Modernity and Sense Crisis - the Experience of Boredom in Florbela Espanca and Mário De Sá Carneiro

London Journal of Research in Humanities and Social Sciences
Volume | Issue | Compilation
Authored by Ayanne Souza , NA
Classification: NA
Keywords: Modernidade. Crise de sentido. Tédio. Florbela Espanca. Mário de Sá Carneiro.
Language: English

É consenso chamar “crise da modernidade” ao pensamento que se insurge no mundo ocidental e que varreu de roldão aos abismos toda a prepotência do panlogismo hegeliano que punha na Razão humana o único e viável caminho para a cognoscibilidade do mundo e do próprio indivíduo, haja vista a presença da Razão em tudo. Tal crise, que já se prenunciava com os chamados críticos da modernidade, ainda no século XIX, desembocou no início do século passado no fenômeno que podemos definir enquanto a estrutura do sentir moderno: o tédio. Tal sentimento existencial de nulidade associa-se ao que denominaríamos de uma insônia do eu, quando o sujeito perde a dimensão subjetiva na obscuridade da velocidade e da fragmentação modernas, aprisionando o indivíduo no centro de um redemoinho vazio e, ao mesmo tempo, eterno. Com base na obra do filósofo sueco Lars Svendsen, além de trazer os aportes filosóficos de pensadores como Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger, pretendemos explorar como o sentimento do tédion emerge na poética de Florbela Espanca e Mário de Sá Carneiro, dois dos maiores representantes da poesia lusitana da fraturada modernidade.

               

Modernidade E Crise De Sentido – A Experiência Do Tédio Em Florbela Espanca E Mário De Sá Carneiro

Ayanne Larissa Almeida de Souza

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RESUMO

É consenso chamar “crise da modernidade” ao pensamento que se insurge no mundo ocidental e que varreu de roldão aos abismos toda a prepotência do panlogismo hegeliano que punha na Razão humana o único e viável caminho para a cognoscibilidade do mundo e do próprio indivíduo, haja vista a presença da Razão em tudo. Tal crise, que já se prenunciava com os chamados críticos da modernidade, ainda no século XIX, desembocou no início do século passado no fenômeno que podemos definir enquanto a estrutura do sentir moderno: o tédio. Tal sentimento existencial de nulidade associa-se ao que denominaríamos de uma insônia do eu, quando o sujeito perde a dimensão subjetiva na obscuridade da velocidade e da fragmentação modernas, aprisionando o indivíduo no centro de um redemoinho vazio e, ao mesmo tempo, eterno. Com base na obra do filósofo sueco Lars Svendsen, além de trazer os aportes filosóficos de pensadores como Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger, pretendemos explorar como o sentimento do tédio emerge na poética de Florbela Espanca e Mário de Sá Carneiro, dois dos maiores representantes da poesia lusitana da fraturada modernidade.

Palavras-chaves: modernidade. crise de sentido. tédio. florbela espanca. mário de sá carneiro.

  1. INTRODUÇÃO – A CRISE DA MODERNIDADE E A DERROCADA DA RAZÃO

De acordo com Lima Vaz (2002), tornou-se um consenso chamar “crise da modernidade” ao pensamento que se insurge no mundo ocidental em decorrência do cogito cartesiano, no século XVI. A ruptura que se dá à época, com a denominada virada antropológica, transforma o mundo – e os seus objetos – em meras extensões da autorreferencialidade humana. Matando Deus, o indivíduo humano era o produtor do conhecimento e o mundo, o objeto ao qual devo conhecer. Assassinado Deus, o indivíduo humano transformou ele próprio em uma divindade.

Tudo que estivesse exterior ao sujeito era tão somente o ser maciço e opaco, o ser-em-si, plena positividade, originado por uma ideia humana que o determinava e feito com a finalidade de responder às necessidades humanas. O mundo, bem como seus objetos, tornara-se um ser ao qual era necessário desvendar, chegar-se ao seu interior, alcançar-se o númeno, para utilizarmos um conceito que viria com Immanuel Kant e a revolução copernicana epistemológica da modernidade. E era o sujeito humano quem detinha a inteligência para desvelar o ser. A consciência humana transformara-se em um invólucro a partir do qual brotara o mundo.

Contudo, como salienta Lima Vaz (2002), tal pensamento era muito mais antigo que o cartesianismo, podendo ser encontrado na própria filosofia grega pré-socrática, entre os filósofos da natureza. Tal projeto filosófico cujo auge é a modernidade percorre cerca de 25 séculos de tradição e é marcado por uma busca desenfreada pela compreensão do mundo através de um único princípio; um motor primevo, Uno, que consubstanciasse tudo, o que demonstra a natureza da Razão humana cuja tendência é unir para dar sentido às coisas.

A própria dúvida metódica cartesiana disseca, divide e separa o mundo e seus objetos – e o próprio sujeito – a fim de sintetizá-lo a partir de uma certeza indubitável. Se vemos um cachorro, somos capazes de dividi-lo e separar as partes que o caracterizam enquanto tal e, ao mesmo tempo, reconhecer estas mesmas características em outros cachorros, bem como não reconhecê-las nas outras espécies, o que permite que diferenciemos um cachorro de um papagaio. O mundo dos sentidos tende à multiplicidade, enquanto o mundo racional tende ao unitarismo. Percebo muitos cachorros, completamente distintos entre si, vivencio muitas formas de ser cachorro, mas minha ideia de cachorro é uma só.

Tal concepção também pode ser empregada na produção da subjetividade na modernidade, principalmente com o advento do hegelianismo, no final do século XVIII e início do século XIX. Essa ideia parte do princípio que a Razão humana é o instrumento ideal e único capaz de desvelar o ser do mundo e de seus objetos, encontrar o princípio de unidade que subjaz nas multiplicidades, capaz de estruturar, formar e oferecer um sentido único e um entendimento correto ao mundo. No que diz respeito à produção de subjetividade na modernidade, havia a ideia de um eu humano único, uma essência humana – a Razão – que subjaz nas multiplicidades de vivências de sujeitos. Não era possível pensar-se em uma subjetividade fragmentada, pois fragmentados eram os sentidos que permitiam experiências múltiplas de individualidades. Entretanto, indo além do ser-aí, a Razão humana seria capaz de achar a si própria enquanto princípio unitário que conforma e confere a natureza humana ao indivíduo humano: é a marca da Humanidade.

No século XIX, ainda em sua primeira metade, já encontramos os filósofos que iriam criticar, acidamente, a modernidade, principalmente a moral kantiana e o projeto de Homem hegeliano, essa Razão imperiosa que já ameaçava subjugar a humanidade que parecia constituir e ser sua própria essência. Søren Kierkegaard (2008), principalmente em sua obra La enfermedad mortal – O desespero humano, em tradução brasileira-, filosofia esta nascida em contraposição ao pensamento hegeliano, já alertava para a total irracionalidade da existência. Contra o panhegelianismo, Kierkegaard ergue a voz do indivíduo por sobre o gênero, fá-lo gritar sua existência contra a concepção conceitual e teórica de humanidade. O sujeito, sozinho, em seu desespero, tenta entender as próprias conflitividades que regem o existir humano e que não são passíveis de uma sintetização, de uma solução. A Razão, essa essência que determina e pré-concebe o sujeito humano, é uma ilusão, não é capaz de solucionar as contingências antinômicas do existir próprio do indivíduo humano. Não é possível apreender o indivíduo ou a existência por meio de teorias, haja vista que ambos são puras contingências e não á coisa alguma que os predetermine ou confira uma essência imutável.

Essa crise, cujo principal arauto será Friedrich Nietzsche, quando anuncia a “morte de Deus”, assassínio este que não comete, mas do qual é apenas um emissário, desfralda as velas do que denominamos de crise da modernidade, um relativismo que provoca um refluxo caótico que vai de encontro à tradição secular. A crise proclamada pelos críticos da Razão, da sociedade moderna, do programa iluminista contrapõe-se a qualquer projeto de unitarismo, de unificação, correndo em direção a uma fragmentariedade que atingiria a própria produção de subjetividade. O que valia para a Razão é cortado fora, apenas o que vale para os sentidos vale também para o mundo racional. A razão humana é considerada débil como via para chegar-se ao eu e a dimensão existencial dionisíaca, tal como definida por Nietzsche, faz sua entrada passando dos bastidores aos palcos da história.

Toda a crença de que a Razão era suficiente para dar conta do mundo e do sujeito humano, de que havia uma Verdade que só poderia ser alcançada através da Razão, de que a realidade era lógica e era aquilo que estava fora do eu, de que esse eu só poderia ser acessado mediante o uso da Razão, toda essa concepção decai panlogística hegeliana arruína-se. Não havia realidade, mas realidades fenomênicas transformadas em experiências da consciência e, como tal, o conhecimento dependia de como o mundo e seus objetos, bem como o eu e seus juízos, apareciam para cada pessoa. Havia apenas jogos de linguagem, nominalismos, categorias mentais e uma vontade de potência em querer eternizar aquilo que era passageiro; em outras palavras, o mundo e os objetos do mundo, assim como o eu e suas concepções, eram tão somente constructos subjetivos e, portanto, não existiam factualmente. A subjetividade fora implodida e o eu humano é reduzido a nada.

De acordo com Max Horkhheimer (2011), a crise da razão manifesta-se na crise do indivíduo, na perda da identidade, na ilusão acalentada pela tradição sobre o sujeito e sobre a autossuficiência da Razão, na quimera de sua eternidade. Se dantes o indivíduo pensava a razão enquanto instrumento do eu, com a decadência dos sentidos passou a experimentar a miragem que fora tal auto-apoteose, essa masturbação egóica. Essa crise do sujeito implica, necessariamente, na sua pulverização, ainda que haja uma representação do eu – uma auto-representação -, a efígie que possui de si próprio é, agora, semipleno, mutilado, parcial, ambígua; o eu encontra-se fraturado.

Os sujeitos que se inscrevem no mundo não mais tentam organizá-lo, muito menos dotar-lhe de um sentido; pelo contrário, desejam desespe- radamente organizar-se no e com o mundo. Para Luiz Costa de Lima (2014; 2007, p.452), é próprio do sujeito querer “congelar a mobilidade do eu”. A procura por uma unidade, por um princípio que possa garantir uma completude ao indivíduo jamais é alcançada. O eu não consegue, pois, realizar-se; porém, se tal princípio unificador é necessário para que o sujeito não se desmonte em sua existência, o que acontece na modernidade é justamente a desagregação desse eu.

A perda de identidade e a consequente perda de identidade do eu estão ligados ambos ao sentimento de tédio e o tédio, por sua vez, liga-se a uma perda de significado. É a partir dessa fratura da subjetividade e o tédio intrínseco a perda de sentido, que analisaremos de que forma o sentimento de tédio emerge nas poéticas de Florbela Espanca e Mário de Sá Carneiro, dois dos grandes representantes do modernismo lusitano. Utilizaremos os sonetos “Sem Remédio” e “Tédio”, ambos de Florbela e “Além-Tédio” e “Dispersão”, de Mário de Sá Carneiro para alcançarmos o nosso propósito. Buscaremos mostrar como um sentir que pode migrar de um ligeiro desassossego pode culminar em um visceral estado de perda de conteúdo e significação.

  1. O PROBLEMA DO TÉDIO – MODERNIDADE E SIGNIFICADO

Nosso principal aporte teórico para a problemática filosófica do tédio vem do filósofo sueco Lars Svendsen, que disserta, em seu livro A filosofia do tédio, sobre o sentimento do tédio enquanto preocupação central de nossa época e a razão pela qual somos incapazes de superá-lo. O autor discute o que se esconde por detrás da estagnação que tiraniza e desorienta. O indivíduo, na modernidade, não consegue mais se encontrar no mundo, haja vista que a relação entre sujeito e mundo fora perdida.

Svendsen (2006) coloca a questão do problema do tédio enquanto uma incapacidade de se orientar na existência, a vontade não é capaz de agarrar-se ao que quer que seja. Com a “morte de deus”, anunciado por Friedrich Nietzsche (2001), a presença de Deus, eficiente para preencher a existência, tornando desnecessária uma busca de sentido, esvai-se e o mundo, bem como seus objetos, o eu e seus juízos são falhos enquanto substitutos e transmissores de sentido. Uma vez que o niilismo faz sua entrada no palco da história, o tédio, essa experiência com o tempo esvaziado de significado, expressa, tal como entende o filósofo, “a ideia de que dada situação ou a existência como um todo são profundamente insatisfatórios” (SVENDSEN, 2006, p.22). Uma vez que todos os sentidos que orientavam a existência se desvaneceram, o tempo tornou-se uma experiência de consumo, um sincrônico e diacrônico passar do tempo que torna a existência algo intolerável.

Svendsen (2006) afirma que a experiência do tédio existencial encontra-se atrelado às reflexões e estas estão profundamente ligadas a uma perda de mundo, ou ao menos de sentido e significado de mundo. Na vida moderna, emerge a questão da crise de significado; o indivíduo moderno busca, desesperadamente, fugir do tempo, fazendo com que a modernidade se transforme em uma contínua tentativa de se escapar do titã que ameaça devorar seus próprios filhos. Não por acaso os gregos deram a Cronos, titã do Tempo, a imagem de um ser brutal e voraz que devora os filhos que ele mesmo gera. Interessante notarmos também que o titã era representado segurando uma gadanha ou foice, símbolo primordial da aniquilação a qual o tempo submete a tudo e a todos. Ninguém foge ao seu alcance. Como bem salienta Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, matamos o tempo, mas o tempo nos enterra.

Figura 1:  Saturno devora um de seus filhos, Rubens, 1636/1638.

Se facilidade das informações que sobrecarregam o mundo encontramos mais substitutos para a significação, é porque há mais significado que precisa ser substituído. Entretanto, tais significados não são dados pelos sujeitos. Há falta, carência de significado pessoal e, por essa razão, a sociedade moderna – e suas tecnologias – precisam criar significados artificiais que sejam capazes de satisfazer os sujeitos a fim de fugir do vazio que os cerca:

Essa corrida, a necessidade de satisfação e a falta de satisfação estão inextrincavelmente entrelaçados. Quanto mais a vida individual se torna o centro do foco, mais forte se torna a insistência de significado em meio às trivialidades da vida cotidiana. Uma vez que o homem, há cerca de dois séculos, começou a ser como ser individual que deve se realizar, a vida cotidiana parece agora uma prisão. O tédio não está associado a necessidades reais, mas a desejo. E esse é um desejo de estímulos sensoriais. Estímulos são a única coisa interessante. (SVENDSEN, 2006, p.28)

A necessidade humana por significados, por algum conteúdo capaz de ser um constitutivo de significado, torna a existência entediante.  O sentimento de tédio, para Svendsen (2006), é um sintoma de que a necessidade de significado não está sendo satisfeita. O problema da modernidade não é propriamente uma falta de significado, mas uma abundância de significados postiços, pseudos-sentidos. Contudo, tais significados que nos submergem não são os sentidos que buscamos. Na verdade, o sujeito sequer tem noção do que realmente busca e, uma vez que não sabe o que busca, qualquer sentido sintético serve - ao menos por um prazo de tempo - e logo torna-se obtuso e desinteressante.

Para o filósofo sueco, o tédio pressupõe uma subjetividade ou seja, uma consciência de si. Para sentir tédio o sujeito necessita perceber-se enquanto indivíduo e é esse sujeito quem irá cobrar um significado do mundo e de si próprio. O sentimento de tédio é “a expressão da ausência de tal significado” (SVENDSEN, 2006, p.34). Por esta razão percebemos que o tédio existencial na sociedade moderna encontra-se ligado ao niilismo e ambos confluem na morte de Deus.

Nesse sentido, o sentimento de tédio mostra-se como uma antecipação da morte na própria existência. Em Florbela Espanca, encontramos um verso que parece expressar essa morte em vida que é o tédio, tão profundo que assume a aparência letárgica da própria morte:

Passo pálida e triste. Oiço dizer:

“Que branca que ela é! Parece morta!”

E eu, que vou sonhando, vaga, absorta,

Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...

Percebemos aqui algumas imagens que constituem a metáfora poética para a ideia do tédio enquanto morte em vida. O eu-lírico sente tão profundamente essa indiferença, tão devastadora a ponto de não se permitir um gesto ou um olhar de interesse ao que lhe passa em redor, que seu sentido de denso tédio existencial expressa-se na palidez de sua face, o que representa a própria imagem da morte. É conhecido o fato biológico de que, quando morre um corpo humano, a palidez é uma das principais características após algumas horas post mortem. Tanto é assim que o olhar do outro, objetivando-a, exclama que de tão branca, de tão pálida, parece já haver morrido. Tal imagem simboliza a morte espiritual do eu-lírico, somente o corpo permanece movimentando-se, a alma, esse eu que confere sentido e significado ao mundo, já não existe mais. Antero de Quental, poeta português e representante do Realismo que trouxe em sua poesia aspectos temporãs do Simbolismo lusitano, assim também se expressava em relação ao sentimento de tédio existencial no soneto Anima Mea, quando a própria Morte, personalizada enquanto uma “loba faminta”, vem ao encalço do eu-lírico. E este assim, muito indiferentemente, lhe responde:

— Não temas, respondeu (e uma ironia
Sinistramente estranha, atroz e calma,
Lhe torceu cruelmente a boca fria).
Eu não busco o teu corpo... Era um troféu
Glorioso de mais... Busco a tua alma —
Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»

Se o tédio é capaz de matar o indivíduo em vida, a morte torna-se, por seu turno, a única forma de oposição ao tédio, pois, “na inumanidade do tédio ganhamos uma perspectiva de nossa própria humanidade” (SVENDSEN, 2006, p.43). O sujeito é um ser finito imerso em um tempo infinitamente esvaziado de qualquer significado e dentro do qual não temos qualquer importância. O tempo da vida torna-se uma prisão; o nascer e o morrer, os dois extremos entre os quais oscila o pêndulo do existir. Para Simone Weil (1996), a sucessão uniforme de minutos torna-se cruel, tal como o tique-taque de um relógio. Em Florbela, a cor roxa também emerge enquanto imagem metafórica da morte em vida, do sentimento de tédio:

A minha Dor é um convento. Há lírios

Dum roxo macerado de martírios,

Tão belos como nunca os viu alguém!

A imagem do lírio, uma flor já roxo remete à ideia de corpo morto, haja vista que, além de empalidecer, o cadáver, após horas morto, as células vermelhas do sangue passam para as partes do corpo que estão mais próximas do solo, uma vez que a circulação foi interrompida. A consequência disso são manchas roxas, as veias incham, um processo conhecido como livor mortis. Juntamente com a temperatura do corpo, essas marcas ajudam os legistas a identificar o tempo e a posição do corpo no momento da morte.

O tédio é, pois, uma falta de expressão, por isso o eu-lírico flobertiano faz da aparência cadavérica o reflexo do indivíduo existencialmente entediado e essa carência expressiva diz respeito à incapacidade de se superar o estado de tédio, de ânsia por todo e qualquer sentido e, por sua vez, igualmente insatisfeito, uma vez que se perde a capacidade de se encontrar aquilo que buscamos, se é que o indivíduo sabe o que busca. Ele simplesmente sabe que procura por alguma coisa, mas não sabe dizer o quê. Algo falta, mas não tem condições de responder o que precisamente está ausente. O escritor norueguês Arne Garborg, citado por Svendsen (2006, p.46), define o tédio como um “frio mental – um frio que atingiu minha mente”, e também Fernando Pessoa afirma ser o tédio um “frio da alma” (1990, p.19):

Sinto frio na alma; não sei com que me agasalhar.

Para o frio da alma não há manto nem capa,

quem o sente não se esquece.

Também Florbela se utiliza de tal metáfora para expressar o tédio em sua poesia:

Que diga o mundo e a gente o que quiser!

O que é que isso me faz? O que me importa?

O frio que trago dentro gela e corta

Tudo que é sonho e graça na mulher!

O frio, a rigidez gélida, sem calor, sem vida, portanto, uma vez que o calor, a temperatura elevada de um corpo denota presença de vida. Quando morremos, nossa temperatura baixa. Quando o coração para, o corpo experimenta o que a medicina legal denomina de algor mortis ou o “frio da morte”, quando a temperatura do corpo esfria em uma média de 1,5 ºC por hora, até atingir a temperatura ambiente. Percebamos que o eu-lírico pessoano, ao se referir a um frio da alma para o qual não há agasalho, metaforiza a morte da alma, ou seja, o eu-lírico é um morto que vaga sobre a terra, insepulto. É o tédio existencial, a morte na existência, a morte do eu. A mesma imagem frigidez encontramos no eu-poético flobertiano: o frio mortal congelou qualquer resquício de vida que possa caracterizar a energia vital feminina.

A experiência do tédio faz com que os indivíduos sejam incapazes de encontrarem qualquer sentido satisfatório que possa conferir um significado ao mundo, a si próprio, à existência. O mundo parece um túmulo e o sujeito é um “Vivo - que vaga sobre o chão da morte; Morto - entre os vivos a vagar na Terra” (CASTRO ALVES, 1965, p.22). Mário de Sá Carneiro põe como nome de seu poema Além-Tédio, o que indicia uma alusão ao termo “além-túmulo”, ou seja, algo que já está morto e encontrar-se-ia em uma outra “existência”, em um limbo existencial – se assim pudermos expressar -, algo que está para além da morte do eu, o que também caracteriza o tédio enquanto uma morte em vida. O vazio do sujeito e do mundo estão interligados e não há possibilidade de uma definição para o tédio, haja vista que carece de positividade. Em nossa análise, abordaremos o tédio enquanto uma privação de significação na poesia de Florbela e Espanca e Mário de Sá Carneiro.

  1. A CRISE DE SENTIDO DA MODERNIDADE E A EXPERIÊNCIA DO TÉDIO EM FLORBELA E SÁ CARNEIRO

Sigmund Freud, em sua obra Luto e Melancolia, denomina esta última como uma forma de loucura cuja principal característica é o humor sombrio, uma profunda tristeza capaz de conduzir o indivíduo ao suicídio. Segundo o Dicionário de Psicanálise (1998, p.505), a melancolia sempre foi “a expressão mais incandescente de uma rebeldia do pensamento e a manifestação mais extrema de um desejo de auto-aniquilamento, ligado à perda de um ideal”. Em nossa análise, trabalharemos o conceito de tédio em assonância com a melancolia, tal como caracterizada pela psicanálise freudiana, haja vista que no sentimento de tédio, o indivíduo perde algo importante para o seu equilíbrio no mundo, porém não consegue atentar para o que de fato foi perdido, o que claramente também tipifica o sentir melancólico.

O Dicionário de Psicanálise afirma que a melancolia liga-se ao mito grego de Cronos, o deus do tempo que devorava seus próprios filhos, o que é muito contundente, uma vez que o problema do tédio é uma experiência do tempo que precisa ser consumido. O sujeito se vê aprisionado ao tempo eterno sendo ele próprio finito e não consegue tornar satisfatório essa permanência do tempo existencial. A vida transforma-se em uma cela insuportável e a morte, a única saída para fora desta prisão.

Mário de Sá Carneiro, poeta do Modernismo português, amigo íntimo de Fernando Pessoa e um dos nomes da geração Orpheu, foi um poeta em busca de si e David Mourão-Ferreira (1990) traduziu tal sentimento identificando o eu-lírico do poeta como o Ícaro, o jovem, da mitologia grega, que tentou voar e teve as asas derretidas pelo sol. Assim como Ícaro, o eu-poético de Sá Carneiro parecia querer voar, ultrapassar sua condição de humano e ser Deus, a ambição desmedida do sujeito humano em querer desfazer-se da finitude e alcançar a eternidade.

Em seu poema Além-Túmulo, percebemos uma alusão ao mito de Ícaro, quando o eu-lírico assim diz que:

Outrora imaginei escalar os céus

À força de ambição e nostalgia,

E Doente-de-Novo, fui-me Deus

No grande rastro fulvo que me ardia.

Ícaro não é somente um jovem – imaturo – que peca por irreflexão, mas também pode ser visto enquanto herói do ideal, sonhador, que deseja alcançar o infinito, a liberdade plena. Aqui presenciamos o sentir melancólico/entediante, uma vez que o primeiro caracteriza-se enquanto um aniquilamento de si pela perda de um ideal, de um desejo e o segundo, assinala-se enquanto uma crise de significado: perdido o sentido que serviria enquanto bússola para a existência, esta encontra-se ela mesma em perigo.

Figura 2:  Herbert James Draper, 1898.

E o eu-poético dá prosseguimento:

Parti. Mas logo regressei à dor,

Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:

A quimera, cingida, era real,

A própria maravilha tinha cor.

O anseio pelo novo torna-se insípido. Como podemos perceber, o eu-lírico procura uma nova sensação, um novo ideal que possa conferir sentido ao mundo e a si próprio. O eu-poético imagina poder construir um eu substancial e, por fim, superar o sentimento de tédio, se for capaz de preencher o Tempo que o devora com impulsos, com novas sensações. Não há lugar para a experiência, não há tempo para a significação, apenas a vivência superficial de momentos que se sucedem e que deveriam dar um sentido à vida. Porém, a novidade queda ultrapassada e a existência não adquire o significado que lhe falta. Vemos, pois, aqui, uma alegoria da caverna ao avesso. Sair da obscuridade do sentir melancólico, do tédio existencial para alcançar o alto, o eterno, a luz, é meramente uma ilusão. O sujeito depara-se com a vacuidade e cai, a queda aqui aparecendo como uma metáfora para o próprio sentir melancólico, que é para baixo, depressivo:

Ecoando-me em silêncio, a noite escura

Baixou-me assim na queda sem remédio;

Eu próprio me traguei na profundura,

Me sequei todo, endureci de tédio.

O eu-lírico, tal como Ícaro, morreu, secou, endureceu, querendo alcançar algo inalcançável, pois, como o próprio Svendsen (2006) disse, a superação do tédio está fora da força de vontade humana, uma vez que a própria vontade não consegue mais agarrar-se a coisa alguma quando se encontra imersa no sentir melancólico. A imagem de um eco que ressoa o próprio silêncio é muito forte na estrofe, pois, na tentativa de superar a existência entediante, o tempo devorador, tal tentativa gera consequências desastrosas. O eu-poético mostra-se enlouquecido em sua busca ansiosa por diferença e termina por sucumbir ao intoleravelmente idêntico, sem qualquer natureza própria:

E só me resta uma alegria:

É que, de tão iguais e tão vazios,

Os instantes me esvoam dia a dia,

Cada vez mais velozes, mas esguios...

Na ausência de uma relação com Deus, responsável por significar a existência, o eu volta-se para si próprio e para as satisfações dos sentidos em busca de um sentido postiço capa\ de significar o mundo e o eu. O objetivo é esquecer o estado miserável da condição existencial humana e tal ação possui um efeito destrutivo: o eu fragmenta-se ao fugir do vazio da realidade. Se apenas a satisfação sensorial é capaz de consolar o sujeito da miserabilidade humana, essa necessidade constitui-se enquanto a maior miséria humana, impelindo o sujeito para a própria destruição.

Percebemos em Florbela Espanca, poetisa lusitana do Modernismo, cuja poética marca-se por uma ambiguidade que reúne características simbolistas e decadentistas, enquanto centralidade de sua poesia o tédio existencial metaforizar-se como a Dor e, tal como salienta Barreira 1992), o sentir poética expressa-se enquanto sofrimento. Em Florbela, não temos um tempo de experiência, contudo, ao contrário, uma experiência de tempo. O tempo, os minutos, segundos, horas, tal como no eu-lírico de Sá Carneiro, parecem iguais e vazios, idênticos, uniformes, em pleno repouso, eterno; emergem enquanto nulidades, impotências e vazios:

O que é que me importa? Essa tristeza

É menos dor intensa que frieza,

É um tédio profundo de viver!

 

Aqui, mais uma vez, a metáfora do gelo, do frio, enquanto característica do sentimento de tédio. O eu-lírico sente-se frio, gélido, tal como morto, por dentro. O tédio, uma morte em vida, resfria tudo, tira o calor da existência, o sopro da vida.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Outra vez a imagem do frio cujos elementos primordiais que o caracterizam como tal permite um efeito sensorial quase táctil, permitindo um envolvimento físico do leitor. O frio que se abateu no interior do eu-lírico aparece como um pavor que a desnorteia, pois não sabe mais quem é ou aonde vai. Tudo está morto, o eu e o mundo. O eu perdeu sua identidade na escuridão e na apatia, na frialdade. Não há forma, nome ou objeto. O tédio não é somente um estado interior, mas também um traço do próprio mundo. Enquanto o eu-lírico de Sá Carneiro emerge como Ícaro, cujas asas são derretidas pelo sol, no eu-poético flobertiano surge como o morto, o herói já caído. Do eu brota o desânimo, a tristeza, o rancor, o desespero, a melancolia, o tédio:

E é tudo sempre o mesmo, eternamente...

O mesmo lago plácido, dormente...

E os dias, sempre os mesmos, a correr...

Em Sá Carneiro, esse passar dos instantes, sempre iguais, tal como tique-taque do relógio, é a única alegria do eu-lírico, porque aproxima-o da morte, sua única rota de fuga. Em Florbela, não há mais a possibilidade de se preencher o vazio ocupado anteriormente pelas metanarrativas. É o entediante, o eterno mesmo; não há mais limites e nada é mais entediante que o eterno, o ilimitado. O eu-lírico flobertiano está imerso em um excesso de introspecção sem qualquer meta ou objetivo. O nivelamento, como salienta Svendsen (2006), provoca tédio. O uso das reticências é um artifício que indicia justamente o sentimento de tédio, a própria repetição dos atos do mundo, corroborando o discurso do eu-poético. A própria estrofe poderia, inclusive, ser mudada de ordem sem afetar a estrutura simbólica da mesma: E é tudo sempre o mesmo, o mesmo lago plácido, e os dias, sempre os mesmos, eternamente... dormente... a correr... Podemos perceber também a repetição da própria palavra “mesmo”, demonstrando o desespero do eu-lírico em sua busca por diferenças, por naturezas próprias, por identidades, não somente do mundo e de seus objetos, mas do eu.

Sendo o sujeito uma síntese entre infinitude e finitude, entre temporal e eterno, entre necessidade e liberdade, tendo a própria palavra síntese um significado que diz respeito a uma relação entre dois termos, o indivíduo não pode mais ser considerado ainda um eu. O eu não é a relação em si, mas o voltar-se sobre si mesma, o conhecimento que adquire de si própria. O eu possui seu fundamento fora de si, - em Deus, por exemplo. Na modernidade, podemos perceber esse movimento que vai da base religiosa, Deus como fundamento e significação do mundo e da subjetividade, à ciência: a Razão como fundamento do eu e do mundo, única via de acesso ao mundo e a esse eu que é a síntese mesma das contradições humanas. De onde surge, portanto, o sentimento de tédio? Justamente da quebra dessa relação que a síntese estabelece consigo mesma. O eu rompe-se e fragmenta-se:

Perdi-me dentro de mim

Porque eu era labirinto,

E, hoje, quando me sinto,

É com saudades de mim.

Aqui encontramos novamente uma alusão ao mito de Ícaro, haja vista que o jovem Ícaro liga-se ao mito do Minotauro e do Labirinto de Cnossos, na ilha de Creta. O pai de Ícaro, Dédalo, havia construído o labirinto que manteria o Minotauro aprisionado. Após Teseu matar o monstro e o labirinto começar a ser destruído, Dédalo constrói, para si e para o filho, asas de cera. Contudo, quando Ícaro tenta voar mais alto para alcançar o sol, suas asas derretem pelo calor, levando o jovem à queda e consequente morte. O tempo, para o eu-lírico, assume a forma do labirinto do qual não se pode escapar e, ao tentá-lo, ao esforçar-se por fazê-lo, por ultrapassar a condição humana, tudo que se encontra é vazio, silêncio, que ecoa, como no primeiro poema e, logo em seguida, a queda e a morte.

O tempo e a própria experiência existencial são um labirinto que aprisiona o eu e este, tomado de uma náusea, tal como metaforizou Jean-Paul Sartre (ano) em sua principal obra filosófica, toma-se de horror pelo abismo e dilui-se. Quanto mais consciência se tem, maior será o sentimento de vazio. O eu-lírico demonstra uma clara insatisfação existencial e uma não adequação à existência, ao mundo. Sente saudades de si mesmo por haver perdido essa significação que sustentava essa subjetividade. Svendsen (2006) que o tédio pressupõe uma auto-reflexão no que diz respeito à própria condição do sujeito no mundo.

Não sinto o espaço que encerro

Nem as linhas que projeto;

Se me olho a um espelho, erro –

Não me acho no que projeto.

Percebemos em ambas as estrofes, e tal construção estética segue durante todo o poema, que a última palavra repete-se do primeiro e segundo versos repetem-se no último, assim como a assonância de /into/ e de /erro/, ocasionando um efeito sinestésico que caracteriza o próprio sentir entediante, que é repetitivo e, portanto, tal como um eco, repete-se infinitamente. Mediante o uso de figuras de linguagem, o eu-lírico expressa, na forma estética do poema, o próprio sentimento melancólico, o próprio tédio existencial que torna seus dias uma experiência mortificante. Essa imagem também prefigura o próprio labirinto cuja saída não se é capaz de achar e termina por voltar-se ao início ou aos mesmos caminhos anteriormente percorridos.

O não reconhecimento de si diante do espelho declara a perda de referencial desse eu, pois não é mais capaz de significar, logo não sabe quem é, não se conhece. Percebemos um profundo desespero de não se conseguir encontrar nada que seja capaz de dar um sentido às necessidades do eu. O tédio, pois, pressupõe alguém que se entendia, mas que não sabe bem de quê, encontra-se enraizada na procura pela infinitude e aquele que deseja o infinito, ignora bem o que realmente deseja:

Para viver uma vida significativa, o homem precisa de respostas, isto é, de certa compreensão de questões existenciais básicas. [...] A pessoa tem de ser capaz de se situar no mundo e de construir uma identidade relativamente estável. [...] ter uma identidade pessoal é ter a representação de um fio narrativo na vida, em que passado e futuro podem dotar o presente de significado. [...] Para se ter um significado, ser um eu, é preciso ser capaz de contar uma história sobre si mesmo, sobre quem se foi, quem se quer vir a ser e quem se é agora, entre passado e futuro. (SVENDSEN, 2006, p.83)

Desprovidos de um eu substancial ou essencial que possibilite uma significação a si e ao mundo, tornamo-nos mônadas nômades, indivíduos vagabundos, deserdados da universalidade da Razão, órfãos de Deus, vagando sem rumo sem qualquer possibilidade de descobrir qualquer coisa que possa garantir um sentido e dar consistência à existência. O eu encontra-se aprisionado no vazio infinito. O pensar torna-se tortura, a voz do pensamento é lamento torturante que o sujeito não é capaz de calar. O sujeito não quer pensar sua condição, contudo não é capaz de fazê-lo estacar, está sempre a remoê-lo por dentro:

Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

O eu-lírico flobertiano confere personalidade ao sentir melancólico, Dor, a qual denomina de tortura interminável, tal como uma cadência de interminável de mortificação. A imagem da cadência aqui, enquanto encadeamento de suplício, uma sucessão regular de angústia e padecimento, um ritmo, um compasso de tristezas, ameaça arrastar o eu-poético à loucura, à demência, desembocando em um comportamento imagético que emerge enquanto comportamento que sugere loucura, desatino, corroborada pelo desejo insano de gritar:

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

Mais uma vez percebemos a repetição de palavras como uso estilístico na forma poética, como um ethos discursivo, para revalidar o conteúdo. Novamente a reiteração da palavra “mesmo”, a mesma mágoa, o mesmo tédio, a mesma angústia, sem qualquer possibilidade de escapatória. O eu observa a si próprio e julga-se, a consciência de si está ligada à solidão, pois esta é incontestavelmente pessoal. A solidão é o próprio eu-lírico e, tal como a consciência e a solidão pertencem ao eu, a solidão também, um tédio pelo qual o sujeito torna-se responsável.

Para Martin Heidegger (2006; 2015), a solidão é condição original do Dasein. Quando nascemos, somos atirados à existência, lançados à própria sorte. Os indivíduos diferenciam-se uns dos outros pela maneira como lidam com a liberdade ou o abandono que daí provém. Heidegger observa o Dasein em fuga de si próprio, deseja esconder sua condição de facticidade, situa-se em sua cotidianidade que o mantém distante de si mesmo. O Dasein quer desesperadamente manter-se distante da angústia que o de existir provoca. Tem a necessidade de escapar da solidão que o consome.

Se a essência do indivíduo humano é o fato de existir, enquanto tal estamos lançados em um mundo, somos facticidades, totalidades de significações históricas que sofrem a ação da sedimentação social. Não somos capazes de nos pensarmos fora do mundo, pois o mundo constitui nossa própria existência. Por isso Heidegger (2015, p.254) afirma que o sujeito angustia-se “pelo próprio ser no mundo”, haja vista que “o mundo não é mais capaz de oferecer alguma coisa, nem sequer a co-presença dos outros”. A solidão não pode ser analisada de maneira independente da existência, haja vista que a solidão é uma experiência do sujeito fático, do existente, que revela o seu modo de existir.

O indivíduo encontra-se sozinho no sentimento de tédio haja vista que não é capaz de encontrar apoio fora de si mesmo. Na verdade, não é possível encontrar apoio sequer em si próprio. O significado pessoal dado pelo sujeito ao mundo e ao eu com o intuito de estabelecer uma relação de significação como única coisa capaz de oferecer um sentido à existência, é inapreensível. Ainda que qualquer significado seja inalcançável, faz-se necessário aceitar o tédio, uma vez que não há modo de sair dele. Haja vista que não há qualquer solução para o tédio, é justamente isso que faz dele um problema.

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como percebemos ao longo de nossa análise, o tédio parece ser um mal tipicamente moderno, ainda que a palavra seja bastante antiga. Na contemporaneidade, pode ser compreendido enquanto um fardo que arrasta a existência segundo o tempo ditado pelo mercado. Não é mais a rapidez vertiginosa que faz tudo parecer igual, mas a transformação do indivíduo é mera imagem, superposta a outras imagens, sujeitos tornados modelos opacos e planos, ocasionando uma inversão da iconicidade e concedendo à representação imagética um valor de realidade superior a própria realidade a qual pretende representar.

Percebemos que o sentimento de tédio existencial é uma experiência atrelada à vivência do moderno, cuja relação com o tempo torna-se uma correspondência esvaziada de conteúdo, mera superficialidade sem qualquer singularidade e, portanto, completamente nivelada na mesmice. Não há mais um entendimento qualitativo do tempo, mas quantitativo e, nesse sentido, a experiência do tempo transforma-se em um infinito passar dos segundos, todos iguais porque não possuem categorias de valor capazes de distinguir qualitativamente uma porção do tempo de outra.

A partir dessa experiência do moderno, percebemos como o sentimento existencial de tédio emerge nas poesias de Florbela Espanca e Mário de Sá Carneiro, analisando imagens que os eu-líricos dos respectivos poetas utilizam para metaforizar o sentir indiferente e sufocante do viver sem qualquer sentido ou significação. Ambos os poetas reconhecem-se enquanto estrangeiros deste mundo, como se a existência fosse uma espécie de exílio.

Tanto o eu-poético flobertiano quanto o eu carneriano não são capazes de se identificarem nesse mundo; sempre em busca de algo que lhes falta ainda que não saibam exatamente de que carecem, transformam-se ambos em embriagados de si próprios, como se se sentissem em uma existência inautêntica, a qual jamais pertencerão. Perdem-se, portanto, em uma vertigem labiríntica na qual são aniquilados, consumindo-se a si mesmos.

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  15. SVENDSEN, Lars. Filosofia do Tédio. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
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