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− Abstract
A produção literária das periferias brasileiras a partir dos anos 2000 desafia a estrutura do sistema literário hegemônico. Ela é entendida aqui como marco cultural que pluraliza a produção literária brasileira contemporânea, problematizando e desafiando as estruturas hegemônicas do campo literário brasileiro, de saber e de poder. O presente artigo considera as trajetórias literárias de Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus e de João Antônio ao longo do século XX, e, nos anos 2000, da obra Cidade de Deus, de Paulo Lins, a trajetória de Ferréz e a publicação das três edições especiais da revista Caros Amigos/Literatura Marginal – 2001, 2002 e 2004, para comprovar o surgimento de um outro espaço simbólico de produção literária: o paracampo. A proposição desse conceito desestabiliza o campo literário hegemônico, interferindo nas condições e na forma de produção de cultura a partir das periferias brasileiras, por isso a elaboração do conceito para interpretar as especificidades dos objetos literários abordados e como os agentes oriundos das periferias tensionam e interferem nas regras da arte do campo literário. O paracampo, desse modo, é uma proposta epistêmica intercultural que reflete as relações estabelecidas entre os agentes produtores de cultura desde as periferias brasileiras e mesmo para além delas.
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# Introdução
Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus e João Antônio, durante o século XX, são escritores que se inseriram – em alguma medida – dentro do campo literário nacional em emergência, ou foram silenciados ao longo do tempo. Na virada para o XXI, a obra *Cidade de Deus*, de Paulo Lins, as ações de Ferréz e o surgimento da Revista *Caros Amigos/Literatura Marginal*, são marcas expressivas do surgimento de um novo setor – relativo ao campo literário – que começa a se desenvolver nas letras brasileiras, possibilitando, que outros agentes – com a mesma trajetória – também se insiram no mesmo movimento e criem estratégias de legitimação (saraus, revistas especializadas, festas literárias, mercado próprio, selos editoriais etc.). Surge, assim, um espaço simbólico[^1] em processo de autonomização constante e que apresenta marcas de diferenciação social e cultural, desenvolvendo para si, por exemplo, um modo de escrita (neste caso, em análise, os textos em prosa que aproximam elementos orais ao modelo hegemônico de produção literária) que parte de um mesmo ponto de vista: a(s) periferia(s).
A partir do reconhecimento entre agentes semelhantes, suas tomadas de posição e trajetórias específicas, vinculadas a um espírito de época, um movimento literário, ou melhor, uma estrutura/sistema de escritores em busca de autonomia, com objetivos estéticos (tanto na literatura quanto em outras artes) começa a emergir. O *paracampo*[^2] atrairia para o seu entorno agentes com: um capital cultural específico voltado para a especialização de gêneros, de temas literários e de elementos de distinção;[^3] um capital social (e econômico) com origens e trajetórias sociais semelhantes; certas diretrizes de produção e de representação; criação de espaços materiais (lugares de reuniões, eventos, festas) e simbólicos (revistas e outras organizações) de encontro de agentes com *habitus* semelhantes; criação de instituições legitimadoras; e, surgimento de um mercado especializado próprio. O movimento de atração de tais categorias, propostas pelos novos agentes, acontece porque o campo literário hegemônico (com todas as suas regras específicas), no momento do aparecimento dessa nova produção, não a reconhece como legítima:
> Se se sabe que cada campo – música, pintura, poesia ou, em outra ordem, economia, linguística, biologia etc. – tem sua história autônoma, que determina suas regras e suas apostas específicas, vê-se que a interpretação por referência à história própria do campo (ou da disciplina) é a condição prévia da interpretação com relação ao contexto contemporâneo, quer se trate dos outros campos de produção cultural, quer do campo político e econômico. A questão fundamental torna-se, então, saber se *os efeitos sociais da contemporaneidade cronológica, ou mesmo a unidade espacial*, como o fato de partilhar os mesmos lugares de encontro específicos, cafés literários, revistas, associações culturais, salões etc., ou de estar expostos às mesmas mensagens culturais, obras de referência comuns, questões obrigatórias, acontecimentos marcantes etc., são suficientemente poderosos para determinar, para além da autonomia dos diferentes campos, uma problemática comum, entendida não como um *Zeitgeist*, uma comunidade de espírito ou de estilo de vida, mas como um espaço dos possíveis, sistema de tomadas de posição diferentes com relação ao qual cada um deve definir-se. O que leva a colocar em termos claros a questão das tradições nacionais ligadas à existência de estruturas estatais (especialmente escolares) capazes de favorecer mais ou menos a preeminência de um lugar cultural central, de um capital cultural, e de encorajar mais ou menos a especialização (em gênero, disciplinas etc.) ou, ao contrário, a interação entre os membros de diferentes campos, ou de consagrar uma configuração particular da estrutura hierárquica das artes (com a predominância duradoura ou conjunturalmente dada a uma delas, música, pintura ou literatura) ou das disciplinas científicas (Bourdieu, 1996, p. 227-228, grifos do autor).
Tais efeitos da contemporaneidade, nos mais diversos campos (político, econômico, social), tornam-se, desse modo, suficientemente poderosos para que haja uma confluência de ações determinantes para o surgimento de um novo espaço simbólico de produção literária. Um *paracampo* literário, paralelamente em disputa por legitimidade em relação ao campo literário hegemônico, pode ser percebido nas relações que os agentes construíram e têm desenvolvido, marcadamente, desde o início do século XXI. Um espaço de possibilidades de produção especializada, de representação, de lutas simbólicas e de disputas que se coloca ao lado ou em paralelo à série literária dominante.
Uma vez que há novos modos de expressão literária, os antigos modelos de crítica também entram crise, pois não são suficientes para dar conta de refletir sobre as recentes mudanças. A premissa formalista de privilégio exclusivo da obra literária dá lugar hoje a novas questões relativas sobre o autor, o leitor e o espaço social/cultural que influenciam a construção do texto. Esferas extraliterárias entram no debate e são acionadas pela crítica em uma tentativa de compreensão ampla sobre o objeto estético. Nesse sentido, repensar conceitos e propor novas formulações é uma atitude quase inerente ao processo de estudo da literatura marginal das periferias.
# Gênese e estruturação
Pierre Bourdieu, em seus escritos, não fala a respeito de um *paracampo*, também não deixa claro ou não define explicitamente o que seria um subcampo[^4] – único conceito que se aproximaria, em alguma medida, ao ora proposto. O sociólogo aponta em algumas partes de seus textos subcampos culturais ou literários determinados em relação a posições de poder dentro do campo ocupadas por agentes ou por instituições/instâncias sagradoras. Bourdieu reflete sobre subcampos que se configurariam a partir dos gêneros literários, como, por exemplo, o subcampo do teatro, em *As regras da arte* (Bourdieu, 1996). O subcampo, portanto, estaria em uma posição de inferioridade em relação às outras produções estabelecidas legitimamente dentro das regras da arte.
O subcampo, dessa maneira, fica condicionado à sua posição inferior dentro da estrutura maior do campo literário, sem uma plena autonomia em oposição ao polo dominante, pois manteria relação direta de dependência com as dinâmicas estabelecidas no sistema literário dominante. Em contraste, o *paracampo*, conforme proposto, tenta se desvincular dessas estratégias e busca estruturar (ou criar) novos processos que sejam autônomos e distintos. Seria ilegítimo dizer que o *paracampo* não possui relação ao campo literário dominante. Os agentes que surgem no novo espaço simbólico atuam no sistema literário dominante, mas sem se condicionar unicamente a uma posição inferiorizada e dependente dos padrões estéticos-temáticos predominantes. O que se destaca, contudo, é a organização insubordinada frente às regras do sistema dominante, de modo que os agentes do *paracampo* – com processo de autonomia relativa e homóloga oposta/paralelamente ao campo literário hegemônico – possam disputar outras posições no campo literário trazendo para o jogo, com isso, um maior volume de capital simbólico adquirido no interior do *paracampo*.
No entanto, o *paracampo* é percebido – e aqui proposto – como um espaço simbólico de atuação (e atração) de agentes que estão em diferentes níveis, seja de quantidade de atuação/produção, bem como de qualidade literária, ao propor novas estéticas para a literatura. Contudo, é inegável que esse espaço *para* não é automático e nem “surge” espontaneamente, de modo que toda obra literária aparece em um determinado polo do campo hegemônico. Historicamente, o *paracampo* literário marginal das periferias estabelece contornos próprios com uma estruturação específica e em algum limite independente das instâncias de consagração do campo hegemônico que detém outras instâncias de legitimação específicas.
Estratégias e instâncias de consagração contemporâneas evidenciam um apagamento – dissimulado em um esquecimento – de determinados setores e de agentes ativos dentro do campo literário nacional por parte daqueles que detêm o domínio e o poder legitimador dentro do campo literário. *Cidade de Deus*, as ações de Ferréz, assim como a *Revista* *Caros Amigos/Literatura Marginal*, comprovam a atuação plena e consolidada dos agentes produtores de literatura produzida por sujeitos marginalizados socialmente, originários e oriundos de periferias. Em um primeiro plano, essa reunião de escritores acontece por meio de um reconhecimento ético a respeito do seu local de origem e sobre o modo de representação de espaços marginalizados. Em seguida, a estética surge como desdobramento inerente à ética ao propor novas abordagens e novos modelos narrativos.
O ponto em destaque é: esses agentes não falam apenas *sobre* a(s) periferia(s), mas a partir *da* margem social e geográfica. O ponto de vista dos sujeitos parte da periferia e cria subjetividades imbuídas de modos de ser no mundo. Assim como estetiza outras referências de leituras prévias, ressignificadas por suas experiências de vida, além de criar outros textos com forte influência de uma oralidade marginal. De modo geral, ficcionalizam e ressignificam as suas trajetórias biográficas. Uma vez que a posição dentro do campo social é negada, assim como o posicionamento dentro do campo de produção literário também é contestado por outros agentes que ocupam posição de poder, as instâncias de consagração com relativa autonomia não reconhecem valor em determinadas obras.
É inegável, porém, que a partir do final dos anos 1990 e início dos anos 2000, os autores marginais-periféricos têm movimentado muito a cena literária brasileira. Por meio de organizações coletivas, saraus, prêmios literários, concursos, eventos críticos e literários, dentre tantas outras atividades que movimentam não apenas as periferias, mas todo o cenário nacional, inclusive, o olhar da própria Academia e do campo jornalístico, por exemplo, para essa significativa expressão cultural advinda das margens dos centros urbanos, o cenário cultural contemporâneo é alterado. O que deve se destacar, nesse entremeio, é que uma vez que as instâncias de consagração e as estratégias dos seus agentes dominantes não reconhecem a legitimidade dessas produções, os agentes literários marginais das periferias, por meio de sua produção, reformulam as estratégias e instâncias legitimadoras. Um *paracampo*, com isso, estaria inserido em um jogo de disputa por espaço específico em oposição ao sistema literário nacional – no caso, esses agentes dentro do campo literário permanecem em um polo dominado e não são reconhecidos/legitimados enquanto escritores pelo polo oposto, o dominante.
O *paracampo* literário marginal das periferias, com isso, desenvolve um *habitus* próprio relativo ao espaço simbólico (representado pelos escritores) e ressignifica um novo repertório referente a modos de pensar, gostos, comportamentos e estilos de vida inerentes a esse *paracampo*. Segundo a lógica bourdiana (Bourdieu, 2003), as práticas constituem uma expressão sistemática relativa às condições de existência, sendo que há correspondência relativa entre as posições sociais e os estilos de vida passíveis de reproduzir *habitus* substituíveis com lógicas específicas voltadas para esse novo espaço e que são passíveis de serem observadas, por sua vez, no detalhe singular das ações dos agentes.
> Gerado num tipo determinado de condições materiais de existência, esse sistema de esquemas geradores, inseparavelmente éticos e estéticos, exprime, segundo sua lógica, a necessidade dessas condições em sistemas de preferências cujas oposições reproduzem, sob forma transfigurada e muitas vezes irreconhecível, as diferenças ligadas à posição na estrutura de distribuição dos instrumentos de apropriação, assim transmutadas em distinções simbólicas (Bourdieu, 2003, p. 74).
O *paracampo* entra, desse modo, na lógica de reprodução associada ao espaço simbólico da posição do agente e perceptível na prática estética vinculada à ética, ou na sua trajetória. Por meio da prática dos agentes (evidentemente marcada por uma ação coletiva), há uma estrutura estruturante em oposição à estrutura estruturada dominante no campo de poder.
Nessa constante movimentação, o *habitus* primário de cada agente estaria voltado para os modos de representação, mais especificamente, para a mudança de enunciação realizadas a partir do ponto de vista das periferias marginalizadas. Desse modo, Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus e João Antônio apresentam, a partir de seu estilo individual, um novo estilo literário de escrita na forma e no conteúdo e, ao mesmo tempo, concretizam uma quebra dentro do jogo de poder do campo social dominante. Esses escritores, por sua vez, são reconhecidos como precursores de um novo fazer literário por aqueles agentes que, na contemporaneidade, estão agindo no *paracampo*. Dessa forma, há reconhecimento de produção estética, bem como de *habitus* primário em relação às histórias de vida.
Enquanto domínio coletivo de um grupo, o *habitus* secundário – que aos poucos se pode entrever no desenvolvimento da estrutura do *paracampo* –, por sua vez, diz respeito à determinação de novas possibilidades de criação individual de estilos literários de cada autor, um espaço simbólico literário dentro do *paracampo* (variante estrutural do *habitus*). Dentro desse grupo de escritores, enquanto capital incorporado, o *habitus* marginal da periferia torna-se conhecimento adquirido aliado à capacidade criativa dos agentes. A percepção desses dois *habitus* permite afirmar uma maior liberdade de criação, mas sem a perda de um vínculo com o todo coletivo de produção.
Seguindo a lógica de um *habitus* presente e em desenvolvimento no *paracampo*, Mario Augusto Medeiros da Silva, em seu trabalho de doutoramento, destaca três características que giram em torno de uma “ideia de periferia” e que, nesta argumentação, podem trazer luz à especificidade do que seria o *habitus* do *paracampo*:
> Como A) ponto de partida e reconhecimento (a origem social dos autores e a posição ocupada no sistema literário); B) método explicativo (*a periferia do sistema social e literário se tornam a referência para a explicação dos processos sócio-históricos, bem como para a confecção literária); e, por fim, C) formatação de tentativas de um projeto político, uma vez que, adentrados na cena, cada vez mais escritores periféricos são chamados a discutir as mazelas da sociedade. Conquistam o interesse social para explicar os impasses sociais por que falam desde dentro, vêm e veem de lá etc.* (Silva, 2011, p. 412-413, grifos do autor).
Sem fazer menção aos conceitos aqui propostos, o pesquisador, contudo, destaca os mesmos aspectos percebidos na proposição de *habitus* do *paracampo*. Os três elementos, destacados pelo pesquisador no excerto acima, são percebidos à medida que as produções literárias surgem no interior do *paracampo*. Acrescente-se a isso, a perspectiva política (voltada para o exterior do espaço simbólico) que não está alheia às ações externas e internas ao *paracampo*. Pelo contrário, as ações perpetradas no interior do espaço dialogam diretamente com outras mobilizações externas e repercutem, mais uma vez, no interior desse local.
Forma, conteúdo e temas apresentados pelos escritores, que depois reverberam no desenvolvimento do *habitus* do *paracampo*, são percebidos na atuação estética dos agentes contemporâneos. É necessário destacar, nesse entremeio, a forma oriunda desse *habitus* que gira em torno de um “eu” enunciador que se subjetifica. De um modo amplo, há uma quebra no padrão de quem tem acesso à escrita e à detenção de poder discursivo, com isso, quem era antes tratado como objeto de ficção, torna-se sujeito de sua própria produção literária. Mesmo quando a voz narrativa tenta se distanciar das ações, ela se aproxima e cria certos vínculos – quase – afetivos em relação às personagens. Além disso, a forma também procura uma conciliação entre escrita formal e oral. Gírias e dialetos típicos das periferias e favelas tomam corpo nas produções.
O *paracampo* literário marginal das periferias brasileiro, assim, agrupa os seus agentes em torno de estratégias comuns de oposição ao polo dominante do campo literário hegemônico:
> A literatura marginal da periferia não se vincula com o campo literário respondendo a suas regras pré-dadas (isto é, de maneira anacrônica) nem tampouco tratando de dissolver fronteiras (isto é, por fora da tradição), mas nos leva a repensar os modos de funcionamento e de legitimação do campo a partir da apresentação de produções que constituem o motor de uma transformação em relação à oferta de produtos simbólicos na literatura brasileira contemporânea (Tennina, 2017, p. 22).
A estrutura interna do *paracampo* (em movimento e em estruturação) aciona uma nova reconfiguração do sentido da voz do “eu” discursivo que se torna legítima à medida que se insere em um “duplo eu” (Bourdieu, 2010, p. 199) ou em um “nós” coletivo. O sujeito periférico, mesmo em uma posição marginalizada ou subalternizada, faz parte do campo social. Com efeito, o que lhe é negado são as condições mínimas de acesso a bens culturais/sociais ou de reconhecimento de sua voz que produz discurso próprio.
Com o “duplo eu” bourdiano, o que se identifica no seio do *paracampo* é a percepção dos agentes a respeito de um silenciamento imposto aos sujeitos subalternizados. Na lógica do *paracampo*, o uso da coletividade ganha contornos legitimatórios de reconhecimento de subjetividades silenciadas ao longo da história. O termo “coletividade” é entendido aqui como a reunião simbólica e material em torno de um mesmo objetivo, reconhecer distintas vozes e, por sua vez, legitimar diferentes representações, fazendo com que um novo espaço simbólico se estruture em oposição a um campo literário marcadamente excludente, com regras próprias e silenciador de determinados contextos e representações. Também pode ser compreendido como a reunião de forças de agentes com trajetórias e origens semelhantes. A coletividade pode ser percebida no próprio reconhecimento dos agentes dentro de seu campo social, uma vez que atraem em torno de si outros sujeitos com *habitus* similares e mesmo com aspirações comuns. Nesse sentido, uma vez que o “eu” individual não possui “força” suficiente dentro do campo literário para uma possível consagração, um “duplo eu” ou um “nós coletivo” é invocado para entrar no jogo do sistema literário.
Inserido em uma coletividade e utilizando-se desta, após esse agente acionar o “nós” e ganhar relativo reconhecimento dentro do *paracampo*, com um volume de capital maior adquirido, ele teria condições, com isso, de retornar e disputar outras posições no campo literário. Por outro lado, o volume de capital conquistado dentro e fora do *paracampo*, por meio de ações individuais dos agentes, contribui para que a ampliação do reconhecimento dos escritores seja difundida, por meio de processos homólogos ao *paracampo*, ou em outros campos simbólicos.
A coletividade, com isso, torna-se elemento constitutivo e gerador do *paracampo* igualmente por meio das ações conjuntas e no reconhecimento entre os pares, de acumulação de capital literário e de legitimação das obras entre seus autores, em vistas de autonomia individual, construída por meio de uma autonomia coletiva do *paracampo*, já reconhecida internamente. Bourdieu (1996) analisa o modo como o princípio de solidariedade se estabelece no polo dominado do campo literário pelos agentes que compartilham experiências semelhantes, *habitus* parecidos e as disposições relativas ao capital cultural e econômico que possuem:
> A homologia entre as posições no campo literário (etc.) e as posições no campo social global jamais é tão perfeita quanto aquela que se estabelece entre o campo literário e o campo do poder onde se recruta, na maior parte do tempo, o essencial de sua clientela. Sem dúvida, os escritores e os artistas que estão situados no polo economicamente dominado (e simbolicamente dominante) do campo literário, ele próprio temporalmente dominado, podem sentir-se solidários (pelo menos em suas recusas e suas revoltas) com os ocupantes das posições dominadas, econômica e culturalmente, no espaço social. Contudo, pelo fato de que as homologias de posição sobre as quais repousam essas alianças em ato ou em pensamento estão associadas a diferenças profundas em condição, elas não estão isentas de mal-entendido, ou mesmo de uma espécie de má-fé estrutural: a afinidade estrutural entre a vanguarda literária e a vanguarda política está no princípio de aproximações – entre o anarquista intelectual e o movimento simbolista, por exemplo – e de convergências apregoadas (Mallarmé falando do livro como “atentado”) que não ocorrem sem distâncias prudentes (Bourdieu, 1996, p. 284).
No *paracampo*, esse mesmo princípio coletivo de solidariedade apresenta-se com mais força. Fugindo de uma possível interpretação ingênua, é lógico que há competição por poder dentro desse novo espaço simbólico. As disputas, por exemplo, em definir o nome do movimento (se é literatura marginal ou literatura periférica, para ficar apenas em duas nomenclaturas), evidenciam o caráter de jogo de controle que também se faz presente no seio desse local simbólico. Com a possibilidade de nomeação, o poder de legitimar (e de reconhecer) se tal obra faz parte ou não do movimento também constitui um aspecto inerente ao jogo interno do espaço. No entanto, em um primeiro momento, quando um agente surge no *paracampo*, uma vez que há identificação de *habitus*, reconhecimento de experiências semelhantes, pontos de vistas condizentes com a perspectiva geral do grupo, a probabilidade de exclusão do indivíduo é muito menor.
O *paracampo* cria, desse modo, estratégias e instâncias de consagração relativamente autônomas no seio desse espaço simbólico. São maneiras importantes de reconhecimento de obras e de artistas atuantes que contribuem para definição desse local e, ao mesmo tempo, auxiliam na divulgação que vai além das fronteiras do *paracampo*. Com isso, os processos de autonomia não surgem totalmente autônomos, mas tornam-se cada vez mais autonomizados conforme os processos de legitimação do espaço se especificam e se especializam. Considerado como um processo em desenvolvimento, o *paracampo* apresenta uma estrutura primeira de afirmação do entendimento do que seria o escritor “marginal” do século XXI e a atualiza conforme as estratégias, as ações e as instituições provenientes desse espaço.
Pierre Bourdieu, em *As regras da arte* (1996), representa imageticamente o campo literário, sua estrutura interna e as suas relações com outros espaços simbólicos, da seguinte maneira:
<figure>
<img src="https://doc.journalspress.com/kuzk4s_226339/author_package/media/image1.jpeg" alt="Campo de produção cultural" />
<p><em>Fonte: Bourdieu (1996, p. 144).</em></p>
<figcaption>Campo de produção cultural.</figcaption>
</figure>
Na imagem, o sociólogo demarca as polaridades do campo de produção cultural inserido no espaço social e em relação com o campo de poder. Desse modo, o campo artístico não está isolado e não fica completamente imune às ações externas, mesmo com sua possível e relativa autonomia. Além disso, Bourdieu apresenta os subcampos internos ao campo literário, nos quais fica evidente a subordinação interna e externa a qual os agentes são condicionados.
Em vista disso, conforme a proposição deste trabalho e com a própria união do sufixo “para-” com o conceito “campo”, o *paracampo* estaria em uma posição “ao lado” ou “próxima” da estrutura do campo literário, disputando, assim, posições de prestígio e buscando quebrar com regras que visam à subordinação dominante. O *paracampo* marginal das periferias, desse modo, poderia ser representado (na estrutura interna da relação entre ações, instâncias e instituições) da seguinte forma:
<figure>
<img src="https://doc.journalspress.com/kuzk4s_226339/author_package/media/image2.jpeg" alt="Paracampo literário marginal das periferias: conjunto das relações objetivas constitutivas na sua estrutura" />
<p><em>Fonte: elaboração própria.</em></p>
<figcaption>Paracampo literário marginal das periferias: conjunto das relações objetivas constitutivas na sua estrutura.</figcaption>
</figure>
O *paracampo* literário marginal das periferias surge e se estrutura no interior do campo social e em relação com esse espaço. Do mesmo modo, mas ao lado (ou em relação paralela) ao campo literário hegemônico. Os limites entre esses dois espaços de produção cultural não são determinantemente traçados, uma vez que é praticamente impossível cortar vínculos com as instituições de poder legitimadas no campo literário. Contudo, a aproximação de agentes com *habitus* e produções que refletem um mesmo *habitus* periférico é inegável dentro do sistema literário contemporâneo. Em outras palavras, a estruturação de um *paracampo* que une produtores culturais e outras ações (coletivas ou individuais e que não ficam restritas apenas à literatura) está diretamente em disputa por reconhecimento e por acúmulo de capital. Por outro lado, a própria estrutura do *paracampo* também possibilita que outros agentes atuem nesse espaço como, por exemplo, pesquisadores e teóricos advindos do campo acadêmico, ou mesmo aqueles que se movimentam pelos dois meios. A delimitação, com isso, de limites de acesso ao *paracampo* são definidos *a priori* através de *habitus* identificáveis na trajetória individual do agente, ou seja, por meio do reconhecimento do local de origem do indivíduo.
Diferentemente do modelo proposto por Pierre Bourdieu, o *paracampo* não traça regras rígidas específicas excludentes entre os agentes. O espaço simbólico, no entanto, estrutura-se a partir de “relações de conhecimento e de reconhecimento (concomitantemente materiais e simbólicas, instrumentais e expressivas), construtoras de identidade solidária de um grupo” (Vasconcelos, 2011, p. 44). Nesse sentido, um *paracampo* seria um estado temporal momentâneo de aquisição de capital cultural (social e, em outra medida, econômico) do agente inserido em uma coletividade organizada a partir do princípio de solidariedade afim de possibilitar intervenções no modo como as obras culturais são produzidas, difundidas e reconhecidas pelo campo literário. Em outra medida, a pesquisadora Lucía Tennina (2017), em sua pesquisa, percebe nas diversas produções e articulações de manifestações culturais, o aparecimento de um “capital periférico”:
> O conjunto de saraus da periferia e a produção literária que ali circula constituem um complexo sistema literário independente e autônomo que conta com seus próprios mecanismos de produção do valor literário, tanto técnicos como simbólicos. Esse sistema, embora em grande medida consiga se autogerir, estabelece agenciamentos com certas instituições culturais que se mostram interessadas no diálogo e na relação com os agentes periféricos e com o capital simbólico a partir do qual estes se afirmam (Tennina, 2017, p. 172).
Desse modo, o *paracampo* seria o espaço onde o capital periférico pode ser condensado em vista de um recurso de acumulação de um estoque de componentes (em sua maioria de prestígio) a serem possuídos pelos (ou transmitidos aos) indivíduos, ou coletivos. Ademais, esse tipo de capital (assim como os outros) integra formas de reconhecimento (um escritor, por exemplo, ao ser reconhecido por seus pares como “marginal”) ou estatutos de legitimação (como premiações e organizações coletivas).
Como já afirmado anteriormente, primeiro há identificação e reconhecimento de *habitus* semelhantes entre os agentes; em seguida, o coletivo, inserido nessa rede solidária, atua como mobilizador de identidade(s) simbólica(s) do grupo, estabelecendo, de modo bem definido, fronteiras e limites do *paracampo*. Nomeadamente, dentro dessa lógica, a definição de uma “cultura da periferia” sugere uma primeira definição de identidade que pode ser reconhecida e identificável dentro desse contexto. A cultura da periferia, assim, agrupa modos de vida, comportamentos coletivos, valores, práticas, linguajares e vestimentas dos membros das classes populares situados nos bairros tidos como periféricos.
A lógica das relações constitui-se a partir do reconhecimento solidário,[^5] originando transferências de recursos, em sua maioria, simbólicos – como o de prestígio. Casas editoriais, selos, organizações de obras coletivas, saraus, slams e outras ações são exemplos de redes coletivas de pertencimento nas quais os agentes ocupam espaços de trocas e de atribuição de capital cultural em vista de aquisição de autonomia. De todo modo, tais ações concretas dirigem-se para a constituição específica do agente enquanto produtor artístico.
As redes ou grupos de relação – o *paracampo* – não se constituem exclusivamente de maneira fixa ou contínua. São estágios temporais para produzir relações duráveis e úteis para, com isso, obter ganhos materiais e simbólicos. Nesse sentido, quanto mais gratuita for a troca, mais solidário tornar-se-á o grupo. No entanto, outro fator também pode estar oculto nas relações: o devedor de reconhecimento. Uma vez que o indivíduo recebe ajuda de outro agente, pode existir uma relação de poder (não no sentido de imposição ou de dependência, mas voltado para gratidão ou amor) entre o devedor (em nível de reconhecimento) para com o prestador. Na maioria dos casos, essas trocas originam novas ações dentro do *paracampo*, dando continuidade, com isso, às relações e à abertura do espaço simbólico para outros indivíduos, mobilizando, desse modo, a ação dos membros e dos novos agentes que surgem de maneira a retribuir relativa e proporcionalmente às investidas de legitimação dos agentes “mais velhos” para com os “mais novos”, produzindo, as relações duráveis e dando continuidade ao espaço simbólico.
Através dessa movimentação e de uma estrutura estruturante, mas que não é estruturada rigidamente, percebem-se três categorias: de ações (eventos, festas, saraus, organizações coletivas de livros e revistas), de estratégias (premiações e concursos) e de criação de instituições (selos e editoras). Todos esses aspectos são organizados de modo a conquistar reconhecimento, autonomia, acúmulo de capital (cultural e econômico)[^6] e afirmação do capital periférico.
# Ações, estratégias e instituições no *paracampo*
Os saraus das periferias são exemplos de redes de agenciamento entre agentes culturais. Os saraus da Cooperifa, do Binho, da Brasa, para citar apenas alguns de São Paulo, tornam-se pontos de expressão e afirmação cultural dos indivíduos reunidos nesses encontros. Com isso, é possível encontrar algum sarau quase todos os dias da semana em diferentes periferias da cidade paulista:
> A literatura marginal dos saraus da periferia consiste em uma literatura que se configura em um espaço particular da cidade – onde se articulam os elementos relacionais do meio popular (o respeito, a honra, o familiarismo, a religiosidade) com elementos vinculados ao contexto urbano (cidadanização, intervenção na esfera pública dos produtos populares, contato com a cultura letrada). Trata-se de uma literatura que se desenvolve através de práticas e fórmulas mais relacionais que interindividuais, e que dá vez, inclusive, a um certo modo de conhecimento e à elaboração de um saber que combina tradições diferentes (Tennina, 2017, p. 110).
Nesse sentido, por meio de uma ação coletiva de afirmação e de reconhecimento, os saraus tornam-se importantes espaços de divulgação da produção dos agentes. Ademais, servem como exemplo de espaço material de encontro e de trocas entre os agentes no interior do *paracampo*, como um dos principais pontos territoriais de contato dos produtores desse espaço simbólico das periferias. Contudo, as atividades expandem-se para além dos próprios saraus, dessas reuniões de poetas surgem premiações, mostras, encontros de diferentes saraus e outros eventos.
A Semana de Arte da Periferia (SAP), com o lema “É tudo nosso!”, por exemplo, realizada em novembro de 2007, organizada por Sérgio Vaz (fundador do Sarau da Cooperifa), foi um dos mais importantes eventos de afirmação da cultura da periferia e mesmo de expansão dessas manifestações artísticas para além dos limites das margens da cidade. Cada um dos sete dias do evento foi dedicado a uma expressão artística: dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema e música. Com isso, a Semana de Arte da Periferia colocou em discussão conceitos relativos à arte, à produção cultural e à legitimação dessas manifestações. Ao dialogar com a Semana de 1922, a SAP afirma o dever da arte em voltar-se, nesse contexto, para a construção de cultura que esteja próxima no seu conteúdo social e comunitário.
Nesse contexto, as ações internas de consagração criadas pelos agentes oriundos das periferias auxiliam na legitimação dos discursos construídos internamente ao *paracampo*. O Prêmio Cooperifa é exemplo de uma ação legitimadora dos agentes desse espaço: a premiação realizada pelo Sarau da Cooperifa desde 2005, no interior do *paracampo*, com estratégias próprias, organizada enquanto elemento valorativo para os escritores e todos os outros agentes culturais que se reconhecem (e, através da premiação) são reconhecidos como atuantes na cultura da periferia – uma vez que as premiações envolvem também cantores, artistas plásticos, jornalistas e periódicos, revistas, dentre outras categorias. O *paracampo*, desse modo, cria premiações que reconheçam a importância dos agentes e, ao mesmo tempo, dê prestígio à sua atuação. Esse prêmio, assim como diversos outros, tornam-se ações que aproximam agentes, possibilitam um amplo reconhecimento do público externo e interno, e cria laços para a inserção de novos agentes no *paracampo*.
> Trata-se, por um lado, de um tipo de reconhecimento individual a cada premiado pela contribuição que realiza ao sarau, mas também é uma estratégia de reconhecimento própria do grupo enquanto grupo, já que consiste em uma valorização simbólica dos distintos papéis que tornam possível o sarau, aprofundando, assim, o sentimento de pertença (Tennina, 2017, p. 93).
Em outro espaço dentro do *paracampo*, é possível ver que o polo editorial também se faz presente por meio de ações individuais de certos indivíduos que possuem relativo capital periférico e que atuam de modo a trazer para o debate outros agentes com trajetórias semelhantes. Ferréz, por exemplo, em 2005, organiza o livro *Literatura Marginal: talentos da escrita periférica*. A obra é oriunda das três edições especiais da Revista *Caros Amigos/Literatura Marginal*:
> A ideia de “literatura marginal” ganhou força a partir da publicação das antologias da revista *Caros Amigos*, mas um passo fundamental para sua consolidação foi a publicação do livro *Literatura Marginal: talentos da escrita periférica*, organizado também por Ferréz no ano de 2005 e lançado pela editora Agir. Nessa obra, Ferréz reuniu uma seleção de vinte e cinco textos originalmente publicados nos números especiais da *Caros Amigos*. A literatura marginal passava, assim, a ganhar força através de um instrumento letrado por excelência, o livro, inserindo-se, dessa forma, no mercado editorial (Tennina, 2017, p. 29).
Além desse livro, surgem outras organizações coletivas: *Cenas da favela*, de Nelson de Oliveira, de 2007, e *Eu sou favela*, de Paula Anacaona, de 2015. Nessa medida, os agentes não se contentam em manter o seu lugar de prestígio relativo conquistado, mas chamam para a cena outros escritores e, dessa forma, contribuem para a dinamicidade do *paracampo*. Ainda nesse polo, assomam editoras especializadas em obras da periferia, tais como a de Allan da Rosa, as Edições Toró, ou a de Maria Nilda de Carvalho Mota (a Dinha), a MeParió Revolução, dentre tantas outras.
Conforme a lógica do *paracampo*, uma vez que o campo literário hegemônico nem sempre possibilita condições de acesso a determinadas posições simbólicas, os agentes investem certo capital adquirido na e para a formação de novos espaços internos ao *paracampo*. Editoras e selos, dessa forma, contribuem para a formação de um mercado especializado no interior do *paracampo* que, por sua vez, volta-se para a produção especializada dos agentes das periferias. Nesse contexto, no início dos anos 2000, a mudança de paradigmas sobre a gestão da cultura no Brasil, no interior do campo político, também foi fundamental para o surgimento do *paracampo* – assim como para praticamente todas as ações no interior desse espaço simbólico –, uma vez que o Estado começa a reconhecer ações culturais que não eram até então consideradas e investe nelas, fato que nunca aconteceu antes.
No contexto dessas novas propostas de valorização das produções culturais das periferias, em 2012, nas favelas do Rio de Janeiro, surge a primeira edição da Festa Literária das Periferias (Flup). Como o nome já destaca, é possível perceber a oposição em relação à Festa Literária de Paraty (FLIP). De acordo com o portal da Flup:
> Passamos pelo Morro dos Prazeres, Vigário Geral, Mangueira, Babilônia, Mangueira e Vidigal, até chegarmos ao centro da cidade, abraçando a região que o sambista Heitor dos Prazeres batizou de “Pequena África”. \[...\]
>
> Outra característica que nos torna únicos é que a Flup é precedida por um processo formativo, que já resultou na publicação de 22 livros com autores das nossas periferias. Alguns autores que passaram por essas formações são Ana Paula Lisboa, Jessé Andarilho, Rodrigo Santos e o fenômeno Geovani Martins, jovem morador da Rocinha cujo livro de estreia foi traduzido para mais de 10 países.
>
> Pode-se atribuir à Flup a emergência da primeira geração de escritores oriundos das favelas cariocas (Flup, 2023).
Assim, o evento acontece fora dos grandes circuitos culturais do Rio de Janeiro. Além disso, as ações da festa contribuem para o aparecimento e formação de outros escritores. A Flup, ainda, possui marca de reconhecimento por agências e instituições (prêmios) externas ao *paracampo* literário marginal das periferias, o que, por sua vez, traz ao circuito outros capitais de reconhecimento e de legitimação que, dessa maneira, podem ser atribuídos também aos agentes inseridos nesse contexto.
Em um outro polo do *paracampo*, pode-se perceber a importância coletiva dos slams, que se fazem presentes em quase todo o território nacional. Essa manifestação cultural contemporânea relaciona-se diretamente no campo artístico com outras expressões, como: o rap, hip hop, saraus, as batalhas de MC’s e com a literatura marginal (Freitas, 2020). Nesse sentido, o slam constituído e relacionado diretamente com as produções de periferia pode ser localizado dentro do contexto atual de produção artística do *paracampo* literário marginal das periferias. Além disso, o slam movimenta de maneira distinta o campo literário ao tensionar os limites da literatura com suportes oral, escrito e visual – esse último aspecto é ainda mais relevante se se considerar que a maioria dos slams possui página no YouTube, com divulgação dos vídeos dos slammers declamando seus poemas, o que amplifica, com isso, suas vozes e a dimensão receptiva. Justamente por apresentar novos modelos de expressão poética, o *slam poetry* também articula outros contextos de produção e circuitos de divulgação e recepção, uma vez que a maioria dos slams são produzidos por agentes que habitam nas margens dos centros urbanos e ocupam, geralmente, praças públicas para expressá-los. Ao ocupar esses espaços antes negados a esses sujeitos, essa manifestação “tensiona ainda mais os limites entre literatura e música, poesia e vida, arte e ativismo – limites já complicados por outras manifestações da cultura hip-hop” (Freitas, 2020, p. 2).
Na dimensão pública da manifestação dos poemas, a poesia alcança o ouvinte que se torna agente atuante no momento da expressão dessa forma artística, de modo que o caráter coletivo se aprofunda ainda mais no slam. No Brasil, em 2008, surge o primeiro slam, o ZAP! (Zona Autônoma da Palavra), organizado por Roberta Estrela D’Alva, no bairro Pompeia, em São Paulo. No entanto, hoje, no Brasil, há registros de slams por quase todo o território nacional, de Belém a Porto Alegre, de Recife a Brasília, o que, desse modo, expande o *locus* performático e as abordagens temáticas para além do eixo Rio-São Paulo. Por fim, é notório que a maioria dos poemas apresentados versam sobre a luta por direitos humanos, aprofundando noções sobre política e luta social.
# O polo acadêmico do *paracampo*
Em um primeiro momento, frente ao surgimento desse novo espaço simbólico, o campo acadêmico/científico atua como oposição e não reconhece a legitimidade das ações de produção do *paracampo*. Considerado como espaço com um nível extremo de especialização e de reconhecimento social (Bourdieu, 2019), o campo acadêmico, ocupante de uma posição dominante no campo social, encarregado de dizer o que é arte ou não, frente às suas próprias regras arbitrárias de legitimação e de controle de poder, não acompanha as transformações ocorridas no mundo artístico. No entanto, conforme a mudança no campo social torna-se cada vez mais significativa – com a entrada de outros sujeitos, de distintas classes, gêneros, etnias e posições sociais –, o campo acadêmico começa a atuar diretamente com possibilidade de reconhecimento dessa arte associada às iniciativas internas ao *paracampo*. Ou seja, aquelas ações arbitrárias, tornadas naturais pelo próprio campo científico, são questionadas pelos agentes que surgem por meio de sua própria produção literária. Desse modo, há um número cada vez maior de eventos acadêmicos, organizações de livros, revistas especializadas, teses, dissertações e grupos de pesquisa com tema voltado à literatura marginal das periferias.
Em 2003, a Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) propôs o II Colóquio Sul de Literatura Comparada/Encontro ABRALIC 2003, realizado em Porto Alegre/RS, de 30 de julho a 1º de agosto. Nesse evento, buscou-se justamente expressar novas inquietações e afirmar certos compromissos teóricos com novas produções literárias. Dessa forma, o mote central, *Geografias Literárias e Culturais: espaços/temporalidades*, dialogou, em alguma medida, com as novas expressões literárias. Nos anais do evento, por exemplo, é possível encontrar o texto “Mutirões discursivos: com a palavra, as maiorias”, de Benito Rodriguez, no qual o autor reflete sobre as obras *Cidade de Deus* e *Capão pecado*, além de outros textos de Solano Trindade e outros escritores presentes na cena contemporânea.
Ainda no contexto do campo científico, a *Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea*, editada pelo Programa de Pós-graduação em Letras da UnB e conduzida pela pesquisadora Regina Dalcastagnè, publicou diversos números voltados para a produção marginal das periferias. Em 2003, por exemplo, o número 22 possuía como tema principal: “Sujeito e espaço social” (Estudos..., 2003). No volume, é possível encontrar um artigo que trabalha o livro *Quarto de despejo* e a trajetória de Carolina Maria de Jesus. No ano seguinte, 2004, o número 24 da revista é voltado para a “Literatura nas margens” (Estudos..., 2004). Dentro da seção temática, cinco artigos refletem diretamente sobre a produção literária marginal das periferias: “No fio da navalha: literatura e violência no Brasil de hoje”, de Tânia Pellegrini; “Literatura Marginal: o assalto ao poder da escrita”, de Fernando Eslava; “O ódio dedicado: algumas notas sobre a produção de Ferréz”, de Benito Rodriguez; “Literatura marginal em revista”, de Marcos Zibordi; e, “A narrativa insurgente do hip-hop”, de Ecio Salles (a edição ainda conta com uma resenha de Patrícia Oliveira sobre o livro *Suburbano convicto:* o cotidiano do Itaim Paulista, de Alessandro Buzo). Essas ações demonstram, por sua vez, o crescente aumento do interesse por parte do campo acadêmico para as produções literárias marginais.
Além disso, poder-se-ia ainda citar outro grande número de livros acadêmicos com artigos e ensaios que refletem sobre a produção literária das periferias, à guisa de exemplo: *Modos da margem:* figurações da marginalidade na literatura brasileira, organizado por Alexandre Faria, João Camillo Penna e Paulo Roberto Tonani do Patrocínio, de 2015; e, *Literatura e periferias*, por Regina Dalcastagnè e Lucía Tennina, de 2019. Desse modo, comprova-se o interesse do campo científico que cada vez mais se mobiliza em aprofundar o tema e trazer para o debate novas perspectivas analíticas.
A produção literária marginal das periferias incitou também pesquisadores e críticos a propor novas abordagens teóricas acerca da sociedade e da cultura brasileiras. Roberto Tonani do Patrocínio (2018), no texto “O sentimento íntimo de ser marginal: instinto de marginalidade”, propõe repensar a literatura marginal das periferias a partir de um “instinto de marginalidade”. O conceito, para o pesquisador, pode ser compreendido “no próprio ato de narrar os espaços esquecidos da cidade, a margem, a partir de um novo olhar, um olhar de dentro e próximo à realidade retratada” (Patrocínio, 2018, p. 143). O ensaio dialoga com o texto de Machado de Assis, “Instinto de nacionalidade: notícia da atual literatura brasileira”, de 1873, que procurava encontrar nas produções da época uma identidade univocamente brasileira. Contudo, a produção literária marginal, segundo Patrocínio (2018), demonstra que os espaços periféricos são núcleos políticos e estéticos de criação, evidenciando, por sua vez, que os que antes eram objetos de ficções, tornam-se, agora, sujeitos de seus escritos, “subverteram uma espécie de estrutura que se fazia já consagrada em nossa cultura e assumiram o lugar de sujeito da enunciação e não são mais como objetos retratados por intelectuais” (Patrocínio, 2018, p. 143). Com isso, aquela visão unívoca estaria em desacordo com as diversas formas de fazer literário e de representar “uma” identidade nacional. Esses exemplos comprovam a influência que a produção artística possui no pensamento crítico e social brasileiro.
A trajetória da pesquisadora Érica Peçanha do Nascimento, oriunda e moradora de uma periferia de São Paulo, Bairro do Jaraguá, por sua vez, pode ser encontrada dentro do polo acadêmico do *paracampo* literário marginal das periferias. A sua ampla produção acadêmica, bem como o vínculo com a Universidade de São Paulo (USP), uma das mais importantes do Brasil e da América Latina, comprovam o relativo prestígio que a professora possui. Outra ação que a destaca dentro do *paracampo* é o Prêmio Cooperifa Cultura da Periferia recebido em 2019. Tal ato valida e reconhece, por parte dos agentes do *paracampo*, a legitimidade do trabalho da pesquisadora. Além disso, o seu primeiro livro *Vozes marginais da literatura*, publicado pela Editora Aeroplano em 2009, fruto de sua pesquisa de mestrado, está esgotado. O trabalho coletivo que Érica do Nascimento desenvolve em parceria com outros pesquisadores reafirma o seu reconhecimento por parte do campo acadêmico hegemônico, como a organização do livro *Polifonias marginais* juntamente com Lucía Tennina, Mário Medeiros e Ingrid Hapke, publicado pela Aeroplano e pela UFRJ, em 2015. Por fim, o seu pós-doutoramento resultou na publicação, em 2020, do livro *Narrativas periféricas:* entre pontes, conexões e saberes plurais, pela Editora Amavisse e IEA (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo).
De todo modo, comprova-se que a partir de novas produções artísticas, novas epistemologias devem ser (re)pensadas e criadas. Percebe-se, dessa maneira, que os modelos tradicionais de crítica e de análise literária não são mais capazes de abarcar inovações estéticas trazidas pela literatura marginal das periferias – ou por outros movimentos literários contemporâneos. Com isso, novas abordagens são propostas nas diversas teses e dissertações que foram apresentadas nos últimos anos nos mais diversos programas de pós-graduação:
> Na medida em que a produção literária periférica se traduz em obras, perfis sociológicos e modos de inserção específicos de produtos e autores no campo cultural, merecem destaque, também, os rebatimentos acadêmicos provocados pela entrada em cena desses produtores literários. Com base em consultas ao Catálogo de Teses e dissertações da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), pude identificar 53 dissertações e teses, defendidas no Brasil entre 2004 e 2016, que se ocuparam especificamente da produção contemporânea associada às ideias de literatura marginal ou periférica (Nascimento, 2019, p. 33).
Tal movimentação do campo científico e a preocupação cada vez maior de pesquisadores em trabalhar com objetos estéticos de autoria de sujeitos marginais das periferias brasileiras comprova que os limites pré-definidos de um campo estão em constante movimentação, possibilitando que esse espaço simbólico altamente estruturado (Bourdieu, 2019) se abra para produções outras e, por sua vez, para agentes que não estariam no centro do debate. Com isso, o *paracampo* possibilita uma reorientação de seus agentes para novas proposições estéticas e mesmo reorientação epistemológica, uma vez que o campo acadêmico – como ficou demonstrado – pode ser encontrado nos limites desse novo espaço simbólico de produção artística. Além disso, é necessário destacar que o *paracampo*, tal como aqui apresentado, não depende da aprovação do campo acadêmico para a sua existência. A produção literária das periferias existe e continuará existindo indiferente às normas ou regras específicas de um campo. O campo acadêmico, contudo, entendido em relação ao campo artístico, é o espaço simbólico que precisa se voltar para manifestações culturais outras. Através de disputas, os agentes constroem espaços próprios que possibilitam tensionar determinados vínculos ou, em outra medida, relativizar a dependência interna com as instâncias canonizadas do campo literário hegemônico.
[^1]: Outros setores, tais como a literatura feminista, literatura LGBTQIA+ ou *Queer*, literatura negra, literatura indígena, para citar alguns exemplos, também apresentam, em certa medida, traços semelhantes ao movimento que tem ocorrido com a literatura marginal das periferias, destacando-se suas particularidades, afinidades e distinções, em vista de um *paracampo* literário com suas especificidades e elementos distintivos.
[^2]: Há que se considerar que a estratégia aqui proposta não faz referência a uma forma de controle ou de exclusão dos agentes frente ao campo literário. No entanto, funciona como proposta metodológica de pesquisa e de análise que pode ser percebida a partir das ações dos escritores (das suas práticas), como modelo de enfretamento às regras do campo literário dominante e que se torna legítimo ao longo do tempo. Para além do processo de exclusão, pensar as ações dos escritores marginais no desenvolvimento de um *paracampo* destaca a autonomia relativa frente ao campo literário e suas determinações, bem como torna-se reflexo das ações coletivas evidenciadas por meio de (re)produções conjuntas de livros e de outros movimentos, ou mesmo em ações individuais.
[^3]: O foco do presente trabalho são os textos em prosa. Contudo, destaca-se que há no mesmo *paracampo* outros gêneros textuais, diversas expressões e manifestações artísticas que fazem parte do mesmo espaço simbólico, com importância legítima. Com isso, não se pretende preterir um ou outro gênero, mas apenas focalizar, como método de análise ora proposto, um dos tantos aspectos e gêneros literários presentes no *paracampo*.
[^4]: Em *As regras da arte*, trabalho em que Pierre Bourdieu (1996) aprofunda a análise sobre a constituição do campo literário, o autor cita “subcampo” 7 vezes, nas páginas: 94, 139, 141, 144, 166, 246 e 256.
[^5]: Pierre Bourdieu (1996, p. 92) argumenta sobre a origem da solidariedade interna entre os agentes: “Porém, contrariamente ao que querem crer e fazer crer, ela não é apenas o resultado direto de uma fidelidade de disposições herdadas: enraíza-se também nas experiências associadas ao fato de ocupar, no interior do campo literário, uma posição dominada que não deixa de ter ligação, evidentemente, com sua posição de origem e, mais precisamente, com as disposições e o capital econômico e cultural que herdaram dela”.
[^6]: Importante destacar que todas as ações, estratégias e instituições aqui apresentadas são trazidas como exemplos e que não abarcam a totalidade, dentro do espaço dos possíveis, de atuação dos agentes. Nesse sentido, funcionam como amostras (ou paradigmas) das movimentações de agentes no interior do *paracampo*. Além disso, tais mobilizações não se condicionam apenas ao eixo Rio-São Paulo, podendo ser encontradas em outros locais do Brasil. Por outro lado, o surgimento do *paracampo* é territorialmente percebido nas periferias das duas cidades, mas, conforme o tempo, expande-se para outros locais.
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