticas culturais (CORRÊA, 1995, p. 30-35). Catroga (1997) tão bem complementa quando coloca que o cemitério foi se transformando em um campo teatral onde se representavam cenas da vida humana e Peter Burke (1992), ao enxergar o mundo como cena, destaca que a humanidade faz uso dos monumentos para moldar uma memória nacional, momento em que o espaço, geograficamente considerando, passa a exercer papel fundamental e as imagens que se queria recordar deveriam ser destacas em locais específicos, os “teatros da memória” (p. 241).

Grisales (2017) coloca que as necrópoles constituem-se de “através de los cuales el recuerdo del fenecido permanece atado a signos materiales, que le impiden al muerto y a la familia bajar de estatus” (p.83) e Pegaia (1967, p. 115) afirma que, de um modo geral, os cemitérios fazem “transparecer bem os sentimentos religiosos de seu povo, através da presença considerável dos símbolos que os identificam”.

Ao discorrer sobre os mortos mais que especiais, ou seja, os mártires, Nascimento (2013) coloca que seu exemplo de perseverança serve como fonte de inspiração e às suas relíquias são atribuídos diversos milagres, sendo que para celebrá-los, a comunidade recria “narrativas, inicialmente orais que serviram para compor martirológios e obras hagiográficas de grande significado” (p. 126). Trata-se do que Bastianello (2010) chama de heroização do espaço mortuário, cuja leitura dos artefatos desvela o culto ao herói e o túmulo reverencia sua memória. Tal heroísmo assentado nas necrópoles, e reconhecido pelos movimentos contemporâneos de uso e visitação fornece a essa geografia uma confluência especial de santuários (tradicional, metropolitano, natural e festivo) conforme a tipologia que desenvolvemos para pensar a atualização dos modelos receptivos do turismo religioso (OLIVEIRA, 2004).

Dessa forma, as necrópoles oportunizam as análises da densidade cultural como espaço simbólico, categoria de associação de contrários (vida/morte, atração/repulsão, passado/futuro), que fornece a geografia Humana (e geografia Cultural, em especial) uma conjunção de realidades que fortalecem o dimensionamento das representações contemporâneas – apresentamos sei, mas podem ser mais – da Necrópole.  A paisagem que pode revelar, pela leitura de suas camadas de representação, a espacialidade da morte em sua fértil interação com a vitalidade imagética dos lugares; a ritualização que evidencia a teatralidade, as linguagens e as práticas performativas que nos ligam intangivelmente à espiritualidade; a força da memória, enquanto repositório do fazer significativo no ato de recordar, que oportuniza reflexões quanto à referência espacial e o enraizamento territorial; a turistificação das práticas de visitação do/no cemitério, seus atributos, reciclagem simbólica e uso enquanto mercadoria entretenimento e lazer; a patrimonialização que transcende a função utilitária da necrópole e a eleva à categoria de bem cultural, embora demande novos fluxos de política efetiva de investimento; e a perspectiva didático-pedagógica, que possibilita frutíferos diálogos interdisciplinares enquanto recurso pedagógico na formação de agentes multiplicadores.

Por fim, aceitamos a provocação de Pegaia (1967, p.116) quando nos questiona abertamente, sobre como serão num futuro distante o espaço cemiterial: afinal “qual será a paisagem interna das necrópoles no futuro?”. Certamente as dimensões que reunimos para nos debruçar sobre a riqueza desse objeto não são suficientes para compor uma resposta fechada para qualquer localidade no Brasil, país onde as necrópoles, mesmo em áreas centrais, são facilmente reduzidas a periferias. Mas considerando as localidades que investigamos, nos estados do Paraná e Ceará, ainda que de forma preliminar, pode-se propor a resposta inversa: Dificilmente haverá futuro no desenvolvimento cultural de São Mateus do Sul e Ocará, eu independa do amadurecimento político, cultural e ambiental no uso estratégico de suas necrópoles. E neste sentido a geografia simbólica dos cemitérios, presente em todas as regiões precisa entrar na perspectiva de qualquer futuro das paisagens humanas.  

REFERÊNCIAS

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"The authors would like to thank the CAPES PGPSE Proc. 88887.123947 / 2016-00 projects: Coastal Environmental Systems and economic occupation of the Northeast; CAPES PRINT Proc. 88887.312019/2018-00: Integrated socio- environmental technologies and methods for territorial sustainability: alternatives for local communities in the context of climate change; and CAPES / FUNCAP Proc. 88887.165948 / 2018-00: Support to the Scientific Cooperation Strategies of the Graduate Program in Geography - UFC "


[1] Rodrigues (1997) fala em situá-los “extra-muros”, atendendo determinadas exigências, como “a altitude do terreno, a composição de seu solo e vegetação” (p. 59).

[2] Notícia publicada no Portal do IPHAN http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/494/selos-retratam-cemiterios-tombados, acesso em 27/01/2020.

[3] Tal qual Padre Cícero no Ceará eram comuns os laços de apadrinhamento com São João Maria no Paraná.

[4] Foram desenvolvidas entrevistas semiestruturadas aplicadas por estudantes vinculados à Disciplina de “Dinâmica dos Lugares Simbólicos: Imaginação e Planejamento – DLS-IP”, na Pós Graduação em Geografia da Universidade Federal do Ceará em conjunto com alunos de Graduação da Licenciatura em Geografia.

[5] ALVES, A. Pai Dodó: o patriarca de Ocara. Uma homenagem aos 150 anos do nascimento de Pai Dodó – 1866-2016. Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2015.



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