Caregiver-Infant Interaction: Effects of Caregiver Gender and Prematurity Caregiver-Infant Interaction and Prematurity
Published On January 10, 2024

Caregiver-Infant Interaction: Effects of Caregiver Gender and Prematurity Caregiver-Infant Interaction and Prematurity

Dr. Olga Maria Piazentin Rolim R
Dr. Olga Maria Piazentin Rolim R
Caregiver-Infant Interaction: Effects of Caregiver Gender and Prematurity Caregiver-Infant Interaction and Prematurity
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Research ID 24522

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I. INTRODUÇÃO

As interações estabelecidas entre os pais (cuidadores) e seus filhos constituem oportunidades para que eles conheçam a criança e exercitem novos comportamentos. Contribuem para a ampliação de seu repertório comportamental e desenvolvimento de habilidades para lidar com os cuidados básicos, discriminar a função do choro e atender as necessidades da criança em busca de respondê-las de forma apropriada (Alvarenga et al., 2016). Desta forma, vinculam-se ao seu filho.

A criança também aprende nas interações com sua família. Seu desenvolvimento social, cognitivo, motor e de linguagem é impactado pela maneira como as interações com os adultos significativos acontecem (Rocha et al., 2019). Durante as trocas, a criança consegue variar a forma e o contexto das suas vocalizações e movimentos influenciando a resposta parental e estabelecendo interações sociais que facilitam o desenvolvimento da sua comunicação (Albert et al., 2017). Seus comportamentos interativos também favorecem a construção de vínculo com seus cuidadores (Izidoro et al., 2020).

Considerando esses aspectos, torna-se relevante investigar como as interações acontecem, quais comportamentos são emitidos pelos cuidadores e pelas crianças e o que controla a sua ocorrência. Entre os comportamentos parentais destaca-se a responsividade, definida por Alvarenga et al. (2016) como "respostas contingentes aos comportamentos apresentados pelo bebê, sendo que diferentes probabilidades de ocorrência estariam associadas a diferentes tipos de resposta" (p. 7). O cuidador responsável é aquele que responde diferencialmente aos variados comportamentos da criança ou ao mesmo comportamento em contextos diferentes, atendendo adequadamente às suas necessidades.

A oferta de um cuidado responsivo é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (WHO et al., 2018) como uma maneira de promover o desenvolvimento infantil e garantir os direitos da criança à saúde, nutrição, segurança e proteção. A responsividade pode favorecer o desenvolvimento de apego seguro com o cuidador (Becker et al., 2019), a autorregulação infantil (Zarske et al., 2021) e o desenvolvimento de habilidades motoras e cognitivas nos primeiros anos de vida de bebês nascidos pré-termo (McMahon et al., 2022, Mesquita et al., 2020). Além da responsividade, os comportamentos parentais que envolvem a estimulação da criança, incluindo o envolvimento em atividades lúdicas, comunicação e apresentação de objetos, também podem atuar como promotores do seu desenvolvimento e bem-estar com melhores índices em desenvolvimento cognitivo e socioemocional de pré-escolares (Jeong et al., 2019).

Por outro lado, comportamentos parentais intrusivos, como estimulação intensa, interrupção de atividades de regulação da criança sem respeitar a sua autonomia e excesso de diretividade na interação (Chiodelli, 2020), podem produzir contextos aversivos para a criança (Alvarenga et al., 2016). São comportamentos não responsivos e pouco contingentes às suas respostas e necessidades. A exposição prolongada da criança a esse tipo de cuidado pode associar-se a problemas de comportamento internalizante nos primeiros anos escolares (Gueron-Sella et al., 2018).

Ao longo dos anos, diversos estudos sobre desenvolvimento infantil e interação estiveram focados no binômio mãe-bebê (Cabrera, 2019). O autor ressalta que, embora o número de estudos com pais tenha aumentado, eles ainda são menos frequentes do que os estudos com mães, o que sinaliza a necessidade de investigar as relações entre a criança e seu pai, aprender sobre o seu papel no desenvolvimento infantil e promover a corresponsabilidade paterna. Variáveis como a cultura e os papéis de gênero contribuem para a compreensão dos motivos que levaram os pais a serem negligenciados nos estudos sobre a infância (Cabrera et al., 2018).

Amodia-Bidakowska et al. (2020) realizaram uma revisão sistemática da literatura para caracterizar a interação pai-criança na primeiríssima infância (zero a 3 anos). Foram analisados 78 estudos com relação a frequência da interação, o tipo de interação e os efeitos para o desenvolvimento infantil. Sobre a frequência, as brincadeiras dos pais com seus bebês aumentaram do nascimento até o final da primeira infância (o-6 anos) e diminuíram conforme a criança cresceu e tornou-se mais envolvida com o ambiente externo à família. Esse resultado poderia sugerir o papel paterno de ativar a criança para explorar o mundo, favorecendo sua autonomia e contemplando as necessidades desenvolvimentoais dela. Quanto ao tipo de brincadeira, os autores identificaram uma preferência paterna por brincadeiras que envolviam contato físico e movimento com seus filhos. Suas brincadeiras diferenciam-se das maternas, sendo os efeitos associados positivamente com a autorregulação da criança e desenvolvimento social e cognitivo. Nenhum estudo revisado pelos autores era brasileiro, o que sinaliza a escassez de estudos nacionais sobre o tema.

Investigações que considerem a variedade de comportamentos maternos e paternos na interação com seus filhos e descrevam as similaridades ou diferenças na interação de cada cuidador com a criança podem auxiliar na compreensão da parentalidade (Cabrera et al., 2018). No Brasil, Piccinini et al. (2010) realizaram um estudo com 58 diades mãe-bebê e 52 diades pai-bebê para identificar os efeitos do nível socioeconômico, suporte social percebido e o sexo do bebê sobre a interação diádica. Os participantes eram casados, pais de primeiro filho e os bebês tinham três meses de idade. Os autores destacaram entre seus achados que os cuidadores interpretaram/falaram mais com os bebês do mesmo sexo que o seu, que as diades mãe-bebê apresentaram mais os comportamentos de interpretar/falar pelo seu bebê e as diades pai-bebê o comportamento de tocar/estimular. Os bebês moveram-se mais nas interações com seus pais, quando comparados às suas mães.

Yago et al. (2014), em um estudo realizado no Japão, investigaram diferenças e semelhanças na interação de 16 crianças com suas mães e pais. As crianças tinham idade até 36 meses. Entre os resultados, não encontraram diferenças nos comportamentos de mães e pais na interação com seus filhos. Todavia, as crianças foram significativamente mais contingentes, isto é, responderam imediatamente às iniciativas de interação dos pais do que das mães.

Kokkinaki e Vasdekis (2015), na Grécia, compararam a correspondência entre as expressões faciais e a sintonização da intensidade emocional na interação de 11 bebês com suas mães e pais. Os bebês tinham idade entre dois e seis meses. As microanálises mostraram que as interações entre os pais e seus bebês foram mais lúdicas em comparação à interação das diades mãe-bebê. Os comportamentos dos bebês não diferiram em relação ao parceiro de interação.

Cerezo et al. (2017), na Espanha, investigaram a influência do gênero do cuidador e o sexo do bebê na interação de 26 diades mãe-bebê e 26 diades pai-bebê. Os bebês tinham idade entre seis e dez meses. Os dados indicaram que não houve diferença na interação com relação ao sexo do bebê. Quanto ao gênero do cuidador, os pais se mostraram mais ativos na interação com seus bebês do que as mães, com predomínio da resposta positiva dos bebês ao comportamento interativo, mesmo que neutro. As diades mãe-bebê apresentaram frequências maiores de repetições do mesmo evento diádico, e os bebês envolveram-se em comportamentos não interativos diante de respostas neutras de suas mães.

Pereira et al. (2018), em Portugal, descreveram e compararam a qualidade observada nas interações de 183 bebês, com seus pais e com suas mães, aos dois e aos seis meses. Os resultados mostraram que, aos dois meses, as mães apresentaram frequências maiores de sensibilidade, responsividade, presença, comunicação, contentamento e se mostraram mais impositivas na interação com os bebês. Aos seis meses as diferenças permaneceram para responsividade, comunicação, contentamento, atividade e relaxamento. Não houve diferença nos comportamentos dos bebês durante interação com suas mães e pais nas duas idades analisadas. Com relação à qualidade geral da interação, aos seis meses a interação mãe-bebê apresentou mais satisfação mútua em comparação à interação pai-bebê. As autoras discutiram que as mães discriminaram melhor os comportamentos do filho, incluindo reações faciais e corporais fazendo com que respondessem de forma mais adequada às respostas da criança. Elas concluíram que isso também teria uma implicação cultural, dos papéis sociais divergentes atribuídos a cada um dos cuidadores e as expectativas sociais em relação ao seu papel na interação com o bebê.

Além do gênero do cuidador, outros fatores podem influenciar a interação dos cuidadores com seus bebês e, entre eles, a prematuridade. O nascimento pré-termo ocorre antes das 37 semanas completas de gestação e anualmente nascem aproximadamente 15 milhões de bebês pré-termo no mundo, com uma taxa de prevalência entre 5 e 18% dos nascimentos (WHO, 2022). A internação hospitalar geralmente ocorre nesses casos expondo o bebê a procedimentos dolorosos e evocando sentimentos negativos dos cuidadores decorrentes da separação do bebê e incertezas quanto à sua sobrevivência (Almeida et al., 2020).

Rocha et al. (2019), em uma revisão sistemática da literatura, exploraram o impacto da interação mãe-bebê no desenvolvimento de bebês com até 12 meses de vida e identificaram fatores mediadores dessa relação. Entre os resultados obtidos, o nascimento pré-termo foi um dos fatores que influenciaram a interação e, consequentemente, o desenvolvimento do bebê, principalmente nas áreas de desenvolvimento social, cognitivo e de linguagem.

Woolard et al. (2022) encontraram que os bebês pré-termo foram menos responsivos às interações com seus cuidadores. A prematuridade também apresentou efeito para os comportamentos parentais. Cuidadores de bebês pré-termo apresentaram menos afeto e responsividade na interação com seus filhos.

Em uma meta-análise realizada por Toscano et al. (2019) com 34 estudos cujas crianças, nascidas a termo e pré-termo, tinham idade entre dois meses e nove anos, os cuidadores das crianças nascidas pré-termo apresentaram significativamente mais comportamentos de controle do que os de nascidas a termo. Esses comportamentos foram definidos como intrusividade, pressão sobre a criança para atender as demandas impostas, resolver problemas para elas e direcionar seus comportamentos.

Confirmando esses achados, Neri et al. (2017), na Itália, em um estudo com 92 bebês pré-termo aos três meses de idade corrigida, observaram que as mães se mostraram mais controladoras (comportamentos que apresentaram uma função de intrusividade) nas suas interações com seus bebês, diferindo dos pais que apresentaram significativamente mais comportamentos não responsivos. Mães (65%) e pais (60%) não diferiram quanto à sensibilidade, sendo que, durante mu8ais da metade do tempo de interação, os cuidadores apresentaram-se sensíveis. Os comportamentos dos bebês também variaram de acordo com o seu parceiro de interação sendo significativamente mais passivos na interação com os pais.

Na Holanda, Hall et al. (2015) acompanharam 231 diades mãe-bebê e pai-bebê nos dois primeiros anos de vida avaliando a influência da idade gestacional nas interações das diades um dia após o nascimento, com um mês, seis meses e 24 meses de vida dos bebês. Não foram encontradas diferenças significativas na qualidade dos comportamentos interativos parentais de bebês nascidos a termo, pré-termo moderados (32-37 semanas gestacionais) e muito pré-termo (menos do que 32 semanas). Considerando os comportamentos interativos dos bebês, os muito pré-termo apresentaram menos humor positivo quando comparados aos nascidos a termo. Os bebês pré-termo dos dois grupos apresentaram níveis baixos de atividade e atenção sustentada (na primeira avaliação), com resultados mais deficitários para os muito pré-termo. Todavia, essas diferenças desapareceram ao longo do tempo e, na última avaliação (24 meses de vida do bebê), não foram encontradas diferenças significativas entre os comportamentos dos bebês.

Observa-se uma lacuna na literatura nacional quando considerados os estudos que investigam os efeitos do gênero do cuidador e da prematuridade sobre as interações cuidador-bebê no início da vida. Ainda, os estudos internacionais são inconclusivos quanto às diferenças observadas nos comportamentos interativos maternos e paternos e sua influência sobre o comportamento interativo infantil. Variáveis culturais podem influenciar os comportamentos interativos como a centralização dos cuidados da criança como responsabilidade das mães (Cabrera eta al., 2018). Estudos têm apontado para diferenças entre comportamentos maternos e paternos para com seus bebês (Amodia & Bisdakowska et al., 2020; Piccinini et al., 2010, Kokkinaki e Vaskeskis, 2015, Cerezo et al., 2017). Nestes, pais se envolveram mais em comportamentos lúdicos e de interação e as mães em comportamentos mais responsivos, atentas às necessidades dos bebês. Quanto aos comportamentos dos bebês, apenas o estudo de Yago et al. (2014) encontrou bebês mais responsivos aos pais do que às mães.

Quanto à prematuridade estudos têm mostrado menos comportamentos interativos positivos dos cuidadores com seus bebês nascidos pré termo (Woolard et al., 2022), mais comportamentos intrusivos (Toscabo et al., 2019, Neri et al., 2017). Dos estudos encontrados, Hall et al. ((2015) não encontraram diferenças entre oc comportamentos interativos de cuidadores e seus bebês nascidos a termo e pré termo.

Investigações conduzidas nesse momento do desenvolvimento infantil contribuem para a compreensão de como as relações pais-filhos são construídas e quais variáveis podem afetá-las, orientando intervenções pontuais pautadas na promoção do cuidado responsável e nas necessidades e potencialidades de cada diade. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo analisar o efeito do gênero do cuidador (mãe e pai) e da idade gestacional do bebê (pré-termo e a termo) sobre a interação cuidador-bebê.

Os achados possibilitam a formulação de duas hipóteses: 1) Na interação: há diferenças nas interações cuidador-bebê considerando o papel do cuidador (se pai ou mãe), com maior frequência para comportamentos de estimulação dos pais e responsividade das mães; 2) Sobre a idade gestacional: cuidadores de bebês pré-termo apresentando mais intrusividade em comparação as diades cujos bebês nasceram a termo. Entre os bebês espera-se encontrar comportamentos semelhantes independente do papel do cuidador (pai ou mãe) e da idade gestacional (a termo ou pré termo). Tais hipóteses confirmariam os achados mais recorrentes na literatura consultada.

II. MÉTODO

2.1 Participantes

Participaram da pesquisa 11 diades mãe-bebê e 18 diades pai-bebê primíparas que faziam parte de: 1) um projeto de extensão de uma universidade pública que acompanhava o desenvolvimento de bebês no decorrer do primeiro ano de vida (mãe-bebê n = 6; pai-bebê n = 13) e, 2) um serviço de intervenção precoce oferecido a bebês nascidos pré-termo e suas famílias também durante o primeiro ano de vida do bebê (mãe-bebê n = 5; pai-bebê n = 5). Ambos os serviços ocorreram em uma cidade de médio porte do estado de São Paulo, Brasil.

O estudo apresenta um delineamento transversal e a amostra foi não probabilística, de conveniência. A coleta dos dados ocorreu entre março de 2018 a fevereiro de 2020. Como critérios de inclusão, estabeleceu-se: primiparidade e ser mãe ou pai de bebês até quatro meses. Foram excluídos os pais e mães que apresentaram indicadores clínicos de saúde mental (ansiedade, estresse e depressão pós-parto) rastreados no início da participação das famílias nos projetos citados. O controle dessas variáveis ocorreu devido a estudos que sugerem que a experiência prévia de maternidade ou paternidade favorece comportamentos parentais apresentados durante interação com seus filhos (exemplo Silva et al., 2021), bem como o impacto da saúde mental para a interação com a criança e na coparentalidade (exemplo Frizzo et al., 2019, Zardinello & Koch, 2020). Considerando esses critérios, 14 mães e 5 pais foram excluídos do estudo.

A Tabela 1 apresenta os dados sociodemográficos das diades mãe-bebê e pai-bebê. Com relação às diades mãe-bebê, a média de idade dos bebês foi 3,0 meses, com idade gestacional média de 36,1 semanas, peso médio ao nascer de 2.696,5 gramas e, deles, 63,6% eram meninos. As mães tinham, em média, 29 anos, 13,9 anos de estudo e 63,6% exerciam atividade remunerada. Para os 63,6% dos bebês que nasceram pré-termo, 85,7% permaneceram internados após o nascimento. A média de dias de internação foi 3,0. Quanto à família, 81,8% pertenciam a famílias nucleares, a gravidez foi planejada para 63,6% das mães e 72,7% tiveram parto cesárea.

Os bebês das diades pai-bebê tinham, em média, 3,1 meses e nasceram com idade gestacional média de 36,5 semanas. O peso médio ao nascer dos bebês foi de 2761,5 gramas e 55,6% eram meninos. Os pais tinham, em média, 32,2 anos, estudaram 12,9 anos, todos exerciam atividade remunerada, 94,4% pertenciam a famílias nucleares, 61,1% dos pais não planejaram a gravidez da mãe do bebê e 66,7% dos bebês nasceram via parto cesárea. Para os 38,9% dos bebês que nasceram pré-termo, 85,7% permaneceram internados em média, por 8,3 dias (Tabela 1).

Para verificar as condições de homogeneidade da amostra, utilizou-se o teste Mann-Whitney para as variáveis sociodemográficas apresentadas (idade do bebê, idade gestacional em semanas, peso ao nascer, idade do cuidador, escolaridade do cuidador e números dias de internação do bebê) e o teste exato de Fisher para as variáveis sexo do bebê, exercer atividade remunerada, tipo de parto, gravidez planejada e configuração familiar. Identificou-se apenas uma diferença entre os grupos na variável exercer atividade remunerada (p = 0,014), indicando que mais pais exerciam atividade remunerada do que as mães.

Tabela 1: Características sociodemográficas dos participantes considerando a divisão de acordo com o gênero do cuidador

Características sociodemográficasMãe-bebêPai-bebê $P$
n(%)n(%)
Idade dos bebês Média(DP)3,0(0,4)3,1(0,3) $0,803^1$
Idade gestacional Pré-termo A termo Média(DP)7(63,6)4(36,4)36,1(1,9)7(38,9)11(61,1)36,5(3,8) $0,330^1$
Peso a nascer Média(DP)2.696,5(509,4)2.761,5(799,5) $0,529^1$
Internação do bebê Sim Não Média(DP)6(54,5)5(45,5)3,0(3,4)6(33,3)12(66,7)8,3(20,4) $0,404^1$
Sexo do bebê Feminino Masculino4(36,4)7(63,6)8(44,4)10(55,6) $0,486^2$
Idade do cuidador Média (DP)29(4,8)32,2(6,8) $0,313^1$
Anos de escolaridade Média(DP)13,9(3,7)12,9(2,8) $0,440^1$
Atividade remunerada Sim Não7(63,6)4(36,4)18(100)0(0) $0,014^2$
Configuração familiar Nuclear Outra9(81,8)2(18,2)17(94,4)1(5,6) $0,316^2$
Planejamento da gravidez Sim Não7(63,6)4(36,4)7(38,9)11(61,1) $0,181^2$
Via de nascimento Natural Cesárea3(27,3)8(72,7)6(33,3)12(66,7) $0,534^2$

III. INSTRUMENTOS

3.1 Questionário Sociodemográfico

Para a coleta das informações sociodemográficas, o cuidador respondeu a um questionário sobre sua idade, escolaridade, configuração familiar, número de filhos, trabalho remunerado, informações sobre a gestação do bebê, o nascimento e o pós-parto (idade gestacional, tempo de internação, via de nascimento, problemas de saúde identificados etc.).

IV. MATERIAIS PARA OBSERVAÇÃO DA INTERAÇÃO MÃE-BEBÊ E PAI-BEBÊ

Foram disponibilizados brinquedos (um chocalho, dois bichinhos de borracha - um tigre e um porquinho, um mordedor, um móble e um livro de banho) e o seu uso ficou a critério do cuidador. Foram utilizadas uma filmadora digital, um tripé e uma maca presente nas salas de atendimento individual de cada instituição. Também ficavam disponíveis ao cuidador um acolchoado e travesseiros para posicionar o bebê.

4.1 Protocolo Para Codificação de Comportamentos Interativos Maternos/Paternos - Interadíade (Rodrigues, Chiodelli & Pereira, 2020)

A análise dos comportamentos interativos do cuidador e do bebê foi realizada pelo Interadíade. Esse protocolo classifica os comportamentos parentais e do bebê em interativos positivos, interativos negativos e não interativos, segundo a segundo, e analisa a duração do comportamento. A escolha por esse protocolo de observação ocorreu por ele contemplar comportamentos de cada membro da diade, considerando a sua função e facilitando o planejamento de ações posteriores. Os comportamentos interativos positivos parentais são categorizados em: apresentar brinquedo, cuidar, observar, atrair a atenção para objetos ou para si, acalmar, esperar responder, brincar sem objetos e acariciar. Os comportamentos interativos negativos incluem os comportamentos parentais de: cuidar do bebê sem sinal de desconforto ou necessidade, verbalizar negativamente, interromper a atividade sem motivo aparente ou completar a atividade por ele, estimular o bebê produzindo desconforto para ele e contato intrusivo. Os comportamentos não interativos parentais envolvem comportamentos direcionados para o observador, ou outros pontos da sala (para a porta, por exemplo). Quanto aos comportamentos do bebê, os interativos positivos envolveram os comportamentos de: interagir com brinquedo que a mãe/pai oferece, atrair a atenção da mãe/pai, olhar para mãe/pai e responder positivamente à mãe/pai, com sorrisos e vocalizações. Os comportamentos classificados como interativos negativos contemplam o choro, chutar/empurrar a mãe/pai e protestar. Os não interativos envolvem comportamentos do bebê de explorar o ambiente, explorar objetos, explorar o próprio corpo e evitar contato. As definições operacionais de cada comportamento analisado encontram-se descritas em Rodrigues, Chiodelli e Pereira (2020).

4.2 Procedimento

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade xxxxx (dados ocultados para leitura às cegas), conforme pareceres n. xxxxx e xxxxx (dados ocultados para leitura às cegas). Os cuidadores que aceitaram participar do estudo assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) no qual constavam informações a respeito do sigilo, cuidado e responsabilidade com os dados coletados.

A coleta dos dados ocorreu de março de 2018 a outubro de 2019, em salas de atendimento individual das instituições que os participantes frequentavam equipadas com uma maca, mesa, armários e os materiais necessários para a observação da interação cuidador-bebê. Nesse período, nas duas instituições eram identificados os bebês que estavam iniciando o acompanhamento e cumpriam o critério de idade, entre três e quatro meses. Em seguida, a pesquisadora verificava na agenda de cada instituição o dia e horário do próximo atendimento do bebê para realizar o convite ao cuidador. A pesquisa foi apresentada ao cuidador, disponibilizando informações a respeito dos objetivos, procedimentos e sigilo das informações coletadas. As dúvidas foram esclarecidas e a participação foi voluntária. Aqueles que aceitaram participar da pesquisa assinaram o TCLE e combinaram com a pesquisadora uma data e horário para a coleta dos dados.

No dia da coleta dos dados, o cuidador respondeu ao questionário sociodemográfico e a interação com seu bebê foi observada em contexto livre durante cinco minutos. Antes de iniciar a observação, a pesquisadora instruiu o cuidador a interagir com o seu bebê como estava habituado a fazer em outros contextos.

4.3 Análise dos Dados

Os dados sociodemográficos dos participantes foram organizados em planilhas do Excel e analisados por estatística descritiva (frequência absoluta e relativa).

A análise da interação cuidador-bebê foi realizada pelo Interadíade. Para a codificação, os cinco minutos de interação cuidador-bebê foram divididos em 300 intervalos de um segundo. A pesquisadora assistia aos cinco minutos de interação da diade, depois codificava os comportamentos do bebê e, em seguida, do cuidador. Cada comportamento durante o segundo analisado foi codificado como uma ocorrência. Registrava-se o início do comportamento e a sua duração. Ao final, eram somadas as durações totais dos comportamentos do bebê e do cuidador. As análises foram feitas em planilhas do Excel.

Para o presente estudo foram realizadas adaptações no Interadiade para análise dos comportamentos do cuidador com a finalidade de diminuir o número de comportamentos analisados, reagrupando-os por semelhança na sua função. Os comportamentos interativos positivos do cuidador de apresentar brinquedo para o bebê, atrair a atenção do bebê para objetos ou para si e brincar sem objetos foram agrupados na classe de estimulação. Acariciar o bebê, acalmar o bebê, cuidar do bebê, esperar o bebê responder e observar o bebê foram agrupados na classe responsividade. Os comportamentos interativos negativos de contato intrusivo, cuidar do bebê excessivamente, estimular excessivamente e interromper a atividade do bebê foram agrupados na classe intrusividade. O comportamento interativo negativo de verbalizar negativamente para o bebê foi considerado como uma classe a parte por não envolver intrusividade do cuidador, todavia, devido a duração desse comportamento ter sido baixa (média para as mães = 1,90; DP = 2,25; média para os pais = 4,73; DP = 7,51), ele não foi considerado nas análises estatísticas. O mesmo ocorreu para o comportamento não interativo de olhar para outros pontos da sala (média para as mães = 13,54; DP = 15,95; média para os pais = 11,00; DP = 7,87). As análises estatísticas do comportamento do bebê foram realizadas para os totais das classes de comportamentos interativos positivos, negativos e não interativos.

Verificou-se a fidedignidade das observações por meio de análises de dois observadores, um independente, considerando os dados de 30% da amostra. O coeficiente de correlação intraclasse foi utilizado para esta análise e os valores obtidos variaram entre 0,888 a 0,940, indicando bom índice de acordo(Cichetti, 1994). A distribuição de normalidade dos dados foi verificada a partir da assimetria (Sk) e curtose (Ku). O critério adotado foi |Sk| ≤3 e |Ku| ≤7(Kline, 2004).

Foram realizadas análises de variância univariadas (ANOVAs) de duas vias (gênero do cuidador e idade gestacional do bebê) e post-hoc de Sidak para verificar os efeitos significativos da interação (gênero do cuidador*idade gestacional do bebê) sobre as variáveis dependentes investigadas (comportamentos do bebê e do cuidador). O tamanho do efeito foi calculado pelo eta quadrado parcial. As análises foram realizadas com o IBM SPSS versão 27. O nível de significância adotado foi p < 0,05.

V. RESULTADOS

A Tabela 2 apresenta os resultados da ANOVA de duas vias para os comportamentos do cuidador. Ao considerar o gênero do cuidador, foi possível observar que os comportamentos de estimulação ocorreram com maior duração na interação tanto para as mães como para os pais. As mães estimularam mais seus bebês, ao mesmo tempo, foram mais intrusivas do que os pais. Estes, por sua vez, apresentaram mais comportamentos de responsividade com o bebê na interação. Ao considerar as análises inferenciais, essas diferenças não foram estatisticamente significativas.

Quanto à idade gestacional, cuidadores de bebês nascidos a termo apresentaram uma duração maior de comportamentos de estimulação na interação com seus filhos, em comparação aos cuidadores de bebês nascidos pré-termo. O mesmo ocorreu com o comportamento de intrusividade. Por outro lado, cuidadores de bebês nascidos pré-termo apresentaram comportamentos responsivos por mais tempo em comparação aos cuidadores de bebês nascidos a termo. Todavia, as diferenças entre os grupos não foram estatisticamente significativas.

Não foram identificados efeitos da interação gênero do cuidador*idade gestacional para os comportamentos de estimulação e responsividade parental. Todavia, destacam-se os resultados descritivos. Tanto as mães quanto os pais de bebês nascidos a termo estimularam seus filhos por mais tempo em comparação aos cuidadores de bebês nascidos pré-termo. No entanto, entre o grupo de cuidadores de bebês nascidos pré-termo, as mães estimularam mais seus filhos do que os pais.

Em relação à responsividade, as mães de bebês nascidos pré-termo apresentaram por mais tempo estes comportamentos na interação com seus filhos, quando comparadas às mães de bebês nascidos a termo e aos pais. Estes, apresentaram mais responsividade na interação com seus filhos nascidos a termo.

Identificou-se efeito da interação gênero do cuidador*idade gestacional do bebê no comportamento de intrusividade com tamanho de efeito de 25,7%. Análises de post-hoc mostraram que as mães de bebês a termo emitiram significativamente por mais tempo a classe de comportamentos de intrusividade do que os pais de bebês nascidos a termo e as mães de bebês nascidos pré-termo .

Tabela 2: Média, desvio padrão, valor de F e p dos comportamentos do cuidador em interação com seu bebê considerando a divisão por gênero do cuidador e idade gestacional do bebê

Comportamentos parentaisMãe-bebêPai-bebêFp $n^2_p$ Post-hoc
M(DP)M(DP)
Gênero do cuidador
Estimulação167,9(53,4)154,4(45,5)0,8030,379
Intrusividade29,9(28,1)20,1(16,5)3,0120,095
Responsividade88,4(53,2)100,9(47,3)1,0460,316
Idade gestacional do bebêPré-termoA termo
Estimulação154,6(57,6)164,1(38,9)0,6430,430
Intrusividade22,3(20,8)25,3(23,1)2,2060,150
Responsividade103,1(59,8)89,7(37,5)1,7260,201
Gênero do cuidador*idade gestacional do bebê
EstimulaçãoMãe-bebêPai-bebê
Pré-termo158,8(59,4)150,3(60,2)0,2130,649
A termo183,7(43,9)157,0(36,4)
IntrusividadeMãe-bebêPai-bebê8,6590,0070,257
Pré-termo17,7(20,1)26,8(22,2)Mãe AT>Mãe PT
A termo51,2(29,6)15,8(10,7)Mãe AT>Pai AT
ResponsividadeMãe-bebêPai-bebê
Pré-termo108,6(56,2)97,7(67,2)2,5280,124
A termo53,0(22,7)103,0(32,9)

A Tabela 3 apresenta os resultados para os comportamentos do bebê. As médias dos comportamentos dos bebês na interação com as mães e os pais foram semelhantes. Os comportamentos interativos positivos foram aqueles emitidos com maior duração, e por mais tempo na interação mãe-bebê. Os comportamentos interativos negativos tiveram uma duração maior na interação pai-bebê. As diferenças entre os grupos não foram estatisticamente significativas.

Com relação à idade gestacional, bebês nascidos a termo emitiriam por mais tempo comportamentos interativos positivos e negativos na interação com seu cuidador em comparação aos bebês nascidos pré-termo. Os comportamentos não interativos ocorreram por mais tempo na interação entre bebês nascidos pré-termo e seus cuidadores, em comparação à interação cuidador-bebê nascidos a termo. As diferenças entre os grupos também não foram significativas ao considerar esta variável.

Não foram identificados efeitos da interação entre gênero do cuidador e idade gestacional para os comportamentos do bebê. Ao considerar os dados descritivos, bebês nascidos a termo emitiram por mais tempo comportamentos interativos positivos tanto na interação com as mães como com os pais. Os comportamentos interativos negativos ocorreram com maior duração na interação mãe-bebê para aqueles nascidos pré-termo, e pai-bebê para os nascidos a termo. Bebês pré-termo passaram mais tempo emitindo comportamentos não interativos na interação com os pais em comparação às mães; os bebês a termo tiveram uma duração maior destes comportamentos na interação com as mães, em comparação à interação com os pais, e com os bebês nascidos pré-termo.

Tabela 3: Comparações entre os comportamentos do bebê considerando a divisão de acordo com o gênero do cuidador e a idade gestacional do bebê

Comportamentos dos bebêsMãe-bebêPai-bebêFp
M(DP)M(DP)
Gênero do cuidador
Interativos positivos186,3(60,6)181,2(66,5)0,3150,580
Interativos negativos22,2(19,3)27,7(42,7)0,1360,716
Não interativos91,5(66,2)91,0(64,0)0,1350,717
Idade gestacional do bebêPré-termoA termo
Interativos positivos162,4(69,9)202,5(51,3)2,3560,137
Interativos negativos21,3(17,1)29,6(46,7)0,0430,837
Não interativos116,2(73,0)67,9(44,1)3,0880,091
Gênero do cuidador*idade gestacional do bebê
Interativos positivosMãe-bebêPai-bebê
Pré-termo181,7(58,3)143,1(79,4)1,0420,317
A termo194,2(72,7)205,4(45,5)
Interativos negativosMãe-bebêPai-bebê
Pré-termo27,4(19,9)15,3(12,5)1,4900,234
A termo13,0(16,4)35,6(53,2)
Não interativosMãe-bebêPai-bebê
Pré-termo90,8(69,1)141,6(72,6)3,3850,078
A termo92,7(71,0)58,9(29,6)

VI. DISCUSSÃO

O presente estudo pretendeu analisar o efeito do gênero do cuidador e da idade gestacional do bebê sobre a interação cuidador-bebê avaliada por meio de comportamentos do bebê (interativo positivo, negativo e não interativo) e do cuidador (responsividade, intrusividade e estimulação). Os resultados apontaram para efeito da interação das variáveis investigadas no comportamento de intrusividade parental., isto é, as mães de bebês nascidos a termo apresentaram-se mais intrusivas na interação com seus filhos do que os pais de bebês nascidos a termo e as mães de bebês nascidos pré-termo. Ao considerar o tamanho do efeito, apenas 25,7% da variância encontrada nesse comportamento foi explicada pela interação entre as variáveis investigadas.

Considerando a intrusividade como um comportamento de controle, os dados não corroboraram as hipóteses iniciais de que a intrusividade seria mais observada em diades cujos bebês nasceram pré-termo e divergiram dos achados da meta-análise realizada por Toscano et al. (2019). No contexto da interação, a diferença entre um comportamento de estimulação e de intrusividade materna é tênue, visto que ambos podem constituir tentativas maternas de promover o desenvolvimento da criança e estimulá-la, mas as respostas do bebê a esses comportamentos é que sinalizarão para a mãe o momento em que a estimulação deve ser interrompida e a interação alterada. Uma hipótese para a diferença considerando a idade gestacional do bebê, pode ocorrer devido as mães de bebês pré-termo geralmente receberem orientação e suporte profissional durante o período de internação de seus filhos e acompanhamento em ambulatório especializado após a alta, o que pode contribuir para a ocorrência de responsividade e promoção de vínculo entre a diade (Szewczyk et al., 2021), tornando-as menos intrusivas.

A intrusividade também foi maior em mães de bebês nascidos a termo em comparação às mães de bebês pré-termo tardios (32-36 semanas) em um estudo conduzido na Austrália por McMahon et al. (2022). Nesse estudo as crianças tinham dois anos de idade corrigida e foram encontradas relações entre os comportamentos maternos e o desenvolvimento infantil, com melhores resultados em cognição e linguagem para crianças cujas mães apresentaram médias maiores em comportamentos não intrusivos. Nesse sentido, ressalta-se a importância de oferecer intervenções que promovam o cuidado respo3nsivo de cuidadores de crianças, ainda no começo da vida, para evitar a exposição prolongada da criança a cuidados intrusivos e desfechos negativos a longo prazo no seu desenvolvimento (Gueron-Sella et al., 2018). Considerando esses efeitos, destaca-se que essas intervenções devem ser direcionadas a todos os cuidadores de crianças, independente do gênero.

Com relação a diferença na intrusividade de mães e pais de bebês nascidos a termo, esse resultado difere do encontrado por Hall et al. (2015) em que não houve diferença entre comportamentos parentais considerando a idade gestacional da criança. No presente estudo, havia um número maior de pais cujos bebês nasceram a termo e o resultado parece indicar que os pais da amostra estudada participavam ativamente das atividades de cuidado e estimulação de seus filhos, contribuindo efetivamente para o seu desenvolvimento. Esse resultado pode sugerir uma mudança em práticas culturais relacionadas ao envolvimento paterno nas atividades de cuidado dos filhos e a corresponsabilidade de mães e pais na criação e educação de seus filhos (Menezes et al., 2019).

Essa hipótese também pode ser considerada ao analisar as similaridades entre os comportamentos de estimulação e responsividade dos cuidadores. Não houve efeito isolado da variável gênero do cuidador e da interação entre gênero do cuidador e idade gestacional para esses comportamentos, aproximando-se dos achados de Yago et al. (2014).

Backes et al. (2021) encontraram que pais que apresentaram apego seguro com seus filhos em idade pré-escolar se dedicavam mais aos cuidados básicos da criança e promoviam atividades que incentivavam os filhos a explorar o ambiente e desenvolver sua autonomia em comparação aqueles que apresentavam apego inseguro. Nesse sentido, a similaridade entre os comportamentos parentais observados no presente estudo pode se apresentar como um fator de proteção e sinalizar para a importância de promover o envolvimento paterno, o mais precoce possível, como forma de desenvolver relações de apego seguro entre a criança e seu cuidador, beneficiando o desenvolvimento da criança a longo prazo.

A experiência da parentalidade foi controlada no presente estudo e o bebê era o primeiro filho do cuidador. As similaridades observadas nos comportamentos de estimulação e responsividade parental também pode relacionar-se à essa variável. O nascimento de um filho caracteriza-se como uma mudança na trajetória de desenvolvimento do cuidador, uma vez que com a criança chegam novas responsabilidades, necessidade de desenvolver novos repertórios comportamentais, a transição para a parentalidade e mudanças na relação conjugal (Pedroti & Frizzo, 2019). Pais e mães primíparos podem estar mais sensíveis aos comportamentos das crianças, preocupados em ter relações de qualidade com elas, engajados em aprender novos comportamentos, a discriminar suas reações e proporcionar oportunidades de aprendizagem, como já discutido em outros estudos, como Jasemi et al. (2020) e Maupin et al. (2018).

Ao analisar os comportamentos dos bebês, não foram encontrados efeitos do gênero do cuidador, corroborando os resultados apontados por Kokkinaki e Vasdekis (2015), Cerezo et al. (2017) e Pereira et al. (2018). Isso pode ocorrer devido a idade do bebê que, no momento do estudo, tinham entre três e quatro meses, e ainda estavam aprendendo a discriminar o parceiro da interação, o que possibilitaria comportar-se diferencialmente na interação com cada cuidador, diante de contingências diferenciais. Todavia, destaca-se a importância dos cuidadores (independente do gênero) para o cuidado e desenvolvimento das crianças. A ausência de diferenças na interação do bebê com seu cuidador quando considerado o gênero referenda essa questão.

Ao considerar o efeito isolado da idade gestacional, também não foram encontradas diferenças significativas nas análises realizadas tanto para os comportamentos do cuidador como do bebê, não confirmando a hipótese de que os bebês nascidos pré-termo apresentariam mais comportamentos não interativos em comparação aos bebês nascidos a termo. Foi identificada similaridade no comportamento dos cuidadores, aproximando-se do encontrado por Hall et al. (2015). Esses resultados podem sugerir que as dificuldades encontradas pelas famílias de crianças que nasceram pré-termo diminuem conforme a criança recebe alta hospitalar e os cuidadores vivenciam a rotina de cuidados com seu filho e acompanham seus progressos, tendo oportunidade de interagir com ela e aprender nessa interação.

O presente estudo apresenta limitações como o número reduzido de participantes e uma amostra de conveniência, limitando a generalização dos resultados obtidos e sugerindo a seleção de cuidadores que já eram mais envolvidos, disponíveis para o seu bebê e preocupados com a parentalidade. Apenas 25,7% da variância observada no comportamento intrusivo parental foi explicada pela interação entre as variáveis investigadas, necessitando de novas investigações que explorem o efeito de outras variáveis no controle dos comportamentos paternos. Além disso, trata-se de um estudo descritivo e não explicativo, sendo necessário pesquisas com outros delineamentos.

Sugere-se que novos estudos insiram nas suas investigações mães e pais do mesmo bebê, com observações contínuas/sistemáticas de cada diade em diferentes sessões de observação e acompanhadas longitudinalmente, como no primeiro ano de vida da criança, o que pode auxiliar na compreensão das variáveis que afetam a interação, as investigações sobre a qualidade da mesma e possibilidades de intervenção, caso seja identificada a necessidade. Além disso, sugere-se que sejam investigados diferentes modelos de família (exemplo homoafetivas, constituídas pela adoção), e a multiparidade em comparação a primiparidade, como a identificada nesse estudo, uma vez que a experiência prévia de maternidade e paternidade também pode impactar nas relações estabelecidos com o bebê. As relações entre os comportamentos interativos dos cuidadores e o desenvolvimento infantil também se mostra relevante, principalmente quando o bebê nasceu pré-termo, visto que pode contribuir para a identificação de fatores protetivos para essa população.

Os resultados do presente estudo sugerem que cuidadores de bebês poderiam se beneficiar de programas de intervenção que os auxiliem a identificar os efeitos de seus comportamentos para os bebês, diminuindo a intrusividade, aumentando a sensibilidade às pistas emitidas pela criança e contribuindo com a promoção do desenvolvimento infantil. A oferta de intervenções universais, ou seja, oferecidas para cuidadores de crianças independente do gênero ou da presença de fatores de risco ao desenvolvimento poderia ser um caminho para atender as necessidades das famílias, apoiando-as no exercício da sua parentalidade.

Conflict of Interest

The authors declare no conflict of interest.

Ethical Approval

Not applicable

Data Availability

The datasets used in this study are openly available at [repository link] and the source code is available on GitHub at [GitHub link].

Funding

This work did not receive any external funding.

References

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  • LCC Code: RJ216
  • Version of record

    v1.0

  • Issue date

    10 January 2024

  • Language

    pt

Caregiver-Infant Interaction: Effects of Caregiver Gender and Prematurity Caregiver-Infant Interaction and Prematurity
Open Access
Research Article
CC-BY-NC 4.0
LJRHSS Volume 23 LJRHSS Volume 23 Issue 24, Pg. 15-29
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