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− Abstract
Como um poeta desengavetado, esse artigo nasceu em 2012, elaborado para a disciplina de Língua Portuguesa VI, quando eu ainda era estudante. Mas, ganhou novos contextos após a pandemia. A ideia de construí-lo surgiu a partir das discussões em sala a respeito dos gêneros textuais, dentre os quais escolhi a poesia “infantil” para ser meu objeto de reflexão. O objetivo foi mostrar a beleza das poesias infantis da autora Roseana Murray, destacando o meu interesse em convocar os adultos a se incluírem nesse mundo, de que um dia eles fizeram parte. Há também um destaque para a memória, mencionada aqui como uma aliada no diálogo com esses adultos. Além de mostrar como a poesia é importante no redescobrir da educação após o período pandêmico.
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# INTRODUÇAO
A poesia dita infantil, por estar voltada para temáticas comuns nessa fase, percorreu um caminho muito difícil até chegar aos moldes que conhecemos na atualidade, já que, até meados da década de 60, este gênero servia como arma nas mos de quem escrevia como forma de disciplinar as crianças, ensinando-as a exaltar a pátria, respeitar o país, as leis cívicas e seus pais. Hoje, a criança tem certa liberdade em criar, pensar e viver seu mundo imaginário, mas através de poemas escritos por adultos. Este mundo infantil é escriturado, fazendo parte do imaginário adulto. Este é um dos aspectos sobre os quais $\textsf { e }$ necessário refletirmos, pois quem escrever para adultos deve ter muitos cuidados e perspicácia na forma de passar informaçes, ao construir suas ideias, intercalar os assuntos, entre outros aspectos que, se prestarmos bem atenção, no se deve comparar à sutileza daqueles que escrevem para crianças.
Portanto, o objetivo deste trabalho foi, então, fazer uma breve abordagem sobre a trajetória, digamos assim, da poesia infantil no Brasil, desde as décadas de 50 e 60, em que a poesia infantil era produzida como meio de disciplinar as crianças, até passar por escritores que se dedicavam em transcrever as belezas e sensaçöes presentes na essência infantil, essência esta muitas vezes esquecida pelos adultos após deixarem de ser crianças.
Este artigo está dividido em cinco breves partes. Na primeira, apresento a poesia infantil como um dos diversos gêneros textuais existentes citando grandes nomes, a exemplo de Bakhtin(2000) e Marcuschi(2002). Na segunda, trato da evolução dela ao longo do tempo e para quem estar destinada. A terceira parte consta da minha posição a respeito do papel que a memória exerce na reativação/ressignificação do que chamo de essência infantil no adulto. Em quarto, trago exemplo de uma experiência que tive ao aplicar uma oficina da qual o páblico alvo não eram crianças, e sim, adultos compartilhando a leitura de poemas infantis de Roseana Murray e suas memórias de quando estes eram criança. E, por fim, trago um capítulo inteiro dedicado ao papel que a poesia exerce no processo de redescobrir a educação após o período da pandemia, já que, ela assume um papel de destaque no que diz respeito ao aluno redescobrir o caminho da escrita.
Dessa maneira, no devemos esquecer que essas crianças e adolescentes da realidade pós-pandêmica, serão adultos muito em breve. Sendo assim, devemos resgatar ou quem sabe, ressignificar a essência literária presente nos estudantes da atualidade, caso contrário, a geração futura se tornará em adultos rasos e até mesmo insensíveis ao que segundo Saint-Exupéry (2008, p. 80), “o essencial é invisível aos olhos, só se vê com o coração”.
# POESIA INFANTIL: UM GÊNERO SUBLIME
Dentre os inúmeros gêneros textuais existentes em nosso meio de comunicação, a poesia mais especificamente a infantil, possui uma atração diferenciada. Na minha singela opinião, suas formas, conteúdos, e principalmente; a interação: autor-textoleitor, são sublimes. Para compreender um pouco sobre a produção do gênero poesia, é necessário saber que ela é um recorte, ou melhor, um fragmento da imensa diversidade de gênero. Segundo Bakhtin: “Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso.” (BAKHTIN, 2000, p. 279). Dessa forma, a poesia faz parte da esfera escrita dos gêneros literários, que se vista isolada, assim como os outros gêneros, alguns citados a seguir, possui características próprias.
O que Bakhtin afirma $\acute { \mathrm { e } }$ que cada gênero, seja ele uma carta, diário, romance, bilhete, nesse caso, a poesia, soma tipos relativamente estáveis de características que os individualiza, tornando-os membros sedimentados de um “corpo”. No entanto, essa relativa estabilidade dá autonomia a cada enunciado, fazendo com que cada um desses elementos citados acima, seja considerado por Bakhtin gênero do discurso, porém, prefiro chamar de gêneros textuais, assim como Luiz Antônio Marcuschi.
A noção de texto e discurso $\acute { \mathrm { e } }$ bastante questionada, e muitos estudiosos têm 0 cuidado de não confundi-los. Para Marcuschi: “Texto é uma entidade concreta realizada materialmente e corporificada em algum gnero textual. Discurso $\textsf { e }$ aquilo que um texto produz ao se manifestar em alguma instância discursiva. Assim, o discurso se realiza nos textos” (MARCUSCHI, 2002, p. 24).
Portanto, os poemas são textos corporificados no gnero poesia, e recebem voz ao serem recitados, discutidos e degustados pelos seus leitores. Como havia dito logo no início do artigo, a interação autor-texto-leitor é que faz esse e outros gêneros ganharem vida. Por trás da simples leitura de um poema, há inúmeras informaçöes que 0 consolidam, algumas delas são: a interação do autor; os elementos, forma, conteúdo, público que deseja atingir; o texto em si, com toda sua carga de significados e a postura assumida pelo leitor em dar sentido ao que le.
As autoras Ingedore Villaça Koch e Vanda Maria Elias, no livro “Ler e compreender: os sentidos do texto”, trabalham com diversas questöes que envolvem no só os gêneros, mas também a posição do autor; o criador de textos, questes estas que se encaixam em determinados gêneros e a visão do leitor, de como este recebe e interage com as informaçöes presentes no gênero alvo de sua escolha e simpatia.
Cada gênero tem um modo de composição (estruturação, esquematização) que lhes são próprios: a poesia estrutura-se em estrofes e versos, com ou sem rimas. No que diz respeito ao ponto de vista do conteúdo temático, na poesia predomina a expressão dos sentimentos do sujeito, sujeito esse que fala de si, dando vazão à emoção, constituindo-se, preponderantemente, na primeira pessoa. Quanto ao estilo, há a expressão máxima do trabalho do autor nas escolhas realizadas para a constituição do dizer (KOCH; ELIAS, 2006, p. 109110), a exemplo da seleção lexical, da preferência por estruturas sintáticas específicas.
# POESIA INFANTIL: QUAIS ALVOS A SEREM ATINGIDOS?
Em se tratando da poesia infantil, sua evolução é nítida quando comparada a sua intenção social, carga de valores, maneira de dizer, anseio de desenvolver um senso crítico-criador nas crianças, nesse caso o público alvo, levando em consideração a linha cronológica; da década de 60 até a contemporaneidade. Porém, o objetivo aqui $\acute { \mathrm { e } }$ mais desafiador, pois o desejo central não é direcionar a poesia infantil para os seus principais leitores, e sim, direcioná-la a um público que, devido à distância temporal existente entre a criança e o adulto, muitas vezes, este, vai perdendo, junto ao tempo, as emoçöes, sensaçöes, lembranças e vivências da fase mais importante de suas vidas, a infância. Logo, mesmo que a poesia infantil tenha como destino as crianças, pretendo remetê-la aos adultos, mostrando-lhes a importância de relembrarem esse mundo mágico e fantástico que é o mundo infantil.
Em seu artigo Poesia e infância, incluido no site da autora Roseana Murray, Sônia Maria dos Santos Menezes descreve o caminho percorrido pela poesia infantil no Brasil, desde meados da década de 60 até se encontrar no ápice do imaginário de grandes poetas contemporâneos, a exemplo de Mário Quintana (o poeta das ternurinhas), Manuel de Barros (o poeta das três infâncias) e a fantástica Roseana Murray, importante influenciadora desse trabalho.
Nos anos 60, a poesia infantil brasileira trazia na bagagem o peso do conservadorismo, o foco era usar a literatura como instrumento de disciplinar as crianças da época, mostrando a exaltação da pátria e os valores morais. O olhar para 0 mundo criativo da criança, seus anseios, as vivências e o cotidiano ainda não estavam vigentes nas produçes desse perodo. Foi com as criaçes da poetisa Cecília Meireles que a poesia infantil começou a trilhar o caminho dos enigmas, magia, mistérios, em que se encaixa a figura da escritora Roseana Murray, autora de diversos livros para crianças.
O poeta que escreve para o público infantil tem consigo um papel difícil, mas, de ricos momentos, $\textsf { e }$ preciso ter vivido o que é transcrito nas linhas, mesmo que as lembranças tenham sido vivificadas apenas no imaginário. Sônia Maria dos Santos Menezes traz em seu texto uma intensa citação de Bachelard presente em seu livro $A$ poética do desvaneio, no qual diz que: “É preciso embelezar para restituir. A imagem do poeta devolve uma auréola às nossas lembranças. Estamos longe de uma memória exata, que poderia guardar a lembrança pura emoldurando-a. [..\] A infância vê o Mundo ilustrado, o Mundo com suas cores primeiras, suas cores verdadeiras” (BACHELARD, 1988, p. 110-111).
Em suma, o poeta é um maestro que endereça suas sintonias poéticas aos sublimes momentos de recordação, o adulto, assim como as crianças, deve e merece escavar de suas lembranças, as vivências. Independente da pouca idade, as crianças possuem recortes em sua memória, quanto ao adulto, nunca $\acute { \mathrm { e } }$ tarde para viver a primeira, segunda ou terceira infncia, como diria Manuel de Barros.
# MEMÓRIA: AJUDANDO O ADULTO A RESGATAR A ESSÉNCIA INFANTIL DE SUA ALMA
Acredito que a melhor forma de se auto-examinar é fazendo um mergulho nas vivências do passado. Graças às nossas memórias, fazemos isso a todo momento, na maioria das vezes, sem dar-nos conta. Muitas coisas podem ser retomadas se houver essa imersão nas lembranças e recordaçes. Porém, é necessário que se faça uma breve abordagem a respeito do sentido da memória, esta já tão questionada por diversos estudiosos de distintas áreas.
No livro Papel da Memória, o tema em enfoque, explícito no título, traz a discussão da memória vista por diferentes aspectos, que so: lembranças ou reminiscência, memória social ou coletiva, memória institucional, memória mitológica, memória registrada e memória do historiador. Essas ideias estão reunidas em um conjunto de quatro textos. A leitura destes possiblita comprenender uma ruptura à frágil figura da memória construida por nós até então. Entre os exemplos de memória elencados acima, escolhi trabalhar com a memória reminiscente $\mathrm { e / o u }$ lembranças, já que esta, desencadeia recortes de um todo, e jamais vem à tona se não houver interesse de um indivíduo em recuperar ou mesmo relembrar algum fato.
Sabemos agora que a memória pode e deve ser percebida por inúmeros ângulos, cabendo a nós encaixar cada um em nossos arquivos da compreensão, dessa maneira passaremos a ver a memória não mais com concepçöes ingênuas de lembrança imaterial não palpável, e sim, como forte arma da mídia; que utiliza de figuras emblemáticas para implantar uma imagem coletiva, ou figuras mitológicas; que retratam símbolos de grandeza, poder e herança histórica, a exemplo de Homero.
Discutir memória requer também falar de discurso, de linguagem, elementos inseparáveis, guardados na memória registrada, mas que sempre se apresentam em momentos de debates, conversas e discusses, sem necessariamente haver a obrigação da linealidade das recordaçes, da maneira exata que alguma situação ocorreu, pois, os textos orais e escritos são como matéria externa, já as imagens construidas por cada um de nós são matérias particulares, internas, protegidas por cada indivíduo. Jean Davallon defende em seu artigo “A imagem, uma arte de memória?”, que:
A imagem é antes de tudo um dispositivo que pertence a uma estratégia de comunicação: dispositivo que tem a capacidade, por exemplo, de regular 0 tempo e as modalidades de recepção da imagem em seu conjuntos ou a emergência da significação. E é um dispositivo, lembremo-nos, que por natureza é durável no tempo. (DAVALLON, 1999, p. 30 in ACHARD; DURAND; PECHEUX, 1999).
Em suma a memória pode ser descrita como um arquivo particular que é arrumado de maneira própria por cada pessoa. Estas, organizam as lembranças, acontecimentos de sua vida através de imagens, sensaçöes, acontecimentos e discursos diálogos que codificou durante sua trajetória. Para Michel Pêcheux, a memória assume o papel de um “gatilho”, que, quando disparado, absorve o acontecimento e prolonga as lembranças em uma série de recordaçöes antigas, regularizando as novas informaçes em novos arquivos interligados, dessa forma, muitas vezes quando um assunto é discutido, o indivíduo dispara o gatilho da memória, produzindo sempre imagens recentes, além de relacionar com as antigas. Podemos analisar como Pêcheux descreve esse processo de absorção por parte da memória aos acontecimentos, na seguinte citação:
A memória tende a absorver o acontecimento, como uma série matemática prolonga-se conjeturando o termo seguinte em vista do começo da série, mas o acontecimento discursivo, provocando interrupçöes, pode desmanchar essa “regularização”e produzir retrospectivamente uma série sob a primeira, desmascarar o aparecimento de uma nova série que não estava construída enquanto tal e que assim o produto do acontecimento; o acontecimento, nocaso, desloca e desregula os implícitos associados ao sistema de regularização anterior. (PCHEUX, 1999, p .52 in ACHARD; DAVALLON; DURAND; PCHUEUX, 1999).
A memória é analisada acima como uma sequência matemática, de modo que, a cada vivência, o indivíduo cria de forma natural uma espécie de série produzida pela sua capacidade inerente de armazenamento de informação. Sendo assim, sempre que estamos expostos a alguma situação que já vivemos, ou a alguma experiència, são ativadas e liberadas aquelas recordaçöes que fazem parte dessa sequêència que haviamos criado.
Após repensarmos sobre a ideia do papel da memória, título do artigo de Pêcheux, devemos considerar que ela não é algo concreto, muito menos findável, nem mesmo puramente individual, ainda que o processo de arrumação de acontecimentos seja trabalhado singularmente. Contudo, volto a afirmar que as memórias são o caminho mais fácil ou, em outros casos, difícil, para se alcançar a essência esquecida e até camuflada do ser humano. Com o tempo, nós acabamos por fazer o processo inverso de quando éramos crianças. Pois, quando crianças, a tendência é quebrarmos o casulo e vivermos as novas descobertas. No entanto, ao tornarmos adultos, criamos uma cápsula protetora e rígida, chegando muitas vezes a nem sequer sentirmos prazer ao recordar da infância. O adulto deve buscar se conhecer, reconhecendo a criança que há dentro de si, valorizando aqueles sonhos tão satisfatórios que aqueciam a sua alma.
Por tanto, defendo a importância das poesias infantis como auxílio à memória, juntas, ambas exercem um poder sublime e por que não, fantástico, como ajuda a essa retomada da essência infantil do adulto, proposto nesse artigo. E para mexer com esse imaginário, nada como trazer uma amostra de poemas encantadores da escritora Roseana Murray.
Abro agora um parntese para descrever uma experiência que tive ao aplicar uma oficina, cujo tema é o próprio título deste artigo, na qual, mediei durante por algumas horas momentos de profundas emoçöes. Tudo o que a poesia e as boas lembranças de infåncia são capazes de fazer e envolver um adulto.
A oficina “O fantástico mundo infantil nas poesias de Roseana Murray” foi realizada na minha turma de aula, no curso de Letras da UEFS, na qual estiveram presentes 12 pessoas, contando comigo e a professora Carla Luzia Carneiro Borges. Posso dizer que escolhi realizá-la com a minha turma, pois assim pude conhecer um pouco mais dos meus colegas a partir de experièncias que estes viveram e descreveram de quando eram crianças.
Como foi a minha primeira oficina, eu tinha algumas expectativas, mas confiei no poder que a poesia tem de falar por si só. Porém, devo relatar que este momento me marcou muito por três motivos. O primeiro foi exatamente ao ouvir as histórias que foram contadas, a forma com que cada um descrevia e se empenhava em trazer à tona recortes de suas lembanças e recordaçöes para serem compartilhadas; a segunda foi perceber como todas as poesias infantis, lidas por cada um, tocarram no íntimo de cada infância; a terceira e a mais emocionante ficou por conta das poesias, alguns gatilhos da saudade foram disparados e emocionou algumas pessoas.
Um dos meus interesses com essa oficina foi alcançado, e ao ouvir a fala de duas pessoas tive essa confirmação. Todo adulto que teve oportunidade de ter tido uma infância cheia de aventuras, descobertas, imaginação, segredos, mistério, magia, quando se permite falar sobre esses momentos, compartilhar suas sensaçöes e molecagens, pode dar-se conta de que tudo aquilo guardado ou, na maioria das vezes, apagado por ele mesmo ao longo do tempo, precisa ser relembrado, pois é saudável dividir essas lembranças, é como um antídoto para as coisas ruins que assistimos na atualidade, como forma de valorizar o que tivemos quando criança, sabendo que hoje em dia muitas delas no têm sequer o direito de serem crianças.
Devo registar também que foi um bom desafio para mim, que ainda no possuo a prática de estar à frente de um trabalho com pessoas jovens e adultas, pois a experiència que tenho é com crianças, nas quais estou a cada dia descobrindo o que me encanta. O mundo infantil é maravilhoso, ou melhor, fantástico. É sempre desafiador entrar nesse universo. E ver os adultos de minha turma se envolvendo, deixando as emoçöes os embalarem, vê-los saborearem as poesias escolhidas, deixando cair algumas resistências, falando como eram, o que faziam, o que pensavam, já valeu muito a pena ter pensado na oficina.
Infelizmente, devido ao tempo curto, não deu para ter o momento de criação ou relato dos recortes da infância como havia planejado. Nós só fizemos a leitura dos 11 poemas, inclusive a professora também leu um. Cada pessoa falou de sua interpretação acerca do poema lido, e da relação dele com algum fato de quando era criança. Teve os momentos de relatos das lembranças e o que mais me chamou a atenção foi que todos se identificaram com os poemas de Roseana Murray que trazem os personagens do circo: $o$ trapezista, A bailarina e $o$ mágico, títulos de poemas presente no seu livro $o$ circo, além do poema A casa, sobre o qual um dos participantes testemunhou: “toda criança sempre quis ter uma casa na árvore”, outra já falou de sua saudade de uma antiga casa que viveu até os seus seis anos, e da dor que sentiu quando teve que se mudar para outro bairro.
Com a leitura dos poemas: Dentro de uma árvore e Amigo alguns se manifestaram. Alguns disseram que durante a infância é comum que a criança tenha em seu imaginário a representação de determinada árvore, relacionando ao primeiro poema, como também é comum toda criança ter um melhor amigo, mesmo que este seja imaginário. A leitura de Horizonte e Comida de sereia tocou no lado mais sensível dos participantes, pois estes poemas são puramente mágicos, é típico daqueles poemas em que o autor mergulhou de cabeça no mundo inventivo da criança. No entanto, foi na leitura do poema Memória que a emoção encontrou seu espaço. Ele ficou por último e parece até que se deixou ler ao fim para criar uma atmosfera bonita de uma “lembrança homenagem”. Uma das participantes chorou ao contar que, logo no início do poema quando fala:
Há pouco tempo atrás, aqui havia uma Padaria. Pronto no há mais. Há pouco Tempo atrás aqui havia uma casa, cheia de cantos, recantos, corredores impregnados de infância e encanto. Pronto no há mais. […]
lembrou-se da padaria de seu avo, descrevendo a alegria que sentia toda vez em que viajava para sua cidade, Riachão do Jacuípe, onde brincava, sentia o cheiro dos pães e vivia intensamente, das maneiras mais simples, a importància, o valor e o prazer de ser criança.
Antes de concluir a oficina, fiz a leitura de duas criaçöes minhas, frutos de duas experiências da minha infância, a que agradeço por ter sido muito rica. Os poemas são: O planeta dos doces e Dia de chuva (CARVALHO, 2021,). Como havia dito acima, se houvesse tempo, todos os participantes socializariam as suas produçöes. A minha leitura serviu como possível influência para boas lembranças passadas para o papel. Por fim, ouvi as sugestes de alguns participantes para melhorar a minha oficina, para caso eu tenha interesse em aplicá-la em outras ocasies. Todas elas foram muito válidas, pois 0 desejo de melhorar minhas práticas me trouxeram até aqui, no ano de 2026, alguns anos de pandemia, onde nós, educadores, tivemos um papel fundamental no processo educacionais e intuitivos de muitos alunos.
# REDESCOBRINDO O CAMINHO DA EDUCAÇÄO COM A PODER DA POESIA
No período pós pandemia a educação ganhou trilhos novos. Foi necessário que todos os envolvidos no processo educacional; gestores, professores, alunos, coordenadores se reencontrassem dentro de uma nova dinâmica de ensinoaprendizagem. Sendo assim, por unanimidade, após uma anamnese, os docentes diagnosticaram uma lentidão e bloqueios criativos quando solicitado dos alunos, que estes desenvolvessem atividades que precisassem argumentar e escrever.
Por isso, a educação necessitou de ser ressignificada e com ela, foi necessário ver e viver os desafios com o olhar dos poetas. Logo, por ela ser um mistério a se redescobrir, semelhante ao arco-iris quando surge após uma chuva. Os saberes que permeiam a educação, principalmente após um momento de crise, assim como foi o cenário pós-pandemia, requer dos seres humanos envolvidos; a esperança de voltar a se conectar ao ensinar, aprender, conhecer e reconhecer.
Daí surge a esperança de destacar um problema vital por excelência, que subordinaria os demais problemas vitais. Mas este problema vital é constituído pelo conjunto de problemas vitais, ou seja, a intersolidariedade complexa de problemas, antagonismos, crises, processos descontrolados. O problema planetário $\textsf { e u m }$ todo que se nutre de ingredientes múltiplos, conflitivos, nascidos de crises; ele os engloba, ultrapassa-os e nutre-os de volta. (MORIAN, p. 64)
O tecer da educação é feito diariamente pelos indivíduos envolvidos no processo, sejam eles: alunos, educadores, coordenadores, diretores e os demais membros do corpo escolar. Portanto, esse tecer independe de país, logo, de idioma ou território em que se estabelece. Porque a educação transcende fronteiras e desafia os docentes na busca por redescobri-la. Após a pandemia os professores tiveram que duelar com adversários ainda mais perigoso; a falta de motivação, o desânimo, as ansiedades e inquietaçöes dos alunos. Ademais, a arte de ensinar está em constante desconstrução, por isso, inúmeras vezes é mister que os mestres das salas de aulas ressignifiquem suas armas de ensino, para não se frustrarem.
Porém, o currículo escolar ainda deve ser prioridade, aprender conteúdos relacionados a; linguagem, produção textual, gêneros textuais, as ciências humanas e da natureza, os cálculos, continuam sendo importantes para o processo intelectual dos discentes. No entanto, as dificuldades não pararam por aí, já que, a Internet, por ser um concorrente mais veloz, no que tange às informaçôes instantâneas, tem inquietado ainda mais os professores, estes, que buscam continuamente ressignificar sua prática docente, pois cobrar de si próprio (a) é quase um pré-requisito do ser-professor.
Analogamente, a educação na atualidade é como uma estação de trem, mas que no cenário atual ganhou novos trilhos, sem contar que, as paradas de estaçöes (os currículos escolares) estão também com novas roupagens, esses trilhos muitas vezes são as infinitas situaçöes e decisöes que o corpo docente e o administrativo das instituiçöes de ensino têm que tomar para que o trem, este sendo o processo de educar, não estagne, mas que siga sempre em frente. Porém, o que não deve ser jamais esquecido, é que recuar um pouco, desacelerar e quando possível, olhar para trás, também é válido. Logo, esse ato de “olhar para trás” é compreendido como os momentos em que os professores analisam suas práticas de ensino consultando os trilhos velhos; o passado, para se certificar que a ressignificação está sendo eficaz.
É necessário redescobrir a escrita, trilhar o caminho de escrever sempre foi e sempre será um desafio constante no processo de desenvolvimento do ser humano, já que a arte de escrever é um mistério a se redescobrir. E, apesar de outras habilidades serem contempladas no universo educacional, escrever sempre será uma arma poderosa para a evolução profissional e pessoal do indivíduo. A palavra tem poder de alinhar as emoçöes de qualquer indivíduo e aliada a ela está a esperança:
Se é verdade que o gênero humano, cuja dialógica cérebro/ mente no está encerrada, possui em si mesmo recursos criativos inesgotáveis, pode-se então vislumbrar para o terceiro milênio a possibilidade de nova criação cujos germes e embries foram trazidos pelo século XX: a cidadania terrestre. E a educação, que é ao mesmo tempo transmisso do antigo e abertura da mente para receber o novo, encontra-se no cerne dessa nova missão.
Mas, o desfrutar do percurso de criação é algo que deve ser estimulado e cuidadosamente preparado, dentro do cenário educacional. O ser humano, seja ele adulto, como foi instigado no início desse artigo, ou as crianças e adolescentes, público este que está diretamente associado à escola, deve voltar a escrever, ler e interpretar as sutilezas do mundo, e para isso, a poesia é essencial.
Sendo assim, validar o que os professores têm feito dentro da sala de aula, no que diz respeito à intensificação de projetos voltados para a produção literária, pós pandemia, é louvável. No entanto, o ato de escrever é um fenômeno que merece ser continuamente descoberto.
A magia das palavras no pode ser perdida, ainda que haja os percalços e impedimento em sala de aula, escrever deve ser sempre prioridade dentro dos ambientes de educação começando desde os anos iniciais até chegar na universidade. Por isso que cabe a escola, influenciar a produção discursiva e criativa dos alunos, intensificar as respostas discursivas e explorar atividades literárias. Cair no conformismo de que “os alunos não escrevem bem, não querem escrever” não é um argumento sustentável. Escrever transcende o obrigatório, o escolar, vai além dos muros da escola. É a liberdade fora da sala de aula.
Os saberes da educação do futuro passaro por estaçes e paradas que desembarcaram passageiros que se limitam ao que $\acute { \mathrm { e } }$ apenas curricular. Ao desembarcar uma turma, o professor pode sondar as preferências e habilidades. Ainda que uns sejam mais habilidosos que outros na escrita, expressar-se por meio dela é uma arte que deve ser valorizada. Sendo assim, a poesia torna-se aliada a esse paralelo existente entre ensinar e ressignificar a educação
Semelhante a uma estação de trem, em que se precisa fazer parada para que o fluxo natural da viajem, siga em frente. Todo o público envolvido na “estação educacional” foi obrigado a dá uma parada no periodo da pandemia do Covid-19. Dessa forma, a educação precisou ser redescoberta. No seu livro “Educação um tesouro a descobrir”, Jacques Delors dialogava com a importància de descobrir a educação, assim como aborda na obra, a luta, a dinâmica social, a importância de compreender o mundo e o outro, entre outros assuntos, isso, em um panorama distante do que foi o Covid-19. No entanto, após toda movimentação, tensão e mobilização do período pandêmico, veio a inquietação de se manter os estudos e práticas pedagógicas em movimento.
Mas, é fundamental voltar-se a aflorar a subjetividade, a poesia está intrinsicamente ligada ao que há de mais instintivo no indivíduo, seja ele criança ou adulto. Cabe a ela, a autoridade poética de articular no íntimo intocável do ser humano, a criatividade, as memórias afetivas, as associaçes emocionais e as habilidades que muitas das vezes são desconhecidas pelo próprio indivíduo. Como o intuito da escola é não apenas ensinar conteúdo, como também mostrar o caminho do se conhecer, a poesia pode ser uma arma poderosa para essa descoberta, já que, a humanidade descansa no terreno fértil do que germina as particularidades, usar os textos poéticos como gatilho para a ludicidade, torna-se um excelente trunfo a favor do aprender.
# CONSIDERAÇÖES FINAIS
Embora eu creia que ainda haja resistência por parte de muitos adultos no que tange a recordarem questöes da infância, ou até mesmo em ler poemas, sejam eles infantis, ou simplesmente: poemas, não apenas para apreciação, mas também para desfrutar da liberdade de imaginar presente no mundo infantil, posso dizer que a poesia é um dos gêneros que não mexe apenas com aprendizagem, ensino, compartilhamento, ela vai mais a fundo, chegando a tocar no íntimo do ser humano.
Graças a escritores como Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, esta, citada aqui, e muitos outros, além da escritora contemporânea Roseana Murray, autora dos poemas que foram objetos de análise e estudo para a construção desse artigo, as crianças ganharam voz atráves dos poemas produzidos por estes. Sem deixar de falar do empenho com que esses maestros e conhecedores do imaginário infantil dão movimento a este mundo fantástico. O que nos resta é desejar que cada vez mais pessoas se sintam realizadas em explorar e transcrever as aventuras vividas pelas crianças e que mais e mais adultos sejam tocados pelas inúmeras poesias infantis, ou não, presentes nos livros.
Além do mais, o ambiente educacional deve ser o propulsor no que se refere ao redescobrir a educação criativa/encantadora, pois, a poesia, juntamente com a vontade de criar, pode resgatar o encantamento perdido nos estudantes, já que ela impulsiona a mudança, a evolução do conhecimento e a superação de lacunas educacionais. No podemos perder de vista esses seres em formação, porque eles se tornaram adultos, logo ali; na próxima estação. E, não devemos deixá-los sair dos muros da escola sem o toque sutil dos poetas. Logo, a poesia, é uma ferramenta crucial contra o desinteresse da leitura de mundo, ela contribui para adoçar o imediatismo da lógica. Portanto, ler, escrever, sonhar, conquistar, são açöes que desaguam no tesouro que $\acute { \mathrm { e } }$ a educação.
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