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Abstract
The aim of this article is to point out the contributions of phenomenology and existential psychoanalysis to the development of an in-depth analysis of psychic dynamics and their relationship with consciousness. In this sense, we will use a classic case from the literature contained in Studies on Hysteria by Sigmund Freud in collaboration with Josef Breuer, the case of Anna O. The return to a classic clinical case has allowed us to rework the relationship between consciousness and the psychic in the light of developments made by phenomenology and existential psychoanalysis. Freud's discoveries, in collaboration with Josef Breuer in the historical context of the 19th century, enabled important advances to be made with regard to psychic dynamism as a qualitatively distinct phenomenon from neurological determinations. Freud thus paved the way for research and clinical intervention in a utterly new sense, linked from then on to the historicity of the subject. Re-analyzing the findings of Anna O.'s clinical case in the light of phenomenology and existential psychoanalysis has allowed us to grasp the dialectical tensions between consciousness and the psychic, which we believe were underdeveloped by Freudianism, and in this way, to recover the important theoretical status of consciousness in the constitution and transformation of the psychic, as well as to postulate a new way of defining the psyche based on the notion of exis psychic. Our aim is, therefore, to develop a dialectical understanding between consciousness and the psychic that recovers the essential role of the contingency of consciousness in the constitution of the psychic, as well as to apprehend in a new way the conditioning role of the psyche and its symptoms in the face of lived experiences.
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Dialectical Tensions between Consciousness and the Psyche: Contributions from Phenomenology and Existential Psychoanalysis
Tensões Dialéticas Entre Consciência e Psíquico: Contribuições da Fenomenologia e da Psicanálise Existencial.
Autor: Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
RESUMO
Palavras-chave: fenomenologia; psicanalise existencial; clínica fenomenológica.
O caso de Anna O. pode ser considerado um marco na história da investigação dos fenômenos psíquicos por duas razões: primeiro, pela descoberta do dinamismo psíquico como algo que transcende os limites da consciência e que se impõe pela força de seus afetos, sob a forma de exis psíquica (Castro, 2012), capaz de constranger o sujeito a paixões que escapam ao domínio de sua vontade. Segundo, pela descoberta, não menos importante, da função incontornável da consciência, enquanto elemento chave na constituição do sentido das experiencias afetivas, bem como, das possibilidades de metamorfose da existência concreta. A análise fenomenológica que se segue do caso de Anna O. visa explorar as tensões entre estes dois aspectos fundamentais.
Anna O. contava 21 anos quando passou a apresentar uma série de sintomas psíquicos relacionados à doença de seu pai, sendo tratada por Josef Breuer de dezembro de 1880 à junho de
1882 que, por sua vez, reconhecia em sua paciente um caso clássico de histeria (Jones, 1989).
Anna O. apresentava características incomuns para uma mulher de sua época. Era alguém de grande vitalidade e inteligência, falava além de sua língua natal, o francês, o inglês e o italiano. Aprendia as coisas com uma impressionante rapidez, segundo o relato de Breuer (Freud, 2020) , possuía dotes poéticos, uma fértil imaginação, era bela e atraente, possuía uma solidariedade para com os pobres e doentes e, ainda, um forte desejo de evadir-se de seu ambiente familiar de mentalidade fortemente conservadora. Tornou-se mais tarde, a primeira assistente social da Alemanha, dirigiu um orfanato para meninas judias, fundou um internato para abrigar meninos carentes, engajou-se na luta contra o tráfico de mulheres, fez viagens a Rússia, Polônia e Romênia, fez intervenções na Société des Nations em Genebra e, quando morreu em 1939, tinha se tornado uma mulher célebre e estimada (Van den Berg, 1980).
Aos seus vinte e um anos de idade, porém, uma das maneiras que Anna O. encontrava para escapar à monotonia e passividade de sua condição de mulher no interior de uma família conservadora e com uma mãe severa, era através da imaginação. Em sua vida cotidiana, ao mesmo tempo que se ocupava com afazeres domésticos, entregava-se sistematicamente a devaneios (ser teatro particular, como dizia) nos quais se imaginava vivendo outra vida. Tal fato apresenta uma importância capital, pois evidencia a maneira singular como vivia e afrontava sua situação, caracterizada por: um desejo constituído pela falta de ter outra vida e de ser outra face às prescrições morais conservadoras de sua situaçãoe, correlativamente, por um pro-jecto (Heidegger, 1989; Sartre, 1996b) constituído por atos irrealizantes , que buscavam no plano do irreal, a possibilidade de satisfação da falta vivida.
Nada de patológico nesse aspecto. Conforme o relato de Josef Breuer (EH,2020), antes da doença de seu pai, Anna O. nunca havia demonstrado os sintomas que passou a apresentar. De sorte que, a unidade formada pelo sujeito, enquanto falta de uma vida futura em negação a vida existente, e pelo pro-jecto enquanto fim fundamental a ser perseguido, encontrava sua forma de realização no plano do irreal. Algo compreensível quando se considera a situação da mulher judia no interior daquela Vienna de fins do século XIX. Uma cidade provinciana, conservadora, com valores aristocráticos, que fazia questão de esconder as diferenças sociais através de uma arte e de uma arquitetura do simulacro e, ainda, com uma forte influência da igreja católica na educação e na orientação espiritual da população (Mezan, 2006). Soma-se a este conservadorismo, o antissemitismo da pequena burguesia e dos partidos cristão e pangermânico que atribuíam aos judeus a culpa pelas dificuldades econômicas (Mezan, 2006). E, por fim, uma cidade de mentalidade vitoriana, o que significa, a presença de uma discriminação sexual violenta contra a mulher e, ao mesmo tempo, de um pudor exagerado conforme os costumes cristãos. Segundo o livro de Jules Michelet, De l'amour, tido como exemplo da mentalidade vitoriana da época, a mulher neste contexto social era um ser fraco, doente, nervoso, vulnerável e sonhador por natureza, enquanto o homem, ao contrário, um ser robusto, são e sexualmente selvagem (Van den Berg, 1980).
Considerando a situação subjetiva, familiar e social-histórica de Anna O. temos, portanto, que o sentido de seu teatro particular (E.H, 2020) não era o de um simples devaneio a que se entregava em função da monotonia de sua existência ou de uma pretensa natureza feminina. Ao contrário, era uma saída existencial encontrada por uma mulher judia de vinte e um anos diante de uma realidade social e familiar extremamente limitante. Em outros termos, o monótono (E.H, 2020) da realidade doméstica e social vivido por Anna O. possuía um caráter negativo: era a falta de possibilidades de ser para uma determinada mulher, dentro do conservadorismo e do antissemitismo daquela Viena de meados do século XIX, objetivados no espaço familiar pelo caráter severo de sua mãe (Jones, 1989). Além disso, seus devaneios (E.H,2020) não se constituíam em uma pura fuga desta realidade limitadora de seu desejo, mas sim uma negação da negação (Sartre, 1960), ou seja, um pro-jecto totalizante que tinha por finalidade ultrapassar monótono de sua situação e satisfazer a falta-de-ser através de atos irrealizantes no plano do imaginário.
No entanto, tal negação da negação confronta-se em determinado momento, com a necessidade de cuidar do pai que adoece gravemente vindo a falecer um ano depois e a quem Anna O. era extremamente afeiçoada. Tal transformação de sua situação sociofamiliar mostra-se, portanto, desencadeadora de uma contradição entre duas tendências antagônicas e codependentes. Por um lado, o medo de perder o pai e de não ser suficientemente atenta às suas necessidades, seguido por forte sentimento de culpa. Por outro, seu desejo-projeto de evadir-se da monotonia familiar e de ter outra vida. Isto significa que sua práxis ao buscar no imaginário a satisfação da falta vivida, confronta-se com uma antítese, qual seja, a forte exigência de cuidado do pai doente, que se impôs como atividade necessária, quer dizer, como futuro-único que obrigava Anna O. a cumprir os deveres da nova situação e renunciar a seu desejo-projeto fundamental.
A força desta contradição começa a manifestar-se sintomaticamente no meio da madrugada do mês de julho de 1880, ou seja, tão logo iniciara a doença de seu pai (EH, p.58). Nesta madrugada o pai da paciente sente uma febre alta acrescida de uma necessidade cirúrgica, conforme o médico da família. Face a esse polo objetivo expresso pela gravidade da situação de saúde paterna e pelo seu risco de vida, corresponde polo subjetivo, constituído pela experiência de Anna O. relativa à gravidade da situação, que se manifesta por sua ansiedade face a febre alta paterna, pela forte tensão em relação ao médico que estava por chegar e, ainda, pelos riscos da cirurgia a fazer.
A partir dessa nova configuração de sua situação, constituída essencialmente, pela unidade sujeito emocionado (a paciente Anna O.) face a situação emocionadora (febre alta, cirurgia paterna, risco de vida), torna-se compreensível o sentido da experiência vivida pela paciente quando se encontrava sozinha diante do pai, sentada à cabeceira de seu leito. Anna O. vive neste momento, uma experiência imaginante caracterizada pela consciência intencional (Sartre, 1996b) de uma cobra que se dirigia a seu pai como se fosse mordê-lo. A presença da cobra em imagem e a ameaça de morte que esta representa, constituem o objeto emocionador (Sartre, 1995) e o sentido da emoção vivida por Anna O. Correlativamente, seguindo o caminho da descrição fenomenológica (Husserl, 1986), podemos observar que o polo noético caracteriza-se pela certeza da experiência imaginária, certeza esta vivida a partir da totalidade de seu corpo presenciando o perigo e paralisando por inteiro. Anna O. não consegue mover-se e seu braço fica dormente e insensível. Na sequência, logo após o desaparecimento do objeto em imagem que a perturba [a cobra], a paciente mostra-se aterrorizada com o que lhe havia acontecido. O relato fornecido por Josef Breuer nos permite, por hipótese, afirmar que o terror da paciente se caracteriza pela consciência [reflexiva] de si (Sartre, 1996b) que apreende sua experiência pré-reflexiva imaginante. Seu estado de terror, portanto, mostra-se neste momento seguinte, por um lado, formado pela consciência de si mesma vivendo o descontrole emocional paralisante de seu corpo e, por outro, pelo desespero de não conseguir compreender o que tinha lhe acontecido.
A esse primeiro acontecimento, sucederam-se outros que foram constituindo, pouco a pouco, a situação contraditória entre o desejo-projeto vivido e a força dos imperativos sociais e morais sob os quais se encontrava. Em um momento seguinte o pai de Anna O. lhe pergunta as horas e ela não consegue responder, pois não enxerga com nitidez devido a uma crise de choro. Numa outra situação, quando se encontrava sentada à cabeceira da cama do pai doente, ouve uma música vindo do vizinho e sente o desejo de evadir-se para onde vinha a música. Noutra, Anna O. encontra-se absorvida em seus devaneios não percebendo o pai que entrara no cômodo e outra ainda, na qual Anna O. não ouve o pai a pedir-lhe uma taça de vinho ou a reclamar de um ataque de sufocação. Em todos estes acontecimentos observa-se uma totalização de suas experiências (Castro, 2012) que se opera pouco a pouco: na situação face a cobra imaginária Anna O. tenta socorrer o pai e não consegue; quando este lhe pergunta as horas e ela não percebe por estar absorvida em seus devaneios, realiza uma consciência de si como sendo alguém negligente e culpada. O mesmo ocorre quando deseja estar junto à musica vinda do vizinho, condenando com veemência seu desejo de evasão.
De sorte que, a "incubação latente de sua histeria" (E.H, p.58), evidencia uma tensão dialética entre consciência e psíquico: Por um lado, encontramos a consciência desejante e projetante buscando evadir-se da condição feminina limitante e, por outro, a totalização como negligente e culpada em função da necessidade de assistir e cuidar do pai doente. A cada momento em que Anna O. experimenta a falta de ter outra vida e projeta-se em direção ao irreal com forma de satisfazer seu desejo, sofre com a consciência [de si] de estar sendo negligente por não assistir ao pai doente. O desejo, enquanto experiência pré-reflexiva (Sartre, 1996b) daquilo que falta e, correlativamente, o pro-jecto como direção futura, passam a ser apropriados por Anna O. como algo mau, próprios de um ser negligente. Ou seja, a consciência reflexiva que a paciente realiza em relação às suas experiências pré-reflexivas caracteriza-se por um ato condenatório de seu desejo-projeto, capaz de objetivar para si um ser mau e negligente como síntese de suas experiências passadas. Dessa maneira, a consciência reflexiva de Anna O., ao voltar-se sobre suas próprias experiências pré-reflexivas vividas, apresenta-se como consciência constituinte de uma exis psíquica (Castro, 2012), ou seja, um ato intencional que resulta na objetivação de um ser determinado . Neste sentido, o ato reflexivo realizado pela paciente de Josef Breuer caracteriza-se por um momento no qual, seu movimento no mundo constituído por um desejo-projeto de evasão, objetifica-se para si como ser mau e negligente, adquirindo a forma de uma contrafinalidade inerte (Castro, 2012). Tal processo, resultante da dialética entre sucessivos atos da consciência reflexiva sobre as experiências pré-reflexivas adquire, nesse sentido, o status de um ser mau e negligente como síntese do passado e do futuro que passa a exercer a força de sua contrafinalidade sob a forma de exis psíquica.
Tal exis psíquica mostra-se dessa maneira como o resultado de uma dialética entre a consciência como atividade concreta e intencional e a objetivação da exis psíquica que retorna à paciente e impõe-se como ser dado, ou seja, como totalidade que Anna O. é sob a forma psíquica. Ao consideramos as formulações de Sartre (1960) sobre o prático-inerte, podemos defini-lo como objetivação no mundo da práxis que se volta contra si sob a forma de contrafinalidade, ou seja, como objetivação de uma atividade prática no mundo concreto que, por sua vez, passa a impor à existência singular suas exigências e determinações, ou ainda, o peso de seu ser. Tal é a noção sartriana de matéria trabalhada (Münster, 2008), como objetivação da subjetividade e, ao mesmo tempo, retorno sobre o sujeito sob a forma de determinação da vida social e material a impor-se sobre as possibilidades de existência Um grupo de trabalhadores, por exemplo, que rompe com a passividade e passa a lutar contra o aumento do custo de vida, do desemprego e da injustiça social, precisa em determinado momento, estabelecer certas regras, funções, tarefas coletivas, ou seja, precisa instituir uma forma de organização social interna para continuar a enfrentar os desafios de sua luta. De sorte que, nesse momento, o grupo, enquanto práxis coletiva e combatente (Sartre, 1960), ao romper com a impotência e a passividade serial, vê-se na necessidade de instituir sua própria estrutura, ou seja, objetivar como resultado da práxis comum, um campo prático-inerte que, por sua vez, determinará para cada um, certos limites e possibilidades da ação concreta. Podemos, nesse caso, considerar que, a práxis comum do grupo de combate produz em um determinado momento de seu processo uma exis social que passa a condicionar a vida do grupo internamente. É, portanto, na dialética permanente entre práxis e exis que compreendemos tanto as transformações sociais, bem como, a burocratização das estruturas que tornam a colocar os sujeitos subordinados às estruturas sociais e materiais constituídas.
De maneira análoga, a consciência singular ao voltar-se sobre si mesma, objetiva-se como exis psíquica. Anna O., através de sua consciência reflexiva [de si] apropria-se de suas experiencias desejantes de evadir-se da monotonia familiar e objetiva-se como sendo má e negligente, nos termos de uma inércia psíquica que exercerá sua contrafinalidade a consciência, determinando seus modos de ser e estar no mundo. Josef Breuer (E.H, 2020), nesse sentido, relata modificações de humor rápidas, que de súbito levam a paciente a uma profunda angústia, a queixar-se de uma escuridão na cabeça, a não conseguir pensar, a ficar cega e surda e a ter a experiência de um eu mau que a forçava a comportar-se de determinada maneira. Nestes momentos, Anna O. alucina, mostra-se teimosa, indolente, rabugenta, desagradável, agressiva e as pessoas ao seu redor se parecem a figuras de cera, sem qualquer ligação afetiva com a paciente, e tudo isso, em contraposição à experiência de seu eu real (E.H, 2020) vivido quando se comportava nos limites da normalidade estabelecida. A força da contrafinalidade da exis psíquica constituída faz Anna O. sentir-se "invadida por seu eu mau"
(E.H, p.59), o que evidencia a experiência de contrafinalidade da exis psíquica como antítese de sua consciência desejante-projetante, que a fazia padecer seu ser a partir de uma série de comportamentos e afetos que se automatizam.
Por outro lado, a exis psíquica constituída pelo ser mau e negligente caracteriza-se como ser negativo, na medida em que, torna-se parte de um projeto totalizante mais amplo de má-fé (Sartre, 1996a), origem, por sua vez, da cisão vivida pela paciente entre seu eu mau e negligente e seu eu real e bom. Encontramo-nos aqui, diante de um duplo movimento: a exis psíquica é tanto um produto da consciência intencional e reflexiva que unifica uma série de experiencias pré-reflexivas dando a essa unificação a consistência de um ser mau, como também, revela-se como antítese de um eu real e verdadeiro, conectado ao projeto de ser de uma filha cuidadora e solidária com a doença de seu pai. Tal projeto totalizante de má-fé difere essencialmente da mentira (Sartre, 1996b) na medida em que, esta implica a tríade formada pelo sujeito que engana, pelo o outro que é enganado e por um terceiro elemento, o objeto da mentira. Mentir, nesse sentido, é esconder algo verdadeiro de algum outro. Diferentemente, as condutas de má-fé caracterizam-se pela tentativa de esconder algo verdadeiro de si mesmo. Existe uma verdade em termos existenciais, relativa ao fato de Anna O. ter desejado-projetado evadir-se da situação familiar enquanto cuidava do pai. Existe, ainda, a verdade também existencial, no fato de seu desejo-projeto ter sofrido uma alteração profunda ao ser apropriado pela consciência reflexiva e constituído a exis psíquica, vivida por Anna O. como experiência de ser má e negligente. Logo, o projeto totalizante de má-fé consiste, na negação-repressão para si mesma destas verdades existenciais da experiência íntima e, ao mesmo tempo, na afirmação de outro ser como verdadeiro, real e bom. Um projeto, portanto, em que o sujeito busca dissimular a verdade a respeito de si mesmo, projetando-se em direção a um ideal constituído em termos de dever-ser moral (Sartre,1996b). A paciente de Josef Breuer busca nesse sentido, invalidar a verdade vivida de ser má e negligente como algo próprio de si mesma, ao apegar-se a um ideal de ser-filha conforme as exigências e necessidades de seu contexto social e familiar e suas estruturas imperativas capazes de definir os destinos de sua existência.
Tal processo, no entanto, é gerador de duas experiencias contraditórias, capazes de conduzir Anna O. a um impasse, como essência da exis psíquica constituída. Por um lado, possui a certeza de ser má e negligente, vivida através da contrafinalidade da exis psíquica. Por outro, Anna O. lança-se para um projeto de dissimulação, constituído pelo esforço prático de acreditar que seu único eu real e verdadeiro é o de ser boa filha em conexão com as estruturas morais de sua situação. Ocorre que, tal projeto totalizante implica um esforço constante por parte daquele que o pratica de convencer-se da própria dissimulação, conduzindo o sujeito ao aprofundamento do sofrimento vivido. Ou seja, o esforço da paciente de convencer-se que não é o que é ["não é seu projeto desejado de evadir-se" e "não é a filha má e negligente"] implica certa consciência das verdades que busca dissimular, própria de um esforço ininterrupto de convencer-se que seu único e verdadeiro "eu" não é mau mas bom.
Está, portanto, formado o impasse nos termos de uma contradição não-dialetizável (Legrand,1993). Quer dizer, a exis psíquica, por um lado, afirma sua força afetiva como contrafinalidade, levando Anna O. a experiência de ser má, que inclui suas alucinações, teimosias, indolências, agressividade e total isolamento para com as pessoas ao seu redor. Por outro, seu projeto de má-fé, busca dissimular de si mesma tal verdade existencial e apoiar-se num ideal de boa filha. Esse duplo movimento conduz a paciente a um esforço contínuo e renovado de manter seu pro-jecto, ou seja, de convencer-se que seu eu real é ser boa filha e solidária com seu pai, enquanto que seu eu mau, nos termos de sua exis psíquica constituída, não faria parte de si mesma.
O impasse, portanto, enquanto contradição não-dialetizável, aparece como fruto de um projeto totalizante de má-fé que se aprisiona em duas possibilidades mutuamente excludentes e, ao mesmo tempo, complementares. Anna O., segundo o relato de Josef Breuer, mantinha enquanto vivia seus delírios, alucinações e demais experiências de ser má e negligente, "a persistência de um pensamento claro" como se "um observador estivesse sentado num canto de seu cérebro a contemplar sua loucura" (E.H, p.78). Ou seja, a contrafinalidade da exis psíquica não se caracteriza por uma experiência totalmente inconsciente de si, nem tampouco, seu projeto de negação em direção ao pretenso eu real e verdadeiro mostra-se algo voluntário e planejado. Seus gestos e experiencias não são calculados nem resultam de uma atitude voluntária e a exis psíquica constituída não se apresenta como uma totalidade diretamente acessível a uma consciência lúcida em relação ao impasse vivido. A contrário, a exis psíquica é vivida como tal enquanto consciência cativa (Sartre, 1996) do ser psíquico a impor sua contrafinalidade, e como tentativa de negação do mesmo, pelo projeto totalizante de má-fé que crê nos fins projetados de ser boa, buscando dessa forma, identificar-se com o dever-ser moral estabelecido. Encontramos neste nível da experiência, o caráter cativo e crente da consciência as suas determinações, que fornece uma chave compreensiva à contradição não-dialétizável, ao revelar a metamorfose da alienação social em autoalienação psíquica.
Portanto, a experiência de "duplo eu" (E.H, 2020), um real e adaptado e outro mau e negligente, configura-se como expressão de uma contradição não-dialetizável totalizada por um projeto de má-fé que unifica uma situação insustentável e sem saída. Por um lado, Anna O. vive seu ser mau como unificação das experiências desejáveis que se objetivavam em termos de culpa e negligência na forma de contrafinalidade da exis psíquica. Por outro, vive o eu real formado por um projeto totalizante de má-fé enquanto negação da exis psíquica constituída, em direção a um ideal de seriedade (Sartre, 1996b) adaptado as necessidades da situação social e familiar. O caráter não-dialetizável desta contradição portanto, aparece justamente na maneira como está formada a unidade contraditória que a constitui. Para manter a crença em um eu real a paciente precisa dissimular de si mesma a verdade vivida de sua exis psíquica. Porém, quanto mais realiza o esforço de dissimulação, mais fortalece a contrafinalidade da exis psíquica como verdade dissimulada. Em suma, a maneira como a unidade contraditória entre seus dois eus está formada, faz com que a existência de um seja a base para a existência do outro. O eu real, encontra suas bases na dissimulação do eu mau formado pelas experiências de culpa e negligência, enquanto o eu mau constitui-se como ser negado que necessita de um pro-jecto de má-fé que o dissimule e, ao mesmo tempo, o conserve através da crença no ideal de seriedade.
Podemos dizer assim, que o impasse entre os dois eus mostra-se uma saída encontrada por Anna O. para uma situação de tensão vivida diante de uma modificação do mundo em que se encontra. Um pro-jecto que inventa uma saída de má-fé diante da contradição entre seu desejo-projeto de ter outra vida e evadir-se da monotonia familiar e a dura realidade que se impõe com a doença paterna que, por sua vez, exige da paciente um futuro necessário de forma imperativa. Tal tensão na unidade eu-mundo exige uma saída na medida em que a doença paterna avança, bem como, na medida em que se multiplicam as experiências de culpa e negligência. A totalização da exis psíquica mostra-se, portanto, uma forma específica de resolver a tensão por intermédio de um pro-jecto de má-fé que se torna cativo e crente dos componentes da situação que se encontra. Uma totalização (Sartre, 1960) capaz de conduzir Anna O. ao impasse como essência de sua neurose, ou seja, a uma contradição não-dialétizável entre a exis psíquica e o ideal de dissimulação que co-existem em sua existência concreta sob a forma de impossibilidade de superação e portanto, como aprofundamento do seu conjunto de sintomas e sofrimentos.
Como afirmamos ao início deste artigo, o caso de Anna O. pode ser considerado um marco na história da investigação psicológica pela descoberta também da consciência significante, como dimensão da existência concreta a dar sentido as suas experiências, bem como, responsável pelas possibilidades de transformação de si mesmo. É importante considerar que não nos interessamos aqui em discutir a cura de Anna
O. Nosso objetivo é indicar as contribuições da fenomenologia e da psicanálise existencial para o desenvolvimento de uma análise em profundidade da dinâmica psíquica bem como de suas relações com a consciência. Nesse sentido, analisaremos a sequência de experiências de compreensão (Laing, 1982) vividas pela paciente, que se iniciam com sua impossibilidade de beber água (E.H, 2020)
Apesar de ser uma época de calor intenso, Anna O. sentia uma forte repulsão nos momentos em que tentava beber um copo d'água, a ponto de não conseguir saciar-se e ver-se obrigada a matar sua sede comendo frutas. Em certa sessão terapêutica, descreve a Josef Breuer o fato desencadeador deste sintoma. Anna O. relata que, certa vez, havia entrado no quarto de sua dama de companhia e presenciado seu cão bebendo água em um copo que depois foi bebido pela dama, o que, por sua vez, a afetou profundamente, provocando uma enorme sensação de nojo e repulsão, bem como, uma forte cólera que buscou conter como forma de manter sua cordialidade. Anna O. não somente descreve a Josef Breuer a cena geradora de sua impossibilidade psíquica de beber, mas, ao fazê-lo, revive a emoção sentida no momento. Conforme relata Breuer, depois de haver descrito a experiência que tinha ocasionado o sintoma, este desaparecera. A "cura pela fala" (E.H, p.69), conforme expressão de Josef Breuer, pode ser compreendida, do ponto de vista da fenomenologia e da psicanálise existencial, como um ato de compreensão da existência face a situação vivida e desencadeadora do sintoma em questão (Castro, 2012). A fim de continuar nossa análise fenomenológica das possibilidades de metamorfose da existência concreta, convém aqui abordar a noção de compreensão.
Compreender implica adotar uma consciência reflexiva (Sartre, 1996b) a respeito de sua própria situação. Podemos falar, por exemplo, de uma compreensão geográfica a partir de um mapa que olho na rua quando estou perdido. Através da observação do mapa compreendo onde eu estou, me situo no mundo em tal lugar, longe ou perto de tal endereço ou de tais pessoas, a certa distância do ponto de ônibus que pode me conduzir de volta à minha casa, etc. Compreender, portanto, implica uma consciência reflexiva de mim mesmo situado no espaço social-urbano em que me encontro e que, por sua vez, transforma minha experiência de estar-perdido no meio da cidade em uma atividade orientada. A especificidade, no entanto, da compreensão vivida por Anna O., é de que ao invés desta ser geográfica, ela realiza-se sobre sua exis psíquica constituída.
Para entender a compreensão vivida e realizada por Anna O., faz-se necessário considerar dois modos da consciência apreender suas próprias experiências pré-reflexivas em relação ao mundo. Podemos falar, conforme Sartre (1996), de uma consciência reflexiva impura e cúmplice e outra, purificadora (Castro & Ehrlich, 2016). Quando Anna O. entra no quarto de sua dama de companhia e presencia o cão e, em seguida, a dama de companhia a beber no mesmo copo, toma como objeto de sua consciência a experiência imediata de repulsão vivida, realizando, por este ato, uma consciência-de-serquem-tem-nojo-do-copo-d'água. Tal consciência reflexiva [de si] realizada por Anna O. extrapola os limites da experiência momentânea de repulsão, fazendo com que objeto [o copo d'água] e sujeito [Anna O.] unifiquem-se em uma nova síntese. Sua consciência reflexiva [de si] não se contém em simplesmente ser consciência de sua própria repulsão pelo cachorro e pela dama de companhia bebendo água em um mesmo copo. Anna O. realiza, nesse sentido, uma passagem da experiência imediata de repulsão à constituição de uma exis psíquica na qual apreende-se como sendo-alguém-que-tem-nojo que compromete seu passado e seu futuro. Ao mesmo tempo, ocorre uma transformação do sentido do objeto copo d'água que, de algo possível de matar a sede transforma-se em algo nojento. Desta forma, objeto e sujeito unem-se através de uma nova síntese: ao invés do objeto 'copo d'agua' ser algo bebível para o desejo de Anna O. de saciar sua sede, este passa a ser algo nojento com a paciente transformando-se em alguém que tem nojo. Observa-se neste caso, a força realizante da consciência reflexiva impura ao apropriar-se da experiência pré-reflexiva de repulsão. Além deste ato da consciência reflexiva impura que unifica de forma totalmente nova o sujeito Anna O. ao objeto copo d'água, a continuidade da situação revela-se permeada por novos atos de consciência que se fazem cúmplices (Sartre, 1996) com a exis psíquica constituída. Ou seja, uma vez constituída a nova unidade ser que tem nojo-objeto nojento, a paciente passa a adotar face a si mesma uma atitude cúmplice que se restringe a aceitar a exis psíquica como um ser dado, ou seja, a assumir-se sendo quem tem nojo no passado e no futuro.
De uma maneira diferente, quando Anna O. recupera a situação em sessão terapêutica com Josef Breuer e descreve a cena que desencadeou sua impossibilidade de beber, encontramos uma consciência reflexiva purificadora (Sartre,1996b; Castro & Ehrlich, 2016), capaz de levá-la à compreensão face à situação geradora de seu sintoma e a uma possibilidade de metamorfose de sua relação com o objeto. Ao descrever o acontecimento para Josef Breuer, Anna O. recupera e revive o momento de sua relação com o copo d'água no qual este havia se transformado de um objeto bebível em algo nojento, bem como, o momento em que ela transformou uma fugaz experiência pré-reflexiva de nojo em exis psíquica. A consciência reflexiva purificadora realizada por Anna O. recupera a experiência pré-reflexiva e imediata de repulsão em presença do copo d'água e o sentido dado por ela a tal objeto e a si mesma. Ao recuperar sua experiência pré-reflexiva, a paciente chega a uma intuição (Husserl, 1986) de si mesma como tendo vivido apenas um momento de repulsão diante de um copo d'água específico que estava sendo bebido pelo cachorro e pela dama de companhia, ou seja, recupera o nojo não como manifestação de uma exis psíquica constituída, mas como pura experiência imediata de repulsão diante de algo nojento. Ao mesmo tempo, tal consciência purificadora ao recuperar a verdade vivida no plano pré-reflexivo, produz uma nova negação em relação a exis psíquica constituída pela reflexão impura e cúmplice e ao sentido dado ao objeto como algo essencialmente nojento. É como se Anna O. dissesse a si mesma que sua experiência imediata de repulsão não a fazia necessariamente alguém que não suportava beber e, nem tampouco, fazia do objeto algo essencialmente nojento. Ou seja, compreende a si mesma como tendo vivido um simples momento de repulsão em função de uma situação específica na qual tal objeto aparece a ela como nojento. Em suma, des-essencializa sua relação com o objeto, abrindo outros possíveis para si mesma.
Nesse sentido, as possibilidades de realização de uma consciência reflexiva purificadora dependem da recuperação pela consciência em sua situação, ou seja, do fato de Anna O. haver recuperado seu ato significante dentro da situação em que viveu o nojo por tal objeto. Faz-se importante considerar neste nível, a importância crucial da descrição fenomenológica (Castro, 2019) do acontecimento desencadeador do sintoma, enquanto trabalho clínico sobre os componentes concretos da situação real e vivida e sobre a maneira como o sujeito projeta-se a partir desta. Ao recuperar em sessão psicoterapêutica tal acontecimento desencadeador de seu sintoma, Anna O. presentifica o passado [certo dia específico em que entrou no quarto de sua dama de companhia e viveu tal experiência de repulsão], o lugar em que se encontrava [no quarto de sua dama de companhia], o outro com que compartilha a situação [a dama de companhia com quem não simpatizava] e os objetos de seu entorno [no caso, o copo d'água sendo bebido pelo cão e pela dama de companhia]. A consciência purificadora presentifica também, além deste conjunto de elementos da sua situação, aquilo que foi vivido por si mesma [a repulsão pelo copo d'água] e, ainda, a forma singular como significou a experiência pré-reflexiva vivida [o nojo]. Tal recuperação da existência concreta em situação, enquanto condição de possibilidade para a realização da consciência reflexiva purificadora, permite a Anna O. uma compreensão daquilo que lhe aconteceu, na forma de um ato sintetizante capaz de [re]unificar a situação, o sentido constituído e o sintoma produzido a partir de um novo horizonte de possíveis que se instaura. É possível concluir a partir desta análise preliminar, que a compreensão mostra-se capaz de não somente [re]sentir o processo de constituição da exis psíquica, mas também de instaurar um novo processo temporal à existência de Anna O. no qual o nojo [passado] deixa de orientar os destinos [futuros] de seu presente. A compreensão, portanto, de Anna O, restrita aqui para fins de nossa análise, ao seu sintoma de não conseguir beber água, revela-se, portanto, como uma consciência reflexiva purificadora que, resgatando a experiência pré-reflexiva vivida em situação, conduz à apreensão sintética do que foi vivido e àquilo que a paciente fez de si mesma. Compreensão esta, que conduz à paciente de Josef Breuer a uma nova projeção de si (Sartre, 1960), no sentido prático de transformação de suas possibilidades de ser e de agir no mundo. Como sustenta Sartre (1960, p.105) "compreender é modificar-se".
O mesmo processo é válido para os demais sintomas que foram objeto de trabalho psicoterapêutico, conforme Anna O. recuperava com Josef Breuer os acontecimentos que os haviam desencadeado. O seu braço paralisado (E.H, p.71) foi compreendido como um braço que paralisou na situação em que se encontrava muito angustiada diante da cabeceira de seu pai que sofria com febre alta e estava prestes a ser operado. A sua tosse nervosa foi compreendida como uma tosse produzida no momento em que reprimiu seu desejo de dançar e culpabilizou-se fortemente por isso. Enfim, a cada sintoma que Josef Breuer passou a aplicar seu método, produz-se uma nova compreensão de si de Anna O. face ao acontecimento gerador do mesmo, desencadeando novas formas de projetar-se para o mundo que unificam consciência e exis psíquica a um novo campo de possíveis. Nos encontramos neste nível do processo vivido, face à metamorfose de uma contradição não-dialetizável para uma nova ordem de contradições agora dialetizáveis, ou seja, capazes de negar o impasse constituído e possibilitar um futuro aberto ao presente que até então inexistia.
A compreensão da existência em sua situação conduz Anna O. à retotalização (Sartre, 1960) de seu projecto de má-fé, na medida em que, a consciência purificadora em sua situação, alcança a experiência pré-reflexiva naquilo que ela é ou foi e naquilo que ela pode vir-a-ser e ainda-não-é. A consciência purificadora revela-se, portanto, um ato da existência para-si que recupera a verdade da experiência pré-reflexiva, nega a exis psíquica constituída pelo projeto de má-fé e, desta forma, retoma a capacidade de temporalização e historicização perdidas. O acontecimento passado, gerador do sintoma, é assim objetivado e compreendido como algo contingente e não como algo necessário, como algo vivido e não mais essencialmente determinante, permitindo um novo campo de possíveis à existência concreta.
A análise fenomenológica do caso de Anna O. nos permitiu apreender duas importantes descobertas para o domínio das relações entre consciência e psíquico. Por um lado, aquela referente à existência da exis psíquica, como transcendendo os limites da consciência, e capaz de impor a esta a força de sua contrafinalidade. Uma importante contribuição da fenomenologia e da psicanálise existencial, neste sentido, permitiu revelar o psíquico como produto de um projeto de má-fé que retorna sua inercia contra a consciência e a totaliza. A força da contrafinalidade da exis psíquica possui desta forma, como outra face essencial o pro-jecto totalizante, próprio de uma sociedade alienante (Castro, 2020) que retira das existências concretas a consciência da própria contingencia, restando alternativas limitadas, que aprisionam a liberdade à inercia. Logo, o projeto de má-fé enquanto atividade temporal e subjetiva, objetiva-se e automatiza-se como exis psíquica que retorna à consciência fazendo-se cativa do impasse em que se aprisiona. A consciência impura e cúmplice de Anna O. significa as diversas experiências de desejo-projeto de ter outra vida como partes de um eu mau, totalizadas por um projeto de ma-fé em prol de um eu real, constituindo assim o impasse como contradição não-dialetizável, essência de sua neurose. De sorte que, a exis psíquica ao ser totalizada por um projeto de má-fé, objetiva-se na tensão contraditória entre dois eus, que adquirem a força de um objeto inerte, capaz de comprometer passado, presente e futuro num automatismo temporal autoprodutor de si mesmo, limitando as possibilidades da consciência em projetar novas possibilidades de ser.
Por outro lado, nossa análise também permitiu colocar em evidência outro aspecto que nos parece essencial, qual seja, a existência de uma consciência purificadora capaz de recuperar sua contingencia, negar a exis psíquica constituída e dar-se novos possíveis existenciais, ultrapassando os limites do projeto de má-fé em que se realizava. A capacidade de Anna O. voltar-se sobre si mesma, compreender a ligação entre a contingência de suas experiencias pré-reflexivas, a exis psíquica constituída por um projeto de má-fé, evidencia as possibilidades de metamorfoses da estrutura psíquica constituída e as potencialidades do sujeito.
A tarefa, portanto, que se impõe a uma teoria do psíquico bem como, a uma clínica psicanalítica, é integrar dialeticamente o caráter contingente e significante da consciência ao caráter inerte da estrutura psíquica e assim transpor tanto as limitações de uma psicologia existencial que desconsidera em nome da liberdade, o automatismo psíquico constituído, como também, as limitações do obscurantismo estruturalista (Fougeyrollas, 1983) que relega à consciência um papel insignificante. Os desafios que se colocam a partir destas considerações portanto, são compreender e adentrar cada vez mais em profundidade os nexos e as tensões entre a consciência na sua busca contingente de projetar seus próprios fins e as determinações das contrafinalidades alienantes que tendem a despossuir a existência de seu caráter de sujeito. Novas possibilidades práticas e teóricas se desvelam, desta maneira, como um promissor campo de pesquisa.
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