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Abstract
This article deals with the study of Arabic settings in the work of Jorge Amado. To this end, we choose as privileged texts of this research the twenty-four novels published by the author, where we seek to observe the similarities and differences in the representations of the Arab immigrant, as well as the lines responsible for configuring the Arab-Brazilian identity of southern Bahia, woven by the interrelationship between the cultural features of the Sertanejo and the cultural features of the Arabs, both expelled from their lands, by necessity or by wars. As a methodological theoretical reference, we will avail ourselves of Edward Said's contributions to understanding the Arab universe in the West; Alice Raillard's studies of the Baian writer's aesthetic choices; and the author's own confessions about his literary making.
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The Arab Peculiarity of Jorge Amado
A Particularidade Árabe de Jorge Amado
Jorge Amado's Arabic Particularity
Dr. Valter Luciano Gon Alves Villa
RESUMO
O presente artigo trata do estudo das configurações árabes na obra de Jorge Amado. Para tanto, elegemos como textos privilegiados dessa pesquisa os vinte e quatro romances publicados pelo autor, onde buscamos observar as similaridades e diferenças nas representações do imigrante árabe, bem como as linhas responsáveis pela configuração da identidade árabe-brasileira do sul da Bahia, tecida pela inter-relação entre os traços culturais do sertanejo e os traços culturais dos árabes, ambos tangidos de suas terras, pela necessidade ou pelas guerras. Como referencial teórico metodológico, nos valeremos das contribuições de Edward Said, no que diz respeito à compreensão do universo árabe no Ocidente; dos estudos de Alice Raillard acerca das escolhas estéticas do escritor baiano; e das confissões do próprio autor sobre o seu fazer literário.
Palavras-chave: orientalismo, imigração árabe, identidade brasileira, literatura brasileira.
Nascido no ano de 1912, na cidade de Itabuna, filho de sergipanos, emigrados para o Sul da Bahia, atraídos pelo boom do cacau, Jorge Amado logo se viu testemunha das guerras de conquistas de terras, empreendidas pelos fazendeiros da região, a exemplo de seu pai. Movidos pelas riquezas auferidas pelo comércio cacaueiro, esses ruralistas protagonizaram várias histórias que, posteriormente, tornaram-se importantes e significativas para a construção de sua obra romanesca.
Narram os biógrafos do escritor, que sua família, fugindo das grandes enchentes e do surto de variola que se espalhava pela região, instalaram-se na cidade de Ilhéus, onde Jorge Amado passaria toda a sua infância. Aos dez anos de idade, seus pais resolvem interná-lo no colégio dos jesuítas, em Salvador, de onde o escritor, depois de algumas fugas, sairia no ano de 1930, para estudar no Rio de Janeiro, a fim de terminar os estudos ginasiais.
Ainda em Salvador, onde iniciara, aos dezesseis anos, o ofício de jornalista, fez parte da Academia dos Rebeldes, agrupamento fundado pelo poeta Pinheiro Viegas, ocasião que lhe permitiu conhecer figuras importantes da intelectualidade baiana, entre eles, Edison Carneiro, etnólogo, folclorista e historiador, que exerceu grande influência, devido às suas pesquisas com a cultura popular.
Nesse tempo de militância literária, Jorge Amado seria fortemente influenciado pelos seus pares baianos. Reunidos em torno do programa da Academia, o grupo aspirava implantar uma literatura de raízes populares, ao mesmo tempo em que procuravam "ignorar o modernismo de importação da Semana de Arte Moderna de São Paulo e suas ramificações e re-significações regionais". (SEIXAS, 2004, p. 44)
Sobre esses momentos, o escritor baiano confessaria, ao jornal Gazeta de Notícias, quatro anos depois de sua chegada à Cidade Maravilhosa, as peculiaridades daquele grupo, chegando, inclusive a fazer revelações acerca da presença árabe em sua cotidianidade que posteriormente, transformar-se-iam em matéria literária, conforme podemos observar dos seus relatos acerca do bar Brunswick, local onde os membros da Academia dos Rebeldes se reuniam diariamente, para promover e deliberar suas aspirações literárias:
O bar Brunswick...Quantas recordações daquele botequim de literatos, que se reuniam diariamente para comentar os fatos triviais da cidade, os escândalos do bairro literário e discutir os livros aparecidos, as revistas mais novas. Era dono do bar um árabe velho que não sei por que motivo simpatizava com aqueles literatos que faziam despesas tão pequenas..."[...] Pois nesse tempo nós fizemos na Bahia uma revista de caráter universalista, condenando o verde-amarelismo e a brasilidade dos mineiros e paulistas. – Era no bar que se passava tudo isto, sob os olhares protetores do árabe, que ainda nos guardava embrulhos e dava anúncios para as nossas revistas. (AMADO, 1934, não pag. apud TATI, 1961, p. 19-20)
Mesmo não estando totalmente inteirado com os acontecimentos do grupo do Recife, parece que havia uma rivalidade entre os grupos do Sudeste e do Nordeste brasileiro, ao que nos parece, bastante sedimentado. Essa oposição se centraliza, com mais vigor, nas maneiras de pensar a literatura brasileira, o que, de certa forma, explica o antagonismo de ideias entre os integrantes desses grupos modernistas, implicados na contenda de reivindicar, para si, a marca de uma brasilidade literária que melhor expressasse uma identidade brasileira que, na opinião de um dos seus maiores ícones, A chamada "Escola do Recife" foi modernismo do mais puro. (FREYRE, 2010, p.28).
Nesse sentido, a escritura de Jorge Amado foi se delineando, adquirindo gradativamente uma forma, já discutida em outra ocasião, que se alimentou, antes de tudo, desses momentos memoráveis da vida do escritor. Talvez essa estreita relação, entre o proprietário do bar Brunswick e o escritor, tenha favorecido na configuração romanesca do personagem Nacib, o sírio do romance Gabriela, principalmente no que se refere ao conjunto de traços e qualidades temperamentais do árabe, na narrativa ficcional.
Quem primeiro levantou a possibilidade de o escritor baiano se valer de suas relações amistosas com os árabes foi o brasileiro, de origem árabe, Jorge Emílio Medauar. Apesar de desconsiderar ou desconhecer aquele depoimento do escritor baiano ao Jornal Gazeta, inclinando-se a acreditar que a inspiração adviera da existência real do bar Vesúvio, na cidade de Ilhéus, do qual Jorge Amado era vizinho, Jorge Medauar, poeta paulista da geração de 45, escritura uma lista de famílias árabes da cidade de Ilhéus, portanto, pessoas de seu convívio (MEDAUAR, 1993, não paginado). Estas, sem dúvida, serviram de matéria prima para configurar essa singularidade amadiana, primeiramente notada por ele, o poeta, mas não completamente observada.
Essa convivência com as famílias árabes, desde a sua infância, em Ilhéus, aliada ao desejo escritural de construir uma literatura de raízes populares, talvez explique o fato de que toda a sua construção romanesca, vinte e quatro romances, estender-se-á com a participação de personagens árabes, particularidade não encontrada em nenhum outro romancista brasileiro, inclusive os de origem árabe.
Desse modo, a sua obra literária, surgida na década de 1930, com a publicação de O país do carnaval (1931), apresenta-se em consonância, não apenas com as suas experiências adquiridas, em convívio com a comunidade árabe, mas também em conformidade com os romancistas do movimento modernista do Nordeste, que preferiram revelar a visão de um Brasil crassado pela pobreza, pela desordem e pelo esquecimento das classes desfavorecidas economicamente, como exemplificam os vários romances amadianos, cujas raízes populares desse povo surgem, como elementos importantes na sua organização ficcional.
Apoiado nessa opção escritural, Jorge Amado desenvolverá o conjunto de sua obra, ostensivamente marcada pela profícuaparticipação de personagens árabes em suas histórias. Dos seus vinte e quatro romances publicados, apenas um, o penúltimo, O sumiço da Santa: uma história de feitiçaria (1992), essa presença se fará de forma mais discreta. Voltado para a narração do convívio amoroso entre Francisco Romero Perez y Perez, filho de imigrante espanhol, e a mulata Andreza da Anunciação, essa obra se constitui como a única do autor baiano, em que a frequentação árabe se processará, através da evocação do seu universo sagrado, especialmente dos libaneses, aliado ao sistema religioso tanto dos judeus, como do cristianismo:
Do alto dos céus os deuses acompanham com benévola simpatia a jornada, laboriosa, extenuante, dos fiéis prosélitos de raça e crença. Iavé, Jeová revelado no Sinai, o bom Deus sírio-libanês dos maronitas e o misericordioso Jesus do Vaticano conduzem os passos dos intrépidos pés-de-boi – cada um seu protegido – aos esconsos da arca ou do oratório onde jaz a peça incomparável à espera do intrépido paladino: David, Salim ou João da Silva. (AMADO, 1992, p. 88)
Numa evidente referência à diversidade religiosa que funda nossa própria fé, como sugerem as denominações dos fiéis-David, Salim ou João da Silva-Jorge Amado aponta para a nossa própria constituição cultural, esse construir-se mestiço, como reconhece Lucia Oliveira, ressaltando a importância de Jorge Amado e a significativa contribuição de sua obra para o entendimento e a interpretação dos traços culturais baianos.
É também na Bahia, pela obra de Jorge Amado, que se reconstrói nova versão da mistura das três raças originais e se produz a imagem do paraíso racial. Os personagens de seus romances, na maioria figuras populares, mestiças, falam da alegria, da sensualidade, da sexualidade, do sincretismo religioso. Jorge Amado, entre outros, pode ser tomado como romancista, como intelectual, que produziu uma mudança de sinal interpretação dos traços da cultura baiana. (OLIVEIRA, 2002, p. 44)
Entre a tradição e a inovação, Jorge Amado abriria suas narrativas à frequentação árabe, como se apreende da leitura de seus variados textos. Nesse encaminhamento escritural, despiria os seus personagens árabes dos estereótipos correntes no Ocidente. Dessa forma, se anteciparia, literariamente, ao discurso clássico de Edward Said que, em sua obra, Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente (1990), desconstrói a visão ocidental sobre o Oriente. Nessa antecipação, Amado elegerá a via da aproximação positiva e empática, para tratar do árabe no Brasil, ao mesmo tempo em que tematiza a importância dos imigrantes árabes na constituição e sedimentação de uma feição baiano-nacional.
Nessa busca identitária, Jorge Amado criaria uma verdadeira galeria de molduras árabes, em contato com o Brasil. Em O país do carnaval (1931), seu primeiro romance, a presença árabe se fará por intermédio de dona Maria, uma árabe, dona da pensão e dona Fifi, personagens de pouca expressão. Além desses personagens, outros inominados comerciantes e mascates surgem nesse universo literário, compondo, desta forma, a trama de sua primeira experiência como romancista.
Essa referência aos comerciantes árabes se repetirá no seu segundo romance, Cacau (1933). Nessa obra, além dessa menção, teremos a informação de que as moças desses comerciantes árabes namoravam jovens brasileiros, fato que se repete, de modo categórico, em São Jorge dos Ilhéus, onde as filhas do comerciante Ásfora se casam com os nacionais, o que demonstra uma acentuada inclinação dos imigrantes árabes à miscigenação.
Sobre esse tema da miscigenação, polêmica exaustivamente discutida entre os fins do século XIX e começou do século XX, é interessante notar os apontamentos que Alberto Torres formula em torno desses debates. Publicando uma série de artigos no jornal Gazeta de Notícias, reunidos posteriormente na obra A Organização Nacional, publicada originalmente no ano de 1914, Torres chamava a atenção para as contradições sociais de nossa coletividade, localizando, desta forma, na ausência de políticas governamentais, as causas do atraso do povo brasileiro, contrariando, desta maneira, a noção corrente de que a miscigenação de nossa coletividade era a causa primeira do atraso industrial, político, social e cultural da sociedade brasileira:
É inegável que se está operando um movimento de apropriação de indústrias nacionais por capitalistas europeus e americanos e que esse movimento não vem senão avolumar o flagrante da nossa renúncia à direção de nossa vida econômica, manifesta na antiquíssima ocupação por estrangeiros das primeiras posições na indústria e no comércio – abandono que se prolongará para o futuro com os próprios descendentes das novas raças, destinada segunda a espúria aspiração de alguns, a substituir as nossas, porque a realidade, provada pela experiência, é que todas as raças degeneram quando não recebem educação para o trabalho e não encontram meio propício à conservação e à prosperidade. (TORRES, 1982, p. 170-171-grifos nossos)
Como se pode observar em Alberto Torres, no início dos anos trinta, os debates em torno da miscigenação e do atraso da sociedade brasileira tomava conta de nossa intelectualidade. Dessas questões, alimenta-se Jorge Amado que, consciente do valor da miscigenação brasileira, continuaria a incluir, em suas narrativas, o elemento arábico.
Em seu terceiro romance, Suor (1934), Jorge Amado narra os dramas que envolveram os trabalhadores baianos dos anos trinta, às vistas com suas primeiras greves, suas participações na política e as condições precárias das moradias comunitárias desses operários que, enfurnados em habitações coletivas, proporcionaram um vivo e excitado quadro, semelhante ao que se vê em O Cortiço, de Aluízio de Azevedo, à imaginação ficcional do literário baiano, conforme podemos observar das declarações da escritora Alice Raillard, quando passeava, juntamente com o casal Jorge Amado e Zélia Gattai, pelas ruas do Pelourinho, onde ficava o casarão que abrigava toda aquela gente:
O passeio desta manhã, em que acompanhei a você e a Zélia, me causou uma impressão muito forte. Emocionou-me muito, ensinou-me muito. Como explicar? Primeiro o Pelourinho, onde fomos rever a casa em que você vivia antigamente - o sobrado de Suor, que desde então se tornou um hotel. (RAILLARD, 1990, p. 79).
É justamente, nesse casarão, que os rostos árabes protagonizam, com os demais moradores da estalagem, uma peleja grupal, compondo, desta forma, um enredo coletivo com tipos psicologicamente primários que filia essa narrativa às propostas de Zola e à forma de Aluisio de Azevedo, diferenciando-se dessa linha naturalista, por optar em dar uma explicação política às penosas condições sociais dos moradores do cortiço.
Essa explicação política, na verdade, é a expressão, ainda que tímida, de uma defesa dos ideais socialistas, momento em que Jorge Amado começava a inclinar-se mais efetivamente na militância político-partidária, direcionando, assim, suas publicações para a causa do Partido Comunista, engajamento esse reconhecido pelo escritor: "Cacau e Suor, que se seguem muito perto 1933 e 1934-, significam meu encontro com a esquerda-é o momento em que me torno um militante da esquerda". (RAILLARD, 1990, p. 56).
Essa ação revolucionária (BASTIDE, 1971, p. 45) pode ser antevista em todo o romance, no entanto, será no final da narrativa, em que os previstas recebem a solidariedade dos moradores do cortiço – A multidão apoiava em berros [...] Ouviram-se gritos em árabe (AMADO, 1980 a, p.162) –, que Jorge Amado sintetiza sua ação, ao projetar a frase de Karl Max, na boca de um operário, morador do cortiço, Proletários de todas as nações... (AMADO, 1980 a, p. 163), que não conseguiu concluí-la, por conta de ter sido alvejado por uma bala, um fim trágico e doloroso, no entanto, necessário para despertar uma consciência de classe que permitisse, aos demais, completar o sentido da oração uni-vos!
Nesse sentido, a união se concretizaria, todo o 68 ali estava. Descera a escada como um só homem, (AMADO, 1980 a, p. 163) e a solidariedade árabe também se faria presente, fortalecendo os laços, representados na figura do jovem Toufick, das mulheres e crianças árabes, do dono da padaria, do seu Samara, enfim, de todo um mundo que, à semelhança do nosso, sofria o julgo das forças econômicas, simbolizadas nas diversas graduações do colonialismo europeu, promotores maiores dos ideais capitalistas, tão combatidos por Jorge Amado, em seus dias de escritor compromissado com as mudanças na estrutura vigente da sociedade brasileira.
Seguindo esse caminho de compromisso político, lançaria, no ano de 1935, Jubiabá, considerada pelo crítico Miécio Tati, um estudioso da vida e da produção artística do escritor baiano, seu "primeiro grande livro." (1961, p. 66). Nessa obra, a consciência de classe, que Jorge Amado pretendia despertar, encontra a fórmula ideal na figura do negro Antonio Baduíno, um menino órfão, de conduta repreensível que, aos poucos, vai se regerando pela via do trabalho, até se tornar um líder consciente e politizado. Solução ficcional encontrada pelo escritor que, de certa forma atende aos propósitos da Aliança Nacional Libertadora, organização política que integrou várias correntes de esquerda, criada para lutar contra a influência fascista no Brasil, da qual Jorge Amado fez parte.
Nessa obra, Jorge Amado retoma, também, agora com mais domínio, a questão do preconceito étnico no Brasil, configurado tanto pelo biótipo de Baduíno, quanto pela religião de ascendência africana, no caso o candomblé. Em relação à religiosidade africana, é notável o quanto Jorge Amado expressa o sentimento de tolerância e compreensão árabe às crenças alheias, ao colocar, na narrativa, um consulente árabe em contato direto com Jubiabá (AMADO, 1981 d, p.114), retomando, deste modo, o respeito que o jovem Toufik, personagem de Suor, expressava pela religião de matriz afro:
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Toufik juntou-se à negra.
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Bom dia, sinhá Maria.
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Bom dia, meu branco.
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Não vai descer?
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Ela esticou o dedo, apontando o embrulho de papel de jornal. Toufik assobiou.
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Um feitiço, puxa! Pra quem será?
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O árabe também acreditava. [...] O sapateiro espanhol desceu. Passou entre o ajuntamento sem curiosidade e ia pisando no degrau fatídico quando alguém o reteve, pegando-o pela manga da camisa.
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Vai pisar no feitiço...
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Ah! Vocês não descem por causa disso?
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Meteu o pé no embrulho desfazendo-o. (AMADO, 1980 a, p.69)
Como se percebe nas cenas acima, os rituais de origem africana eram parcialmente tolerados por segmentos da coletividade, incluindo, aí, os imigrantes árabes. Mas a história das religiões espiritualistas, de matriz africana, não se deu de maneira pacífica e consentida. Ocorreram muitos chutes, à semelhança do sapateiro espanhol, das instituições do Estado, especialmente do aparato policial, que não cessava de invadir os terreiros e, com pontapés e violência de todos os tipos, tentavam impedir a manifestação religiosa dos cultos africanos, que só vieram adquirir seus direitos de livre expressão, na constituinte de 1946, por emenda do próprio Jorge Amado:
Eles foram autorizados somente após a Constituição de 1946. Ao contrário era uma repressão das mais violentas; a toda hora a polícia invadia os terreiros de candomblé, quebrava tudo, batia em todo mundo, prendia o pai ou a mãe-de-santo, torturava, era uma luta horrível. A perseguição religiosa era imensa; era uma forma de repreensão contra toda a matriz negra da nossa cultura, contra todas as expressões da cultura negra. Eu me envolvi muito nisto; Edilson também estava muito envolvido na luta pela liberdade religiosa; foi uma luta tumultuada e muito violenta. Tive a sorte, em 46, quando fui deputado da Assembleia Constituinte, de poder fazer aprovar um artigo na Constituição que garantia a liberdade religiosa no Brasil. (RAILLARD, 1990, p. 37)
Retornando a questão da participação árabe, importante traço de seu fazer literário, que se confirmará a cada romance publicado pelo autor, vamos observar uma importante continuidade em seu quinto romance Mar Morto (1936), em que os personagens árabes, já aclimatados nas terras brasileiras, deixam o casarão do Pelourinho para se tornarem, agora, comerciantes ou agentes bem sucedidos na capital baiana, a exemplo de Toufick. Nesse sentido, vamos observar capítulos inteiros em que esses personagens árabes são trazidos para configurar sua narrativa, especialmente o capítulo Terras de Aiocá, onde se vê o comerciante Murad suplicar pela vida de seu filho, náufrago, à coragem de Guma que, antes de morrer, atende ao humilde pedido do árabe.
Esse desfecho final pode representar, considerando o fio condutor da presença árabe em suas narrativas, um elo de solidariedade recíproca que, aos poucos, vai construindo um histórico de convivência amistosa entre os imigrantes árabes e o povo brasileiro. Talvez a morte carregada de heroísmo do brasileiro Guma possa simbolizar a vida para os árabes Toufick e Antônio Murad, uma solução estética simplória, no entanto, significativa para expressar esses vínculos que se formam na ficção amadiana.
Esses vínculos surgem de múltiplas direções, a exemplo da narrativa Capitães de Areia (1937), em que uma criança árabe, vinculada ao grupo de Pedro Bala, recebe o nome de Gringo, devido à sua fala complicada. Essa linguagem esvai-se diante do companheirismo reinante entre os integrantes mirins, liderados por Pedro Bala, um menino de rua que, juntamente com os demais, tomam destinos diferentes nessa obra pioneira no trato das questões que envolvem os menores abandonados.
Depois dessa narrativa, Jorge Amado voltaria ao romance documental sobre o ciclo do cacau, com Terras do sem Fim (1943), momento em que a participação de personagens árabes, nessa trama, funcionará apenas como pano de fundo da história da rivalidade, entre os coronéis Horácio e Nhô Badaró, na conquista de novas terras; e São Jorge dos Ilhéus, romances que se enquadram na lógica da teoria marxista, conforme podemos apreender das observações feitas por Eduardo de Assis Duarte, na obra Jorge Amado: romance em tempo de utopia (1995), um valoroso estudo acerca da opção escritural do prosador baiano, suas tentativas de utilizar a literatura, como veículo de militância político-partidária:
Os dois romances expõem, de modo claro, a perspectiva etapista de nosso desenvolvimento econômico e político: primeiro o "feudalismo" dos senhores de terras; em seguida, o capitalismo dos comerciantes e exportadores, logo degenerado em imperialismo e, por fim, a possibilidade futura do socialismo, anunciada nas contendas operário-camponesas narradas em São Jorge dos Ilhéus. Tal configuração se encaixa nessa conjuntura ideológica, que previa inclusive a aliança com os setores burgueses e pequeno-burgueses nacionais como forma de luta contra o imperialismo. Terras dos Sem Fim e São Jorge dos Ilhéus, ao contrário de Jubiabá, deixam bem claro seu alinhamento com a estratégia do partido (DUARTE, 1995, p.170)
Nesse caminho, em que a relação entre literatura e militância política se complementam em São Jorge dos Ilhéus, de forma mais intencional, Jorge Amado expressa a crise que se abateu sobre a cultura do cacau, gerada, de cima, artificialmente, por iniciativa dos exportadores, todos estrangeiros, em sua maioria, ingleses, estadunidenses e alemães, três países onde a cultura do oligopólio se encontra mais fortalecida.
Além dessa comunidade de estrangeiros de procedência anglo-saxônica, a obra dispõe referências aos vários imigrantes árabes da região de Ilhéus, a exemplo do sírio Ásfora, primeira e única criatura amadiana de origem semítica, a exercer o papel de dono de roças de cacau.
Nessas configurações, Jorge Amado demarcaria os sentimentos que ora nos distancia, ora nos aproxima desses elementos adventícios, especificamente europeus, ao revesti-los de características desagradáveis para a nossa tradição cordial, como o desdenho, especialmente dos alemães que tratavam os nacionais desde o alto, com certo desprezo (AMADO, 1981 b, p. 40). Diferentemente dos traços de bonomia e urbanidade do sírio Ásfora, tão apreciados por nós e pelos árabes, marcas essas que chegam a extinguir quaisquer vestígios que nos diferencie, um processo espontâneo, portanto, de naturalização, de abrasileiramento desse sírio, primeiro oriental a se naturalizar, sem restrições, sem ambiguidade, em suas narrativas:
Ásfora já não era considerado estrangeiro. Voltara à Síria com a esposa e a filha mais jovem, a única solteira, para passar uma cômoda velhice na terra natal. No fim de um ano regressava, as saudades o trouxeram de volta. Mais uma vez calçou as botas de montaria e se tocou para a fazenda, plantar e colher cacau. (AMADO, 1981 b, p.39)
Apesar dessa afirmação de brasilidade, às vezes explícita, como é o caso do personagem Ásfora, outras veladas, ainda é muito comum um olhar diferenciador sobre essa gente, reputação, muitas vezes, carregada de estereótipos, entre eles, a avidez por dinheiro. Talvez esse estigma de comerciante avarento tenha se firmado, devido ao fato de que os diversos povos sob o domínio otomano, entre eles libaneses, sírios, armênios, curdos, hebreus, ao imigrarem para o Brasil, receberam passaporte turco que, como se sabe, era o nome dado aos povos procedentes de todos os lugares, sob a jurisdição da Porta Otomana. Essa convicção quiçá se tenha formado, devido à própria natureza da mascataria que, antes da chegada dos árabes, era ofício dos portugueses e italianos, de acordo com Claude Fahd Hajjar, em estudos sobre a segunda leva de imigração árabe, ocorrida entre os aos de 1900 a 1914:
A concorrência, nesse período, era travada pelos antigos imigrantes portugueses e italianos, mais antigos no Brasil que os árabes nas atividades comerciais e no mascatear. Esta foi uma das lutas que o árabe teve que travar no Brasil, buscando o seu lugar nesta terra imensa que necessitava de quem a desenvolvesses, a explorasse e que nela pudesse ser ativo, produtivo e criador. O imigrante árabe conquista o seu lugar e mostra o muito que tem para contribuir à sua nova pátria. (HAJJAR, 1985, p. 98-99)
Diferentemente dos arroubos que circulam as declarações de Claude Hajjar, o escritor nordestino escrituraria essa pertinência árabe, com um olhar diferenciador, capturando, desta forma, os imigrantes árabes como aqueles que vieram contribuir para o processo miscigenador da sociedade brasileira, sem o viés desse progresso desenvolvimentoista.
Daí que no romance Seara Vermelha (1946), Jorge Amado, ao lidar com os árabes mascates dessa narrativa, promove a maneira, o jeito árabe de comercializar, à categoria da arte, da magia, tal é o encantamento que esses vendedores exercem, com suas histórias e seus apetrechos, nas mulheres retirantes que olhavam os baús mágicos dos árabes [...] e ouviam como se fosse tentadora melodia [...], pois os árabes não se furtavam a contar histórias (AMADO, 1981 g, p.122-123); histórias e apetrechos que abrandava até os corações mais empedernidos dos cangaceiros (AMADO,1981 g, p.201-202), desconstruindo, no idealismo ficcional, a opinião solidificada no imaginário popular de que os árabes é um povo obcecado por adquirir e acumular dinheiro.
Até antes da publicação da trilogia Subterrâneos da Liberdade (1954), o autor de Gabriela tratou de tematizar, com mais incidência, a vida dos trabalhadores da zona do cacau, as rivalidades entre os coronéis, a vida dos trabalhadores urbanos e dos retirantes. Essa linha temática, se bem que não totalmente abandonada, deixaria de se tornar um assunto principal, para ceder lugar aos fatos da militância partidária, assunto para seus próximos romances, voltados para narrar os fatos políticos que circularam a implantação do Estado Novo, as suas relações com as potências em guerra e, concomitante a esses, os momentos de perseguição aos membros do Partido Comunista do Brasil.
Esse era também o período das guerras de independência que o mundo árabe travava contra a França e a Inglaterra, o que ocasionou uma aproximação com a política do Terceiro Reich, circunstâncias que foram recebidas com desconfiança nos gabinetes getulistas.
Até antes do início dos conflitos, as várias comunidades de imigrantes no Brasil mantinham, periodicamente, em suas línguas de origem, a publicação de diversos jornais, revistas e outros similares, a exemplo da Al Usba, revista escrita em árabe, que teve grande circulação no meio literário brasileiro. Fundada e dirigida pelo poeta Chafic Maluf, a sua publicação foi proibida pelo governo no período da guerra, voltando posteriormente, onde circulou até começo da década de 1950:
Al USBA publicou 80 números durante os sete primeiros anos de sua existência. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro foi levado a proibir, temporariamente, toda publicação que não fosse em língua portuguesa. A revista deixou de circular, portanto, durante esta fase. Renasce depois da guerra, dirigida por Chafiq Maluf, considerado, não sem razões, um dos melhores escritores árabes do Brasil. Continuou sendo publicada até 1953, data do último número. (ZEGHIDOUR, 1982, p.75-76)
A participação dos imigrantes na vida política, social e cultural do Brasil sofreria sérias restrições, fazendo com que os intelectuais aqui residentes evitassem atitudes que gerassem desconfortos ou perigos para a sua condição de estrangeiro. O que obviamente não chegou a ser o caminho de todos, pois alguns já estavam envolvidos demais para permanecerem reclusos, a exemplo do barbeiro de origem libanesa, Abílio de Nequete, um dos fundadores do Partido Comunista do Brasil, no ano de 1922, na cidade de Niterói.
Mas essa participação não estaria ausente nos romances de atividade política de Jorge Amado que, a essa época, seguia fielmente as diretrizes estéticas do Partido Comunista do Brasil, fazendo com que a modelagem dos vários personagens dessa trilogia seguisse as concepções marxistas, emanadas de Moscou (MORAES, 1994, p. 61). Daí a internacionalização do conflito ter desembocado em sua tríade literária, fazendo com que a política pertinente ao mundo árabe espelhasse, em sua obra, na forma de uma análise de conjuntura. A Inglaterra fica pela índia e pela Arábia; mas aí mesmo os americanos vão entrando cada vez mais (AMADO, 1981 c, p. 55).
Análise de conjuntura que se expressa, também, no posicionamento espacial em que o árabe Chafik se encontra. Uma área da floresta amazônica, pretendida tanto por estadunidenses quanto por alemães (AMADO, 1981 e, p. 226-228); na importância para a causa comunista dos movimentos de independência árabe, os partidos pan-arabistas (AMADO, 1981 e, p. 243); por fim, o destino dos países árabes recém-independentes, receosos de maiores compromissos com Moscou, um estado ateu, portanto, incompatível com as tradições islamitas do povo árabe (MAALOUF, 2011, p. 169-175), pode ser vaga referência, pois o árabe Chafik fora embora no temor de ser envolvido pelos acontecimentos, outra vez preso e entregue as autoridades francesas (AMADO, 1981 f, p. 203).
É claro que o contexto internacional, especificamente árabe, em guerra contra os domínios coloniais, se tornaria apenas um aceno dentro dessa proposta ficcional de Jorge Amado, que pretendia contar os fatos históricos do período referente ao Estado Novo. Esses propósitos eram tidos pelo escritor como verdadeiros e factuais, ainda que confessasse a Alice Raillard não haver uma correspondência direta e correlata entre literatura e política, entre ficção e realidade:
Subterrâneos é um livro importante, em primeiro lugar, os fatos sobre os quais o romance se funda, a luta do Estado Novo contra o povo brasileiro e dos comunistas contra o Estado Novo, tudo aquilo aconteceu, são fatos históricos. Foram aumentados, é verdade, principalmente no que se refere à luta popular; talvez ela não tivesse tido esta mesma dimensão na realidade. Mas a luta se deu, não deixou de existir por um instante sequer. E foi heroica. E o Estado Novo foi mais do que brutal: as torturas, os assassinatos, todas essas coisas aconteceram e pesam sobre a polícia brasileira. (RAILLARD, 1990, p. 136)
Essa sua trilogia seria uma de suas últimas tentativas de subverter a história, a benefício da propaganda ideológica do Partido Comunista. Nos anos que se seguiram a essas obras, o escritor, em viagem pelo leste europeu, se depararia com experiências constrangedoras que o fez lutar para voltar a ser escritor, e não mais o militante político (RAILLARD, 1990, p.142). Esse fato ocorreu com a desfiliação do Partido Comunista do Brasil e da mudança de perspectiva literária.
Depois dessa mudança, Jorge Amado publicou, quatro anos depois, um dos seus romances mais conhecido, Gabriela, Cravo e Canela, considerado por muitos críticos, a exemplo de Alfredo Bosi (1994, p. 406-407), um marco divisor da estética amadiana. Se houve uma transformação de escrita literária, a partir de 1958, principalmente em se referindo às temáticas sociais e políticas-partidárias, não houve, entretanto, uma mudança no que se refere à contribuição do imigrante árabe, na feitura de seus romances. O que lhe valeu um reconhecimento por parte do escritor argelino Slimane Zighdour que, em estudo sobre a "mútua influência entre as literaturas árabe e latino-americana contemporânea", realizado no ano de 1981, para a UNESCO, constataria a importância das narrativas de Jorge Amado, para se entender o universo árabe imigrado para o Brasil:
Desde Cem Anos de Solidão até a Crônica de uma Morte Anunciada cujo herói Nassar é um árabe, Garcia Marquez evoca-os regularmente, mas é na obra de Jorge Amado que o imigrante árabe é mais presente e é nesta obra que ele é captado em todas as suas características culturais e afetivas. (ZIGHIDOUR, 1982, p.55)
Dessa maneira, veremos desfilar, em seus próximos romances, uma diversidade de personagens árabes, representando vários tipos, com diversas características culturais e afetivas, como o comerciante sírio de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua (1961); as bailarinas e mulheres fogosas de Os Velhos marinheiros (1961); o fraterno comerciante Chalub, o Mamed, árabe sensibilizado com as dores do amor e o esperto comerciante Abdala de Os Pastores da noite (1964); o filantrópico Miguel Turco, a enxerida viúva dona Êmina, seu Mamed, outro viúvo aceso, Chalub, orgulhoso de sua pátria de adoção, todos de Dona Flor e seus dois maridos: uma história moral e de amor, (1966); o politizado Maluf, a fraternidade dos árabes de prestação, o travesso e boêmio libanês Mahul e o compreensivo mascate Ibrahim de Tenda dos milagres (1969); os viciados em jogatinas Jamil Najar e Squeff, Bia Turca, praticante do espiritismo, o nacionalista brasileiro Kalil Chamas de Tereza Batista cansada de guerra (1972); o poeta Fuad Maluf e seu neto Antonio Bruno Maluf, de Farda, fardão, camisola de dormir: fábula para acender uma esperança (1979), personagens que, somados aos anteriores, já são suficientes para confirmar o depoimento do escritor argelino, mesmo que não tenham tanta importância para as tramas narrativas como se sucede ao árabe Nacib.
Nesse ínterim, Jorge Amado publicaria o romance Tieta do Agreste (1977), outro grande êxito editorial do escritor, cuja recorrência árabe se faria presente. A esse novo sucesso, se juntaria os acontecimentos históricos que envolveram o mundo árabe, na década de 1970, entre eles uma maior organização da OPEP, criada na década anterior; a segunda crise do petróleo, desencadeada pelo déficit de oferta, devido ao processo de nacionalização iniciada por alguns países; a série de conflitos, envolvendo países produtores, como a Guerra de Junho (O Revés), a Guerra do Ramadã, a Revolução Iraniana, que muito convulsionou o mundo árabe; o embargo de óleo cru às nações ocidentais, pelo seu apoio a Israel na Guerra do Ramadã. Situações que provocaram a elevação do preço do barril a níveis considerados altíssimos, chegando, inclusive a aumentar, no curto período de tempo, entre os fins do ano de 1973 e começo de 1974, em mais de 400%, ocasionando uma prolongada recessão, principalmente nos Estados Unidos da América do Norte e que também teve profundas repercussões no Brasil; o confronto entre o exército do rei jordaniano Hussein, um aliado dos interesses ocidentais e os membros da Organização pela Libertação da Palestina – OLP, na capital jordaniana, e sua consequente expulsão, deixando um saldo de mais de dez mil palestinos mortos, em pouco mais de dez dias de combates; as peregrinações de Yasser Arafat e seus combatentes; a morte do grande líder árabe Gamal Abdel Nasser, ocorrida no ano de 1970; os acontecimentos nos jogos Olímpicos de Munique, entre outras tantas ocorrências que pautaram o jornalismo, a mídia televisa, a indústria cinematográfica, os debates acadêmicos entre outros, conduzidos quase sempre por "especialistas" que, alinhados às políticas sionistas, fortaleceram, ainda mais, os estereótipos postos em circulação desde o Romantismo, com sua visão exótica e pitoresca sobre o mundo árabe, conforme esclarece Said, ao discorrer sobre as três causas atuais que fortalecem o preconceito às gentes árabes:
A televisão, os filmes e todos os recursos da mídia forçaram a informação para dentro dos moldes cada vez mais padronizados. No que diz respeito ao Oriente, a padronização e estereotipação cultural intensificam o domínio da demonologia acadêmica e imaginativa do "Oriente misterioso". Três coisas contribuíram para transformar até mesmo a mais simples percepção dos árabes e do islã em uma questão altamente politizada, quase áspera: uma, a história do preconceito popular antiárabe e antiislâmico no Ocidente, imediatamente refletido na história do orientalismo; duas, a luta entre os árabes e o sionismo israelita, e os seus efeitos sobre o judeu americano, bem como sobre a cultura liberal e a população em geral; três, a quase total ausência de qualquer posição cultural que tornasse possível, seja identificar-se com os árabes e com o islã, seja discuti-lo com isenção. (SAID, 1990, p.38)
Essa quase total ausência de intelectuais conhecadores da cultura e história árabe, a que se refere Said, teria reflexos na feitura desse romance de sucesso do escritor Jorge Amado, em que a participação árabe se processará de três maneiras: a primeira, pela referência direta à existência de personagens menores da narrativa, como o árabe Chalita, dono do cinema da cidade e da gravidez escandalosa de Sátima, filha de outro árabe, o comerciante Abdula; a segunda, processar-se-á de forma mais embaciada, no entanto, essa ambiguidade não permite que a dúvida se instale completamente, pois, na narrativa, parece-nos que o árabe foi primeiro amor e homem da vida da Tieta, personagem que centraliza as atenções no romance. As indicações que colaboram, com a afirmação acima, podem ser vistas na profissão do primeiro namorado de Tieta, a mascataria, profissão não exercida por nenhum outro nos romances amadianos, e na amizade deste com o árabe, nominado da narrativa, o Chalita, amigo íntimo da primeira paixão da protagonista:
Tieta sente no rosto o sopro da maresia, o inconfundível olor. A areia fina, trazida do outro lado da barra na força do vento, penetra-lhe os cabelos. O sol queima-lhe a pele. Ali fora mulher pela primeira vez. Em Agreste, perguntara ao árabe Chalita pelo mascate. Pois não sabe? Morreu de um tiro quando a polícia quis prendê-lo na Vila de Santa Luzia, há uns dez anos mais ou menos. Valente, não se entregou, nunca encontraram a mercadoria, as provas. (AMADO, 1981 n, p. 159)
Quanto à terceira referência, não resta dúvida que a fala do narrador, numa inferência que nos faz lembrar a voz do próprio autor, reclama o direito de ter sido o primeiro a trazer, para dentro de suas tramas romanescas, as gentes árabes. Tomadas agora como um novo modismo pelos escritores de plantão, os "especialistas" como fala Said, conforme se observa dos seus protestos, reivindicando seu pioneirismo no trato do mundo árabe, sua aproximação afetiva e seu entendimento sobre aquela cultura, posição que Jorge Amado não esqueceria de pontuar:
Uma rápida palavra, apenas, um pedido de desculpas. Vem de se ler, nas páginas precedentes: "...não há perigo de ouvidos indiscretos, tampouco de microfones secretos como acontece nos romances de aventuras sobre petróleo árabe e contrabando de armas, com espiões multinacionais e espiãs fabulosamente sexys". É verdade, nada disso existe no Refúgio dos Lordes, local do encontro secreto do Magnífico Doutor com o Jovem Parlamentar. [...] Quanto a árabes, personagens no momento em alta voga nas páginas dos bestellers, além de Chalita, envelhecido leão do deserto, não me resta nenhum outro já que o mascate morreu de tiro, dignamente, como compete a um bom contrabandista. (AMADO, 1981 n, p. 272-grifos nossos)
Chamando-nos a atenção para o seu pioneirismo, Jorge Amado diversificaria as várias feições árabes, ao trazer para suas narrativas uma multiplicidade de rostos árabes que faz, de seus romances, um campo de investigação abundante, para compreender a contribuição dessas gentes, na sedimentação de uma das possíveis identidades baianas e/ou nacionais. Na realidade, ao privilegiar a presença árabe, em meio à sua construção identitária do sul da Bahia, Jorge Amado inauguraria um caminho estético, marcado pela ausência de estranhamento e por uma perspectiva de mão dupla, que ora realça o agudo sentimento árabe de pertencimento à nossa terra, com a correspondente e efusiva aprovação das personagens brasileiras, o que só é possível graças ao apagamento das diferenças e ao realce das similaridades culturais entre nós e os árabes; ora o caminho em que, numa estratégia claramente mais complementar, tanto o árabe quanto o brasileiro reconstroem, solidariamente, o espaço nacional, como se verifica, hoje, nas narrativas de Milton Hatoum sobre a presença árabe no Norte do Brasil.
Apesar de ter pontuado todos os seus romances com a existência de personagens árabes, quase sempre vistas sob o viés da positividade, cada um com suas particularidades e características, cultuadores da amizade, da alegria, da paz, da sinceridade, da simplicidade, da gratidão, da sensatez, da honra, da justiça, do respeito às tradições sagradas do outro, à pátria brasileira, numa quebra incontestável do estereótipo construído pelo mundo ocidental, será, no seu antepenúltimo romance Tocaia Grande: a face obscura (1984), que esses qualificativos convergirão para a formação da síntese de uma configuração árabe, marcada pela ausência de estranhamento, pela similaridade entre nós e os árabes, continuadamente apresentada ao longo dos seus romances.
Esse movimento cíclico, em torno das gentes árabes, do tema da brasilidade, dos costumes da Bahia, da defesa da nossa forma de ser mestiço, que tanto marcam a obra de Jorge Amado, vão se delinear nesse romance como uma espécie de síntese de tudo aquilo que alimentou a imaginação do escritor, para que suas criaturas árabes se tornassem cada vez mais brasileiras, cada vez mais baianas, no construir de uma identidade continuadamente transformada pelos fatores culturais, nesses deslocamentos das identidades pós-modernas. "A identidade tona-se uma "celebração móvel"; formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam." (HALL, 2006, p. 12-13)
Nessa "celebração móvel", além do desfile de figurantes árabes dessa narrativa, homens e mulheres com ocupações variadas, como o poeta Medauar, o boêmio Fuad Karan, o comerciante Jamil Skaf e sua filha Aruza, o casal de comerciantes Jussara Rabat e Kalil Rabat, o hoteleiro Mamed, o garçom Adib Baruk, as industriosas irmãs Farhat e a jovem Ádma, que chegam a impressionar pela variedade de rostos e caracteres que espelham o imigrante árabe, temos, também a figura cativante e fabulosa do árabe Fadul, para onde se encaminha a ênfase da motivação conflitiva, apesar de o autor ter intencionado contar a versão dos trabalhadores do ciclo do cacau, esquecidos pela versão oficial: Quero descobrir e revelar a face obscura, aquela que foi varrida dos compêndios de história por infame e degradante. (AMADO, 1984, p. 15)
Essa autodenominação, antes mesmo de começar a narrativa, de ser o porta-voz dos esquecidos, resultou, na verdade, num deslocamento do núcleo dramático que é percebido, primeiramente, pela disposição dos aspectos formais, em que o autor desenvolve todo um capítulo-O Deus dos maronitas conduz o mascate Fadul Abdala a um sítio paradisiaco-apenas para descrever, minuciosamente, o personagem Fadul Abdala. Causando, como consequência, a desaceleração da narrativa, posta no começo, salvaguardou o intenso movimento, registrado principalmente durante os conflitos no núcleo original da futura cidade de Irisopólis.
Continuando a análise dos aspectos formais do romance, vamos observar que, dos vinte e três capítulos da obra, cinco são inteiramente centralizados nas ações do personagem Fadul Abdala. Além disso, ele, juntamente com os demais árabes da narrativa, participa, direta ou indiretamente, muitas vezes ativamente, de todas as demais divisões do livro, o que nos permite antever que os pressupostos da objetividade pretendida por Jorge Amado, ao orquestrar esse romance, fora, no mínimo, dividida com a incrível e fascinante história do árabe Fadul Abdala.
Nessa divisão, os episódios vão se sucedendo de maneira favorável a esses imigrantes. Para isso, bastar vermos os predicados com os quais o autor qualifica os personagens árabes, todos eles, configurados sem mácula, sem traços censuráveis, sem pormenores que possibilitem alguma observação que denote arranhar os bons costumes estabelecidos naqueles grupos sociais.
Essa configuração ganha mais ênfase, maior clareza, intensidade e duração, com o personagem Fadul Abdala. Todos os seus gestos, suas palavras, suas ações, seus movimentos são sempre acompanhados de aprovação por parte do narrador, que não se esquece de mostrar o quanto o árabe carrega consigo o protótipo, o modelo de um cidadão exemplar, de um homem ideal.
Daí, o narrador expressar sua aprovação, quando Fadul deseja se amigar com uma prostituta; lembrar a integração religiosa intrínseca à sua personalidade, maronita, recorria sempre às imagens islâmicas, diante de suas angústias; elogiar o árabe, quando este renuncia à fortuna oferecida pela viúva Jussara Rabat, preferindo sua honra e liberdade; informar o quanto ele confiava nas gentes do povo, como a rapariga Coroca, e o quanto prezava a amizade com o negro Abduim; confirmação de que o árabe prefere o prazer ao negócio, o quanto é conciliador, solidário às gentes do povo, como as raparigas do povoado; seu desejo de fundar uma cidade, levado adiante com firmes propósitos; sua gratidão àqueles que lhe ajudaram nos primeiros dias de povoado; sua inteira integração à cultura brasileira, vendo nos sergipanos uma contingência de seus irmãos semitas; sua nomeação como juiz de paz do povoado; seu pendor às festividades do povo; a relativização posta pelo árabe, quando os coronéis procuravam difamar a reputação do povoado; suas reiteradas confirmações de brasilidade; sua liderança nata; por fim, os valores culturais daquele povoado, ditados por Fadul Abdala, permaneceram válidos enquanto ele continuou exercendo o ofício sagrado de guardião da cidade, numa convergência de preceitos benfazejos que chega a alçar a integração árabe-baiana a uma linha categórica de poetização somente vista na imaginação do escritor modernista Jorge Amado. Essa poetização da integração dos árabes à nossa brasilidade continuará no seu próximo e último romance A Descoberta da América pelos Turcos (1994), trama desenvolvida, a partir de alguns núcleos da narrativa Tocaia Grande, especialmente aqueles referentes ao Fadul:
Eram irmãs de Ádma, feia como a necessidade, ruim como o Cão, com quem estivera a pique de casar-se. História dos princípios do arraial, menosprezada na crônica de Tocaia Grande pois os seus lances decorreram em Itabuna; teria sido narrativa curiosa e picaresca com personagens conhecidos tal como Fuad Karam, e com novos figurantes: Adib Barud, o surpreendente garçom do bar, por exemplomas é tarde demais para contá-la. (AMADO, 1984, p. 406-grifos nossos)
Nesse desdobramento, lançaria dez depois de suas lamúrias, uma história composta inteiramente com personagens árabes, a exemplo da obra
Boabdil, de Gonçalves Dias, tendo como eixo norteador a história de Jamil Bichara, espécie de desdobramento do personagem Fadul Abdala, uma forma muito peculiar à narrativa árabe e que tem, em Scheherazade, a expressão maior da força narrativa, despertando, no leitor, um desejo de conhecer os próximos capítulos, o destino dos personagens, o fim das histórias, se é que ele existe.
Nesse processo de entrelaçamento de textos, Jorge Amado finda a feitura de sua obra romanesca, com a publicação de uma história totalmente dedicada a elogiar os imigrantes árabes, funcionando como uma espécie de coroamento de tudo aquilo que fora afirmado por ele, acerca das gentes árabes. Nesse sentido, o próprio autor, em uma longa explicação sobre os motivos pelos quais fora levado à publicação dessa última obra, concluiria seus comentários esclarecedores, afirmando serem os árabes, "brasileiros dos melhores" (1994, p. XVIII).
Por fim, como se observa, a propensão para o social e o político, marcou o tom das narrativas. Nessas obras, permeadas de muitos personagens da Terra das Mil e uma Noites, o árabe quase sempre é colocado ao lado das classes trabalhadoras e desfavorecidas, os quais, untados em um só drama, em um só objetivo, o de dar uma cor cada vez mais acentuada à identidade baiano-brasileira, abrasileirou-se trazendo para o Brasil a arte mágica de comercializar, a fascinante forma de contar histórias, a sua lealdade à pátria, e a sua simpatia com os nacionais, sobretudo, os nacionais, oriundos das classes populares, tão caros ao escritor brasileiro mais lido e traduzido em todo o mundo. Essa é a particularidade árabe de Jorge Amado, primeiramente notada por Slimane Zeghidour, timidamente desenvolvida por Jorge Medauar. Nela reside a força de sua poetização acerca da integração árabe-baiana, até os dias de hoje.
Conflict of Interest
The authors declare no conflict of interest.
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